As Ligas Camponesas do Brasil nas décadas de 50/60

O período que vai desde a criação das Ligas Camponesas, até o golpe militar de 1964 colocou as lutas sociais do meio rural em evidência na imprensa nacional. A primeira grande reportagem foi a de Antonio Callado, do jornal Diário da Manhã, que percorreu o Nordeste, e denunciou a “indústria da seca” – modo como os grandes proprietários de terra transformavam os problemas da seca em grande negócio, e como os açudes construídos com verbas públicas para o benefício de toda uma população rural acabavam servindo a uns poucos latifundiários. Callado relatou também a luta dos moradores de Galiléia para desapropriação do engenho – projeto encaminhado ao Governo do Estado – desses camponeses tornou-se, nos final da década de 1950, um símbolo de resistência para uma parcela da sociedade, enquanto para outros representava o avanço do comunismo e a ruptura da pax agrária.

Quando o juiz responsável pelo processo deu parecer favorável à desocupação das terras pelos moradores em débito, Callado rapidamente tomou partido em favor dos camponeses, afirmando que somente o projeto de desapropriação podia evitar o conflito. Em resposta o proprietário do engenho acionou tanto o jornalista quanto o deputado Francisco Julião, por incitarem o descumprimento do mandado de despejo. A Câmara Federal, por sua vez, emite uma moção de apoio a Callado com mais de cem assinaturas de parlamentares. Em última instância era o debate da reforma agrária que estava em pauta. Sob pressão dos trabalhadores, o governo assina a desapropriação do engenho. No bojo dessas disputas, e após intensa negociação, é criada a SUDENE, num esforço para industrializar o Nordeste.

Nesse meio tempo o jornalista do The New York Times, Tad Szulc, viaja ao Nordeste. A matéria, intitulada “Pobreza no Nordeste do Brasil gera ameaça de revolta”, não deixa dúvidas ao leitor americano que uma revolução comunista iminente está para ocorrer no país, e que os interesses dos Estados Unidos na região – inclusive como ponto de apoio ao lançamento de mísseis intercontinentais – poderiam ser comprometidos. Em paralelo, a Igreja Católica também se encontra preocupada com o avanço do comunismo. Desde a década de 1950, setores da Igreja vinham recomendando ao governo que se desenvolvesse uma política de reforma agrária, como forma de resolver as graves condições de vida e trabalho dos camponeses. Nesse sentido, a instituição buscava não perder os laços com os camponeses, como referência espiritual – a exemplo do que havia acontecido com os operários no século XIX. Pois com a organização dos trabalhadores, a tradição da Igreja vinha sendo radicalmente questionada, vista sempre como aliada dos grandes proprietários e forças políticas oligárquicas. Fosse através da crítica dos comunistas – religião como ópio do povo – ou mediante o contraste entre os ensinamentos de Jesus e o apoio eclesiástico aos grandes proprietários, o temor da perda do campesinato, desta vez, mobilizava as autoridades religiosas em favor dos pequenos.

Em face à ausência de sindicatos rurais, as Ligas tornam-se um caminho alternativo de organização e mobilização das massas de trabalhadores rurais. Após a desapropriação de Galiléia, elas se expandem para o Norte e o Sul do Brasil. Entretanto, após o primeiro de maio de 1962, quando o ministro do trabalho André Franco Montoro anuncia a aprovação de diversas cartas sindicais, abre-se uma disputa entre católicos, comunistas e as Ligas pelo controle dos sindicatos rurais. A partir desse momento, os sindicatos, antes considerados uma ameaça à paz agrária, passam a ser vistos como forma de barrar o avanço das Ligas Camponesas.  A sindicalização em massa irá contribuir para esvaziar as Ligas, que perde a hegemonia no movimento rural. Nas palavras de Antônio Torres Montenegro, “o golpe de 1964 irá interromper toda essa experiência histórica”.

Para saber mais:
MONTENEGRO, Antônio Torres. Ligas Camponesas e sindicatos rurais em tempo de revolução. In: FERREIRA, Jorge. (Org.) O Brasil Republicano. O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 256.
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4 thoughts on “As Ligas Camponesas do Brasil nas décadas de 50/60

    • Olá Eliene, o texto é meu, mas uso como referência o seguinte: MONTENEGRO, Antônio Torres. Ligas Camponesas e sindicatos rurais em tempo de revolução. In: FERREIRA, Jorge. (Org.) O Brasil Republicano. O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 256. Abraço, Orlando.

  1. Gostaria de saber de quem são as fotos, preciso fazer um trabalho de foto, porem tem que ter um fotografo referência mas é muito difícil encontrar nessa área. Obrigada.

    • Olá,
      Já tentou procurar no livro?
      FERREIRA, Jorge. (Org.) O Brasil Republicano. O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003

      Dá uma olhada também na obra do Salvador Salgado que tem bastante coisa legal.

      Abraço,
      Orlando.

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