O nacional-desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek

O nacional-desenvolvimentismo, durante a administração do presidente Juscelino Kubitschek, se consolidou como um estilo de governo e projeto social para o Brasil, tomando parte no imaginário de boa parte da população brasileira. O slogan “50 anos em 5″ lembra a onda de crescimento que nos deu, entre outras coisas, a capital federal Brasília. Foi grande o esforço no sentido de integrar o litoral e o interior do país, e de intensificar o desenvolvimento industrial capitalista, no contexto da democracia. No conjunto, essa ampliação da indústria multiplicou os empregos urbanos e trouxe, às camadas médias, novos produtos de consumo, antes pouco acessíveis, pois obtidos pela via da importação.

No contexto da frágil democracia brasileira, foi somente através da propaganda da ideologia do desenvolvimento que foi possível convencer proletários, camponeses e a classe média, a sustentarem um objetivo que, por fim, visava a consolidação de uma burguesia industrial. Ofertava-se, entretanto, o desenvolvimento nacional como algo de “todos para todos” (p. 165), e cujo resultado seria a transição do Brasil para o mundo das nações ricas e modernas. Obviamente que, sob a ótica do Plano de Metas – proposto por JK – as realizações foram uma proeza, e o desenvolvimento realmente foi sentido pelos brasileiros – em especial nos centros urbanos. Porém, em paralelo a isso, em dois pontos cruciais o governo juscelinista deixou margem para a crítica.

Primeiramente, durante sua administração – os chamados “Anos Dourados” – a nação não contava com uma poupança interna capaz de financiar as obras, “diante desse quadro, Juscelino implementou grande parte do Plano de Metas emitindo papel moeda e incentivando a instalação de multinacionais no país, o que resultou na ampliação da presença do capital internacional na economia brasileira”. Diversos setores do movimento nacionalista faziam frente a utilização desses recursos; qualificavam-no como “capital colonizador” – atrelando-o à lógica do imperialismo. Essa dependência internacional poderia liquidar a chance do desenvolvimento brasileiro satisfazer os interesses das camadas populares.

Em segundo lugar, JK prezou pela manutenção do modelo das oligarquias rurais. O governo entendia que as perspectivas de desenvolvimento ficariam comprometidas se a integração territorial e econômica não fosse intensificada. Entendia que o desenvolvimento do interior geraria, invariavelmente, mercado consumidor interno, além de ampliação do fornecimento de matéria-prima para a indústria. Segundo Vânia Moreira, a construção de Brasília foi um dos meios que permitiram a JK fortalecer a indústria, sem entrar em rota de colisão com os interesses dos grandes latifundiários. As oligarquias rurais tinham grande interesse em ampliar as fronteiras agrícolas. Nesse sentido, a autora afirma:

O projeto ruralista opunha-se, desse modo, às principais propostas defendidas por nacionalistas e trabalhistas: a extensão da legislação social e trabalhista à população do campo, a distribuição de pequenas propriedades por meio da reforma agrária, a inibição do latifúndio, sobretudo o improdutivo, pela via fiscal e a democratização das relações políticas no campo, já que a maioria dos virtuais eleitores rurais era analfabeta.

Ainda que o projeto de JK defendesse maior integração entre indústria e agropecuária, além da modernização da agricultura, excluía a grande maioria da população rural – na época 70% da população vivia no campo ou em cidades com menos de dois mil habitantes.

É certo que, não obstante as grandes obras de infra-estrutura – o que efetivamente trouxeram grande brilho ao governo JK – foi uma administração que reproduziu as desigualdades da sociedade. Nesse sentido, não houve um esforço real. Essa crítica não pode desaparecer.

Para saber mais:
MOREIRA, Vânia Maria Losada. Os anos JK: industrialização e modelo oligárquico de desenvolvimento. In: FERREIRA, Jorge (org.). O Brasil Republicano. O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 160.
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