A Gafe para a História

Agora só se fala em gafe. É a nova moda da imprensa. Cobrir a gafe do Lula, a gafe do Bush, a gafe do William Bonner, etc. Pela regra, gafes são deslizes na forma de ações ou palavras impensadas que involuntariamente causam constrangimento ao autor ou às pessoas ao seu redor.

Há um pensador muito interessante que pode lançar luz sobre esse assunto tão atual. Trata-se de Erasmo de Rotterdam, um controverso humanista do século XV e autor de, entre outros livros, “O Elogio da Loucura” e “A Civilidade Pueril”. Este último, menos conhecido, porém um verdadeiro manual bizarro sobre como deve se portar um nobre.

Naquela época a nobreza européia se deparava com um “adversário” à altura, tratava-se da burguesia, uma classe de novos ricos que obtinham seus rendimentos de uma forma não tão honrada para aquele momento, através do comércio.

Quais eram as verdadeiras diferenças entre as pessoas dessas duas classes? Na verdade nenhuma, pelo menos até os nobres, ameaçados, inventarem um batalhão de frescuras, a fim de colocar o novo rico comerciante em situação constrangedora. Qualquer semelhança com a atualidade é mera coincidência, certo?

Porém, lembremos que no século XV as pessoas não tinham lá costumes tão “higiênicos” quanto hoje. Devido a isso, o manual de Erasmo se transforma em um verdadeiro catálogo de humor bizarro aos nossos olhos. Dentre as recomendações do pensador, destacam-se a limpeza dos dentes e o cuidado com os modos à mesa, nada mais correto. O problema é encontrado nos detalhes: “Limpem os dentes, de preferência à moda espanhola, com urina”. Atrativo, não?

À mesa, as coisas não eram nada menos asquerosas: a recomendação era não apoiar-se em apenas uma nádega, pois poderia parecer que o nobre estaria a eliminar gases. Caso realmente os estivesse eliminando, o recomendado era tossir para disfarçar o barulho. Erasmo enfatiza ainda que um verdadeiro nobre não deveria jogar os restos de comida debaixo da mesa.

Temos de cuidar para não julgarmos essas pessoas com os olhos do presente, pois estaríamos cometendo anacronismo. Entretanto, se Erasmo recomendou que não agissem dessa forma, certamente essas atitudes eram comuns para a época.

Enfim, o que podemos trazer desse tempo para o nosso presente? Observamos que desde 500 anos atrás, uma minoria vem se utilizando de normas de etiqueta para se engrandecer e reduzir os outros. Não seria essa atitude uma verdadeira gafe? Se a gafe ocorre quando colocamos os outros em situações constrangedoras, sim. Um verdadeiro paradoxo. Uma atitude muito mais asquerosa do que os corriqueiros modos do século XV.

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