Instrumentos e sinais de civilização: origem, formação e consagração da elite amazonense

Resumo da dissertação de mestrado de Ana Maria Daou – UFRJ.

Na virada do século XIX para o XX, a exportação de borracha brasileira monopolizou a produção mundial até o final de 1910. Através do lucrativo negócio de exportação de borracha, cria-se no estado do Amazonas uma elite, alterando-se o estilo de vida. Uma minoria se destaca em relação ao restante da sociedade. Essas elites têm sua ação remetida a questões econômicas, monopólio do poder, orientações culturais na vida do grupo. Têm papel de orientadoras da maioria, promotoras de identidade e portadoras dos interesses do grupo. No caso específico da elite amazonense, atribuíram a si mesmos a defesa dos interesses do Estado.

A autora afirma que, no que se refere a formação da elite amazonense, coube perceber como os agentes participaram da produção de determinadas preferências, consagrando escolhas e contribuindo para a reprodução da estrutura de distribuição das diferentes espécies de capital: o cultural, o econômico e o simbólico.

A sociedade amazonense ganhou destaque na virada do século, porém antes disso, eventos como a abertura dos portos do Amazonas à navegação internacional, a introdução da navegação a vapor, e posteriormente com a passagem do Império à Republica, alterações às formas de gestão do espaço urbano e transformações nos modos de apropriação dos recursos da floresta. Até aquele momento estavam pouco definidos os critérios de diferenciação social. Porém, a partir dessas mudanças, inicia-se o desenvolvimento de uma nova configuração social e a formação de uma elite amazonense.

Ana Maria Daou se apropria das teorias de Norbert Elias para afirmar que, além do desenvolvimento econômico da elite, estão em pleno desenvolvimento novas formas de internalização de controles e auto-constrangimentos percebidos como expressão de condutas civilizadas.

Na cidade de Manaus viviam brancos de origem estrangeira, especialmente portuguesa, alguns brasileiros, comerciantes, profissionais liberais e funcionários do Império. Nota-se, nas primeiras famílias, a presença de indígenas em suas composições. Eram comuns os casamentos entre brancos e índias, tanto como forma de abrasileiramento como de assimilação dos nativos, numa estratégia de inserção e aceitação junto à comunidade. Com isso os estrangeiros garantiram descendência, e permanência na vida social local.

Com o fim do Império, o povoamento do Amazonas intensifica-se. Ao mesmo tempo, o processo de urbanização toma corpo e ocorre um aburguesamento das elites agrárias. Também amplia-se o mercado de trabalho para profissionais liberais, sendo estes facilmente incorporados na sociedade através de casamentos com as filhas das famílias já estabelecidas. Nesse processo de formação de uma classe mais urbana, muitos vêm do nordeste brasileiro para casar e se estabelecer, constituindo família no Amazonas. Muitos eram filhos de fazendeiros que cursaram universidades e não seguiram os mesmos caminhos da família.

Outro grupo que integraria essa elite amazonense foram os grandes comerciantes chamados de comerciantes a grosso, ou comerciantes matriculados, reconhecidos e respeitados negociantes. Os descendentes destas famílias logo ampliariam o campo de atuação profissional, partindo para profissões liberais, inserção na política ou na administração pública. Entende-se que o que mais contava nessas elites não era o dinheiro, mas o prestígio e a posição social.

No fim do século XIX a presença de estrangeiros ampliou-se. Porém, apesar de sua contribuição para a consolidação dos negócios da borracha – atuando como mediadores entre as elites amazonenses e seus compatriotas – não integraram as famílias da elite amazonense. O que ocorreu foi justamente um reforço da identidade do grupo através da alteridade.

Outro fator que integra o desenvolvimento dessa elite é o fato de que, não havendo boas opções para estudar os filhos, as famílias os acabavam enviando, através de patrocínio do Estado, para o exterior. Ao retornar tinham a garantia dos cargos na administração pública. O estudo então acaba por se tornar fator de diferenciação social.

Assim houve uma redefinição da divisão do trabalho: aos estrangeiros era devido a exportação da borracha, aos portugueses a distribuição de gêneros por todo interior, e aos nacionais, afastados do mundo do comércio, a especialização e a administração pública.

O Teatro Amazonas funcionou como ponto de representação e aglutinação da elite. O centro mundano e político dessa alta sociedade amazonense, cujo propósito era promover a interação entre exportadores, estrangeiros e nacionais, políticos e negociantes.

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