O Tango Argentino

Em seu texto Voulez-vous tanguer? O tango argentino, Maria José de Queiroz (A América sem nome. Rio de Janeiro: Agir, 1997) afirma que os portenhos se empenharam na elaboração de gestos e passos tão originais, que logo iriam distinguir o tango das demais danças de enlace. Entre esses passos difundidos nos salões da Argentina, os mais característicos são as bruscas interrupções que reproduzem o staccato da linha musical. Essa súbita pausa, inesperada, rapidamente se transformaria na mais inconfundível característica do tango.

O tango se emanciparia de qualquer tirania de desenhos preestabelecidos, autorizando a autonomia dos movimentos, sendo o único comando, o ritmo da própria musica. Dessa forma, o tango se abriu à criatividade dos dançarinos, promovendo um espetáculo diferente em cada apresentação; sempre com uma coreografia original, própria do par. Os passos, chamados de figuras, estão em constante re-elaboração, “daí dizer-se que o tango, no momento da dança, se revela distinto de si mesmo, e ‘nunca chega a repetir-se com total exatidão’”.

Todos sabem, a coreografia do tango é argentina, porém suas origens não são muito claras. De acordo com estudos que não dispõem de numerosa documentação, o tango descenderia da habanera e se interpretava nos prostíbulos de Buenos Aires e Montevidéu, nas duas últimas décadas do século XIX. ”O escritor e polemista argentino Jorge Luis Borges afirmou que por suas características o tango só poderia ter nascido em Montevidéu ou Buenos Aires”.

O bandoneón, instrumento que atualmente caracteriza o tango, chegou à região do Rio da Prata por volta do ano 1900, nas maletas de imigrantes alemães. Como os primeiros músicos de tango não sabiam escrever música, não existem muitas partituras da época. É provável que fizessem tango sobre a base de melodias já existentes, tanto de habaneras como de polcas.

Ainda no fim do século XIX, ouve-se em Buenos Aires, nos salões elegantes, estilos musicais como a polca, a valsa e o schotisch. Esses ritmos eram excessivamente saltitantes e agitados, pouco ou nada diziam ao temperamento argentino, estranho à essa alegre vivacidade. Nos prostíbulos, nas tavernas e lugares de baixa reputação ouvia-se outro ritmo, a envolvente habanera. Coube aos portenhos freqüentadores desses lugares transformarem a música ao seu gosto; recriando-a a sua imagem e semelhança, num processo que durou anos.

Após esse processo de maturação surge uma nova dança; não de forma proposital. Sua forma, espontânea e apaixonada, suas figuras, gestos e movimentos constituíam o grande interesse da dança. Posteriormente surgiriam outros estímulos como rivalidades entre pares, casas de bailes, cabarés.

Graças às prostitutas difundiu-se a vária coreografia do tango. Elas foram as agentes da difusão, junto aos viajantes que levavam a dança a outros lugares. Ignoravam completamente que estavam escrevendo, nos novos passos e movimentos, a história do tango. “’Queriam dançar melhor’ observa Carlos Veja, ‘isto é, danças sentindo, falar dançando’. Porque, realmente, o tango respondia a um desejo de comunicação. Tanto é que não tardou a exigir voz e canto para manifestar-se a seu prazer”.

“Em público, dançavam homens com homens. Naqueles tempos era considerada obscena a dança entre homens e mulheres abraçados, sendo este um dos aspectos do tango que o manteve circunscrito aos bordéis, onde os homens utilizavam os passos que praticavam e criavam entre si nas horas de lazer mais familiar. Mais tarde, o tango se tornou uma dança tipicamente praticada nos bordéis, principalmente depois que a industrialização transformou as áreas dos subúrbios em fábricas transferindo a miséria e os bordéis para o centro da cidade. Nessa fase haviam letras com temática voltada para esses ambientes. São letras francamente obscenas e violentas”.

Contudo, pouco a pouco, o tango foi ganhando a pequena burguesia. Além dessa escalada, a dança foi ainda conquistando espaços no exterior, principalmente em Paris, onde se insistia a pergunta “Voulez-vous tanguer?”. “A franquia e prestígio nos meios honrados custaram-lhe caro, muito caro. E só os conseguiu mediante grandes sacrifícios. As moças de família dançavam um tango bem-comportado, do qual se suprimiam os cortes bruscos, as quebradas as corridinhas, o atrevimento do abraço firme”. Acabavam por dançar um novo tipo de baile, com parceiro, em ritmo de tango. Somente isso.

Antes de seu aburguesamento, o tango passaria ainda por uma crise, uma “via purgativa” como afirmaria Queiroz. Para se redimir de sua origem espúria, a salvação lhe aparece no recurso à palavra e à voz. Essa renovação teve como principal responsável Carlos Gardel (ao lado), nascido na França (alguns dizem que era uruguaio), mas portenho por adoção. Seus textos, em linguagem típica portenha, foram no início alvos de censura por moralistas e puristas. Porém logo o cantor acabou celebrado em toda a América Latina pela divulgação do tango. Pela sensualidade de sua voz, que se presta muito bem à interpretação da milonga – outro gênero precursor do tango – torna-se conhecido a partir de “Mi noche triste” 1917.

Nas canções de tango se cantam sórdidas histórias de bordel, de assassínios, de perseguições e caçadas policiais, de amores suburbanos, de vinganças, ciladas e ódios. Histórias, todas elas, de gosto duvidoso e de bem escassa modéstia. Após vencer os preconceitos da classe acomodada, à qual aborrecia o tom vulgar, o tango acabou por curvar-se à moralidade. Expurgaram-no das letras obscenas a fim de que ingressasse nos lares honrados.

Por conseguinte, a história do tango refere-se a um ininterrupto processo de afirmação social, num tenaz esforço de conquista do publico decente e da “boa família”, conhecendo vários altos e baixos. Porém, como afirma Queiroz, “Há tango e tango como há samba e samba” , defendendo que o bom tango vige em qualquer fase, seja Velha quanto na Nova Guarda; divisão, grosso modo, antes e depois de Gardel.

Hoje o tango alcançou sua maturidade e, assim como o samba no Brasil, tornou-se símbolo nacional argentino, com forte apelo turístico. Casas de tango como Señor Tango, chegam a cobrar 100 dólares por pessoa pelo jantar com espetáculo, faturando em torno de um milhão de dólares por mês.

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