As cidades e os mecanismos que engendraram uma nova identidade

foto_imi_101

São Paulo:

São Paulo não era uma cidade nem de negros, nem de mestiços; nem de estrangeiros e nem de brasileiros; nem americana nem européia, nem nativa; nem era industrial, apesar do volume crescente das fábricas, nem entreposto agrícola, apesar da importância crucial do café; não era tropical, nem sub-tropical, não era ainda moderna, mas já não tinha mais passado; essa cidade que brotou de súbita e inexplicavelmente, como um colossal cogumelo depois da chuva, era um enigma para os seus próprios habitantes, perplexos, tentando entende-la como podiam, enquanto lutavam para não serem devorados. (SEVCENKO, Nicolau. Orfeu Extático na Metrópole: São Paulo – Cia das Letras, 1992. p.31).

São Paulo passava por um alvoroço de mudanças que exigia inovações e criatividade. Diante deste mosaico, esgueiravam-se em contraposição tendências ameaçadoras de mobilização para a ação coletiva e uniformizadora, que geraram o planejamento, a massificação e o corporativismo autoritário. O espaço aberto para o provisório e as inovações em São Paulo se tornava perigosamente propício a forjar identidades através da exploração do ideal de uma “raça nova” de homens disciplinados. A luta contra o caos se faria pela história e aquelas contra a história, por meio do mito. Ambas as tendências se chocavam constantemente no íntimo de cada habitante, “aos anseios da comunidade dos desenraizados no tempo”.

Nicolau Sevcenko, em sua obra “Orfeu extático na Metrópole”, utiliza a imagem mítica grega de Orfeu para estudar o papel da sociedade de São Paulo na formação da megalópole moderna nos anos 20, década que definiu um padrão cultural de identidade através do recondicionamento dos corpos e a invasão do imaginário pelas novas tecnologias.

Entre 1917 e 1920, São Paulo passou por uma sucessão de crises, denominadas “cinco gês”: Greves, gripe espanhola, Grande Guerra, geadas e gafanhotos. Ao passar essas crises, o Estado percebe que a cidade de núcleo periférico transformou-se em um pólo econômico e centro de decisões políticas.

São Paulo passa por um surto de crescimento industrial que trás como conseqüências o aumento demográfico e a busca intensa por terras e habitações. Surge uma nova classe de milionários de guerra. A Light and Power – empresa de capital estrangeiro – se torna o maior e mais danoso agente especulador.

Em meio a uma população tão heterogênea como a de São Paulo, o Estado inicia a construção de uma metrópole com o objetivo de fornecer aos seus cidadãos elementos que possibilitem a formação de uma identidade e a construção de uma nova ordem. A nova identidade que se quer é cosmopolita e forjada por intermédio da experiência urbana, que prometia possibilidades inéditas.

Rio de Janeiro:

No período da República, a cidade do Rio de Janeiro era a maior do país com 500 mil habitantes, porém não apresentava as características das cidades burguesas, pois o peso das tradições escravista e colonial obstruía o desenvolvimento das liberdades civis. Era uma cidade de comerciantes, burocratas e de vasto proletariado. Além disso, a sonhada República não alterou o cenário político e social da massa – embora houvesse trazido expectativas de renovação política – pois se consolidou sobre um mínimo de participação eleitoral, exclusão do envolvimento popular no governo e ideologia darwinista reforçadora do poder oligárquico.

O Rio de Janeiro transitava entre a ordem e a desordem, manifestando-se de forma irônica, sarcástica e debochada em relação às instituições governamentais e seus códigos formais. A aparente desorganização social e falta de interesse político estão destituídas de inércia e apatia, pois demonstra que os fluminenses tinham consciência de sua realidade, pois uma vez que não podiam participar do Estado e dele nada esperar, “carnavalizaram o poder” não permitindo assim, que o Estado interferisse nas suas vidas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s