Bestializados ou bilontras?

postais-deodoro-republica-jpg

(Extraído de CARVALHO, José Murilo de. Bestializados ou bilontras? In: ______. Os bestializados. O Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. P. 140-160).

O povo assistia bestializado aos acontecimentos, segundo comentários de observadores estrangeiros. Enquanto isso, os atores políticos tentavam descobrir que tipo de modelo seria mais adequado ao nosso país. Passado o entusiasmo inicial provocado pela Proclamação da República, nem mesmo a elite conseguia, no campo das idéias, chegar a certo acordo quanto à definição de qual deveria ser o relacionamento do cidadão com o Estado. No campo da ação política, fracassaram sistematicamente as tentativas de mobilizar e organizar a população dentro dos padrões conhecidos nos sistemas liberais.

Por outro lado, estes cidadãos inativos revelavam-se de grande iniciativa e decisão em assuntos, em ocasiões, em métodos que os reformistas julgavam equivocados. Assim é que pululavam na cidade organizações e festas de natureza não-política.

Quanto à ação política popular, ela se dava fora dos canais e mecanismos previstos pela legislação e pelo arranjo institucional da República. Na maior parte das vezes, era reação de consumidores de serviços públicos; reação a alguma medida do Governo, antes que tentativa de influir na orientação da política pública.

De modo geral, não eram colocadas de mandas, mas estabelecidos limites. Não se negava o Estado, não se reivindicava participação nas decisões do Governo; defendiam-se valores e direitos considerados acima da esfera de intervenção do Estado, ou protestava-se contra o que era visto como distorção ou abuso

Reclamavam funcionários, artesãos, pequenos comerciantes, uma ou outra prostituta. Mas as queixas não revelavam oposição ao Estado. Eram antes reclamações contra o que se considerava ação inadequada, arbitrária, por parte dos agentes do Governo. Ou então contra a falta de ação do Poder Público. Revelavam que havia entre a população certa concepção do que deveria constituir o domínio legítimo da ação do Estado. Pelo conteúdo das reclamações, pode-se deduzir que este domínio girava em tomo de problemas elementares como segurança individual, limpeza pública, transporte, arruamento.

Permanece, no entanto, o fato de que entre as reivindicações não se colocava a de participação nas decisões, a de ser ouvido ou representado. O Estado aparece como algo a que se recorre, como algo necessário e útil,mas que permanece fora de controle, externo ao cidadão. Ele não é visto como produto de concerto político, pelo menos não de um concerto em que se inclua a população. É uma visão antes de súdito do que de cidadão, de quem se coloca como objeto da ação do Estado e não de quem se julga no direito de a influenciar.

Alberto Sales e Sílvio Romero elaboraram uma posição que era a de quase todos os pensadores representantes do liberalismo burguês no país, de Teófilo Ottoni a Tavares Bastos, Mauá, André Rebouças, Joaquim Murtinho. Todos reclamavam da falta entre nós do espírito de iniciativa, do espírito de associação, do espírito empresarial burguês, enfim, para usar a terminologia atual. Conversamente, criticavam a excessiva dependência em relação ao Estado como regulador da atividade social e a obsessiva busca do emprego público.

Mas, na política, a cidade não se reconhecia, o citadino não era cidadão, inexistia a polis. Diante desta situação, não era de se estranhar a apatia e mesmo o cinismo da população em relação ao poder. A apatia e o cinismo, no entanto, não parecem ser característica apenas do Rio na época. Em Buenos Aires, a participação política era também muito baixa, e o mesmo provavelmente acontecia na maior parte das capitais latino-americanas. O que marcava, e marca, o Rio é antes a carnavalização do poder como, de resto, de outras relações sociais. Poucos meses após a Revolta da Vacina, ela já era objeto de celebração carnavalesca, sem falar no fato de ter a revolta começado por uma farsa teatral montada por pivetes.

O Rio acumulou, mais que qualquer outra cidade brasileira, forças contraditórias da ordem e da desordem. De um lado, vasta burocracia, ociosa e insaciável, um Estado de grande visibilidade,um comércio dominado por estrangeiros. De outro, a enorme população escrava que, aos poucos, juntamente com imigrantes do exterior e de outras partes do país, foi gerando o que denominamos de proletariado e que chegava, na época que estudamos, a 50% da população ativa. Apesar dos inegáveis atritos entre as duas forças, a tradição ibérica da família e das irmandades constituiu campos de convivência que iam aos poucos desmoralizando as normas legais e as hierarquias sociais e construindo um mundo alternativo de valores e de relacionamento. A escravidão dentro da casa minava a disciplina da família branca, assim como corroia os próprios padrões de relacionamento entre senhor e escravo.

Havia consciência clara de que o real se escondia sob o formal. Neste caso, os que se guiavam pelas aparências do formal estavam fora da realidade, eram ingênuos. Só podiam ser objeto de ironia e gozação. Perdia-se o humor apenas quando a autoridade buscava impor o formal, quando ela procurava aplicar a lei literalmente. Nesses momentos, o acordo implícito era quebrado, o poder violava o pacto, a constituição não escrita.

Na política, o povo sabia que o formal não era sério. Não havia caminhos de participação, a República não era para valer. Nesta perspectiva, o bestializado era quem levasse a política a sério, era o que se prestasse a manobras de manipulação. Quem apenas assistia, como fazia o povo do Rio por ocasião das grandes transformações feitas à sua revelia, estava longe de ser bestializado.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s