Na Contramão do Mundo

Publico aqui um pequeno artigo escrito como parte integrante da minha monografia.

 montaigne

Como Montaigne pôs em xeque a idéia de civilidade de seu tempo.

A Europa do século XVI viveu um efervescente movimento de refinamento nos costumes da população. No longo prazo, ocorreu uma transformação da antiga sociedade medieval e guerreira para uma aristocracia de corte.

Os senhores feudais gradativamente perdiam força, na medida em que um poder central era estabelecido. Com as mudanças nas relações de interdependência, uma nova configuração social se desenvolve. A forma anterior de legitimação do poder dos nobres, através da espada, deixa de ser possível devido à consolidação do absolutismo, e a violência deixa de ser exercida em nível individual, passando a ser monopólio do rei. Dessa forma, o homem não era mais apenas o senhor do seu castelo, mas também um membro da corte, que serve ao príncipe e tem de viver em conformidade com sua posição social. (Norbert Elias “O Processo Civilizador”). Nessa nova fase pouco valia a força do guerreiro, o poder agora só podia ser obtido no convívio com o rei; e quanto mais próximo dele, maior era o raio de influência de cada um. Conforme crescia o poder na corte, mais regras de etiqueta eram criadas.

Uma vasta literatura sobre como se comportar surge nesse período. A mais famosa obra sobre o assunto é certamente “A Civilidade Pueril” do controverso humanista Erasmo de Rotterdam. Tamanho foi o sucesso que, ainda em vida, Erasmo reeditou 30 vezes. Fato que demonstra a recorrente preocupação da sociedade com o tema.

Esse movimento em direção a um comportamento cada vez mais civilizado se choca com a recém-descoberta figura do ameríndio. Muitos europeus, ainda sob influência de um imaginário medieval, discutiam até que ponto os índios seriam seres-humanos. Práticas como a antropofagia e a nudez causavam medo e espanto na população do velho continente.

Esse tema norteou grande parte dos “Ensaios” de Michel de Montaigne. A obra foi terminada em 1588, e inaugurou um novo estilo literário, caracterizado pela forma livre e assistemática de expor as opiniões.

Montaigne, após sentir-se “bastante fatigado de servir à corte e aos negócios públicos” – conforme deixou registrado em sua biblioteca – inicia o trabalho de, segundo ele, manter uma lembrança viva de seu caráter e de seus pensamentos.

Foi grande a contribuição do ensaísta para uma mudança de paradigma na forma de compreender a diversidade cultural. Comentando acerca das atrocidades das guerras religiosas, atacou o etnocentrismo europeu, e tornou-se um dos primeiros exemplos modernos de relativismo. Montaigne defendia a igualdade entre os homens, e chegou a afirmar que mesmo o Imperador, atrás da cortina, nada mais era do que um homem comum. Em outra parte foi ainda mais irônico quando afirmou que, mesmo no mais alto trono do mundo, ainda estaríamos sentados sobre nossos traseiros. É justamente nesse ponto que o ensaísta parece ir contra a idéia de civilidade de seus contemporâneos.

No ensaio “Sobre os Canibais” Montaigne lança as bases para a criação do mito do bom selvagem, desenvolvendo a idéia de que o homem em estado natural usufruía melhor da vida, pois além de livre e saudável, era também socialmente igual a seus semelhantes. Nem mesmo a antropofagia era argumento contrário ao caráter naturalmente bom do indígena.

Entender como bárbaro aquilo que não era costume de sua sociedade era uma idéia brilhante, mas não original – já havia sido exposta por Paulo de Tarso. Entretanto Montaigne foi longe ao constatar que não existiria um padrão cultural universal. E que a diferenciação se dava mediante a educação e o costume de cada povo. O ensaísta afirma que mesmo entre macho e fêmea a diferença não seria substancial. A posição de submissão da mulher não viria da natureza, mas sim da usurpação da autoridade pelo homem.

Entretanto, essa idéia profundamente relativista não nasceu originalmente em Montaigne. No contexto do renascimento, o ensaísta foi buscar na antiguidade o mito da idade de ouro para legitimar suas considerações. Os antigos entendiam que houve um tempo em que o homem vivia segundo as leis da natureza, e em harmonia com os seus semelhantes e com os animais. Esse mito pode ser encontrado em diversos poetas latinos como Virgílio, Ovídio ou em filósofos gregos como Platão e Aristóteles.

Um dos autores mais lidos por Montaigne foi o filosofo Sexto Empírico, que viveu por volta de 200 d.C. e em cuja obra já se encontrava a idéia de relativismo cultural. Afirmava, por exemplo, que enquanto hindus gostavam de algumas coisas, o nosso povo gosta de outras, e que alguns etíopes tatuam suas crianças, mas nós não, e que alguns têm relações sexuais em público apesar de que muitas outras raças consideram isso algo vergonhoso. Dessa forma, também Montaigne, em toda a composição dos Ensaios, norteia suas idéias de acordo com uma filosofia que busca um ponto de vista alternativo, a partir do outro.

Para conceber seu pensamento, Montaigne se nutriu ainda dos relatos de viagem renascentistas, além de ter participado da comitiva do rei Carlos IX, em 1562, quando conheceu três índios tupinambás trazidos do Brasil por Villegaignon.

Há algo importante que não pode ser deixado de lado quando lemos o ensaio dos índios. Montaigne parece fazer uma crítica à sociedade, desautorizando a concepção de que os europeus eram civilizados. Ele relata que, ao fim da visita dos indígenas, alguém havia perguntado que impressões tiveram do velho mundo. Eles responderam que não conseguiam entender como os homens daquele lugar, fortes, barbudos e armados, eram governados por uma criança, e como os pobres e famintos não estrangulavam os outros ou não punham fogo nas casas deles, já que havia tanta desigualdade. Aqui cabe um parêntese. Antes mesmo de Montaigne iniciar o ensaio sobre dos canibais a baía de Guanabara já tinha sido francesa, ocupação que durou de 1555 a 1560 com a instalação da França Antártica. A mal-sucedida experiência francesa ao menos possibilitou que os dois primeiros livros sobre o Brasil fossem escritos: Singularidades da França Antártica (1557), do frade cosmógrafo André Thevet e História de uma viagem feita à terra do Brasil (1578) do pastor protestante Jean de Léry. Os dois livros expressam certa simpatia pelo caráter comunicativo e sociável dos indígenas. Alguns dizem foi dessas fontes que Montaigne bebeu para escrever sobre os tupinambás, embora ele tenha dito que colheu informações de um ex-marinheiro de Villegagnon.

O norte-americano Geoffroy Atkinson, no livro Les nouveaux horizons de la Renaissance française e o brasileiro Afonso Arinos de Melo Franco, na obra O índio brasileiro e a Revolução francesa, afirmam que Montaigne teria criado o diálogo e posto na boca dos índios. E argumentam que se a crítica fosse feita de forma direta, o ensaísta se comprometeria perante as autoridades. Uma recente pesquisa feita no Fundo Patrimonial da Biblioteca de Bordeaux onde se encontra o “exemplar de Bordeaux” de 1588 – anotado e corrigido pelo próprio Montaigne – sugere que o encontro entre os índios e o rei Carlos IX, não teria ocorrido em Rouen, mas em Bordeaux, onde Montaigne residia. E não em 1562, mas três anos depois, quando o rei fez sua entrada real. Dessa forma, ao trocar a cidade de Rouen por Bordeaux, Montaigne faria valer a observação que pôs na boca dos canibais, pois na data inicialmente sugerida Rouen estava sitiada pelos protestantes e o rei ainda era uma criança. Conclui-se então que, através da astúcia, Montaigne mostra aos seus contemporâneos o quão absurdos podem parecer os costumes de um país aos olhos estrangeiros, e que não há motivos para assustar-se com o comportamento de outros povos, por mais estranhos que possam parecer.

A sensação que temos ao ler os Ensaios é de que, enquanto todos se concentravam em sua própria civilidade e etiqueta como parâmetro para avaliar os outros, Montaigne defende um novo modelo de análise, baseado no conhecimento, o qual compreende a alteridade dentro da própria cultura em que está inserida.
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Orlando Brunet Filho é acadêmico de História da Universidade Tuiuti do Paraná.

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2 comentários em “Na Contramão do Mundo”

  1. SAUDAÇOES! PARABENS PELA MATÉRIA !GOSTARIA MUITO DE SABER SE VOCE PODE ME INDICAR ALGUMA LEITURA QUE FALA SOBRE A ORIGEM DOS INDIOS CAETÉS?MUITO OBRIGADO!

    1. Olá Paulo, tem o “História da América Latina Vol.1: América Latina Colonial de Leslie BETHELL”.
      Páginas 116-117, 264, 266, 277, e 557. Esse livro não é comum ter para comprar em livrarias, você acha na internet, mas recomendo que vá a uma biblioteca pública, pois é uma obra cara.
      Por coincidência é o único volume (de 10 publicados – fica a recomendação) que possuo. Espero ter ajudado. Um Abraço, Orlando.

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