Tiradentes e a construção do mito

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Os mitos políticos constituem um sistema de crença coerente e completo, sempre coletivo e dogmático. Todo grupo, cidade ou nação tem seu mito de origem. Revoluções, por exemplo, tornam-se mitos políticos de novos sistemas políticos. O instrumento clássico de legitimação de regimes políticos no mundo moderno é a ideologia.

Havia no Brasil pelo menos três correntes que disputavam a definição da natureza do novo regime: o liberalismo norte-americano, que defendia a organização do poder na ênfase do federalismo, o jacobinismo francês, que desejava estabelecer uma democracia com base no modelo francês da 1ª República, e o positivismo, que se baseava na 3ª República francesa e aspiravam uma ditadura republicana e não uma democracia liberal. Este último grupo idealizava um governo baseado nos estudos de Augusto Comte, que tinha como base a trilogia: família, pátria e humanidade e cujo ponto central do pensamento político está expresso na divisa “Ordem e Progresso”. As três correntes combatiam-se intensamente nos primeiros anos da República. Mas diante do mosaico de acontecimentos foram os positivistas menos ortodoxos que conseguiram impor suas idéias sobre os outros dois grupos, os quais não levaram em conta o mais importante para a implantação dos modelos por eles propostos: o sentimento de comunidade e de identidade coletiva.

O extravasamento das visões de República para o mundo extra-elite, não poderia ser dado mediante o discurso, inacessível a um público de baixo nível de educação formal. Mediante tal situação, busca-se, através dos símbolos, quase que sempre de inspiração francesa, legitimar o novo regime. “É por meio do imaginário que se pode atingir não só a cabeça, mas de modo especial, o coração, isto é, as aspirações, os medos, e as esperanças de um povo”

A luta em torno do mito de origem da República mostrou a dificuldade de se construir um herói para o novo regime. Heróis são símbolos poderosos, encarnações de idéias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos. Não há regime que não promova o culto de seus heróis e não possua seu panteão cívico. Em alguns, os heróis surgiram quase que espontaneamente das lutas que precederam a nova ordem das coisas. Em outros, de menor profundidade popular, foi necessário maior esforço na escolha e na promoção da figura do heróis. A falta de envolvimento real do povo na implantação do regime leva à tentativa de compensação, por meio da mobilização simbólica. Mas, como a criação de símbolos não é arbitrária, não se faz no vazio social, é aí também que se colocam as maiores dificuldades na construção do panteão cívico. Herói que se preze tem de ter, de algum modo, a cara da nação. (Carvalho, José Murilo de. A formação das almas: O imaginário da república no Brasil. São Paulo – Companhia das Letras – 1990. P. 55).

Havia diversos candidatos a herói no início da República, porém apenas Tiradentes demonstrou portador de uma identidade nacional. Além do fator geográfico – Minas, São Paulo e Rio – Tiradentes foi colocado como mártir religioso a uma nação cristã, tendo suas representações sempre referenciadas a Cristo. Ademais não exerceu a violência, ficou apenas nas idéias.

Entre os candidatos a herói não escolhidos ficaram:

  • Marechal Deodoro: Tinha postura de heróis, mas era militar demais.
  • Benjamin Constant: Um republicano autêntico, mas sem figura de herói.
  • Floriano Peixoto: Teve participação na Revolta Armada do Rio de Janeiro e na Revolta Federalista, mas dividia civis e militares.
  • Bento Gonçalves: Apesar do destaque na Revolta Farroupilha, não possuía caráter nacional.
  • Frei Caneca: Herói de duas revoltas, mas era considerado um mártir rebelde, agressivo, morreu como líder civil e não como mártir religioso.
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