A trajetória da brava gente italiana

it

“Prestes a completar 150 anos de unificação, a Itália quer reunir a família. Foi como os responsáveis descreveram o espírito do futuro Museu Nacional da Emigração Italiana (MEI). Previsto para ser inaugurado em setembro, em Roma, será dedicado aos 29 milhões de italianos que, a partir de 1861, deixaram o país para tentar a vida em outros países. O Brasil recebeu 1,5 milhão deles. O museu terá um acervo inédito de documentos, testemunhos em áudio, fotografias, jornais e revistas da época, além de livros, filmes e músicas”.

(http://www2.uol.com.br/historiaviva/noticias/a_trajetoria_da_brava_gente_italiana.html).

O.B.F.: A iniciativa do governo italiano é sem dúvida louvável. Os 29 milhões de imigrantes italianos correspondiam, à época, a quase metade da população da Itália. Foi devido a esse tremendo esforço imigratório que a cultura italiana traspassou as barreiras nacionais, forjando novas identidades para aqueles que emigravam e para aqueles que recebiam os imigrantes. O custo de uma Itália unificada foi, sem dúvida, pago por essas famílias.

SOBRE A IMIGRAÇÃO ITALIANA

Após a guerra de unificação Vítor Emanuel II é proclamado Rei da Itália em 1861. Ainda na década de 60 do século XIX, a supressão das alfândegas regionais, a oferta de produtos industriais a preços reduzidos e o desenvolvimento das comunicações haviam destruído a produção artesanal, atingindo os pequenos agricultores, que complementavam as suas rendas com o artesanato familiar ou o trabalho em indústrias artesanais existentes no campo.  A unificação alfandegária impôs a toda a Itália o sistema alfandegário da Sardenha, que tinha as taxas mais baixas, e fez com que as economias regionais, que eram mais ou menos fechadas e até então conseguiam manter certo equilíbrio, sofressem um violento baque. A disparidade econômica do Norte, que se industrializou mais cedo, e do sul, predominantemente agrícola, agravou o quadro econômico do país. O governo italiano cada vez mais tomava medidas impopulares. Sua preocupação estava mais em obter recursos para a realização de obras públicas do que o bem estar das populações mais carentes. O imposto sobre a farinha, que atingia duramente a classe mais pobre, foi um exemplo.

O problema mais grave estava na total concentração do processo de crescimento no norte, enquanto o sul permanecia agrário. Esta situação econômica fez com que houvesse uma crise na Itália durante o período final do século XIX. O norte foi a primeira área a ser atingida, pois ali começou a se desenvolver a industrialização, deixando os agricultores que complementavam sua renda com o trabalho artesanal sem emprego e sem ter mercado para seus produtos. Por isto, o norte da Itália forneceria as primeiras grandes levas de emigrantes, e o sul só viveria o processo de emigração mais tarde, principalmente a partir do início do século XX.

Um grande movimento migratório de classes rurais para os países das duas Américas ocorreu entre o fim do século XIX e o início do século XX, quando muitos milhões de italianos emigraram. Em face ao desemprego e a miséria, as colônias agrícolas existentes no Brasil eram um grande atrativo. A própria igreja incentivava seus fiéis a conhecerem a nova terra.

Uma  leva gigante de imigrantes italianos – aproximadamente a metade da população da Itália, ou 29 milhões de pessoas – aportou em diversos países da Europa, América do Norte e América do Sul. Especialmente para o Brasil vieram 1,5 milhões de italianos, cujos destinos principais seriam as fazendas de plantação de café no interior de São Paulo, as colônias no Sul, e a construção de ferrovias e colônias agrícolas em outros estados.

A intensificação da propaganda, a construção de ferrovias, a abolição da escravatura e a proclamação da República intensificaram a entrada de imigrantes no Brasil, atingindo-se quotas anuais de 200 mil por ano.

No século XIX a nação brasileira estava passando por um período de fermentação das idéias abolicionistas. Membros do Partido Liberal e do Conservador defendiam a libertação dos escravos, também defendida por intelectuais e jornalistas da época. A Grã-Bretanha, superpotência da época, também estava pressionando o Brasil a acabar com o tráfico negreiro. A Lei Eusébio de Queirós (1850) marcou o início do processo de abolição, proibindo o tráfico negreiro. Portanto, os imigrantes acabaram substituindo a mão-de-obra escrava.

Os imigrantes italianos que se dirigiam para o Brasil eram geralmente desembarcados no Rio de Janeiro ou em Santos; depois, em paquetes nacionais, eram transportados para Vitória (no Espírito Santo), Paranaguá, Itajaí, Laguna, Rio Grande e Porto Alegre. Viagem que durava de 10 a 12 dias. Aqueles que apresentavam atestado de vacina, logo eram encaminhados para o destino, caso contrário, sofriam quarentena.

O governo brasileiro preferia atrair famílias inteiras para o Brasil. Nas plantações de café, todos trabalhavam: homens, mulheres e até crianças. Os fazendeiros, acostumados a trabalhar com escravos africanos, passaram a lidar com trabalhadores europeus livres e assalariados. Todavia, muitos italianos nas fazendas de café foram submetidos a jornadas de trabalho maçantes como as enfrentadas pelos afro-brasileiros. Em muitos casos foram tratados de maneira semelhante a dos escravos. Essa situação gerou muitos conflitos entre os imigrantes italianos e os fazendeiros brasileiros, causando rebeliões e revoltas. As notícias de trabalho semi-escravo chegaram à Itália, e o governo italiano rapidamente passou a dificultar a imigração para o Brasil.

Nos dois ou três primeiros anos, os imigrantes passavam fome e muitas necessidades, pois tudo lhes faltava. Alimentavam-se com brotos de taquara e frutas do mato. O pinhão foi para eles, o que representava o maná para os Israelitas na travessia do deserto. Como os índios, os colonos viviam de caça e pesca. Após realizarem diversas colheitas, tiveram alimento em abundância. O que por muitos anos esteve longe dos bolsos e das mãos foi o dinheiro para comprar sapatos, chinelos, roupas, ferramentas para o trabalho, sal, açúcar, café, pratos, panelas, talheres, etc.

A maioria dos cafeicultores, que durante tantos anos tinham possuído e lidado com escravos, haviam formado em si uma mentalidade escravagista e passaram a tratar os italianos, não como operários, mas como escravos. Por isso, muitos faziam sobre os colonos uma vigilância tipo escravocrata, com multas, falta de liberdade de ir e vir, fiscalização dos horários de trabalho, etc. o fazendeiro, não raro, achava-se no direito de se imiscuir até nos assuntos domésticos dos imigrantes, considerados trabalhadores de segunda categoria, uns semi-escravos. Muitos italianos recém-chegados foram alojados nas senzalas dos escravos ou em habitações coletivas e em casas muito ruins. Os peninsulares deviam se abastecer de víveres nos armazéns dos fazendeiros, a preços abusivos, com o fim de evidenciar os colonos e assim abrigá-los a permanecer naquela propriedade.  Entretanto os próprios italianos, nas fazendas ou nas cidades, fizeram proliferar as “Società di Mutuo Socorso” para se ajudarem e protegerem. A Sociedade Garibaldi, por exemplo, fundada em 1883 permitia compartilhar interesses e necessidades entre os italianos de Curitiba.

Nas colônias do Sul do Brasil, os imigrantes italianos puderam se agrupar no seu próprio grupo étnico, onde podiam falar seus dialetos de origem e manter sua cultura e tradições. A imigração italiana para o Brasil meridional foi muito importante para o desenvolvimento econômico, assim como para a cultura e formação étnica da população. É interessante notar que a imigração começou a ocorrer pouco após a unificação da Itália (1871), razão pela qual uma identidade nacional desses imigrantes se forjou, em grande medida, no Brasil. Os italianos buscam essa identidade quando passam a formar sociedades esportivas, sociais e culturais. (O Palmeiras, time de futebol, é um exemplo).

Embora a imigração italiana fosse, a princípio, quase que exclusivamente rural, com o passar do tempo, muitos dos imigrantes começaram a sair das zonas rurais. Em 1901, por exemplo, 90% dos operários fabris de São Paulo eram italianos.

No Paraná a política imigratória foi motivada pela preocupação com os vazios demográficos. A vinda dos colonos era necessária para resolver o problema da escassez e carestia dos produtos agrícolas. Em 1875, chegou o primeiro grupo e foi fixado em Alexandra, perto de Paranaguá, mas não evoluiu devido ao terreno desfavorável e o abandono a que foram relegados. Em 1877, foi criada a colônia Nova Itália, compreendendo os municípios de Morretes e Antonina. Aqui também as adversidades fizeram com que a maioria se transferisse para o planalto, nas imediações de Curitiba, Colombo e Santa Felicidade, onde até hoje cultivam uva e fazem vinho.

Em 1900, viviam no estado do Paraná trinta mil italianos, espalhados por catorze colônias etnicamente italianas e outras vinte mistas. No início, a maior parte dos imigrantes trabalhou como colonos autônomos, porém com o desenvolvimento do café, passaram a compor a mão-de-obra da região. As maiores colônias prosperaram na região metropolitana de Curitiba. A influência italiana se faz presente em todas as regiões do estado.

Em Curitiba, os italianos chegaram a partir de 1872, estabelecendo-se, como agricultores, em vários núcleos coloniais da região. Esses núcleos deram origem aos atuais bairros de Pilarzinho, Água Verde, Umbará e Santa Felicidade, entre outros. A influência italiana nos usos e costumes da população paranaense pode ser constatada através de sua comida típica e do artesanato em peças de vime, encontrados em Santa Felicidade. A região era a antiga Colônia Santa Felicidade, formada por núcleos coloniais de imigrantes, principalmente, italianos. A ocupação ocorreu de forma mais intensa a partir de 1878, por imigrantes vindos das regiões do norte da Itália. Os italianos dedicaram-se inicialmente à produção de queijos, vinhos e hortigranjeiros. Parte das terras foi doada por Dona Felicidade Borges aos imigrantes italianos. Dona Felicidade também doou seu nome ao bairro.

Segundo o historiador Ruy Wachowichz, a ação da imigração na sociedade paranaense foi sentida da seguinte forma:

  • Lançou as bases para o surgimento de uma classe média rural e urbana;
  • Recuperou a dignidade social do trabalho braçal tanto na agricultura como no meio urbano. O trabalho agrícola e manual deixou de ser considerado vergonhoso e de baixo “status” social;
  • Difundiu pelo Estado os ofícios manuais de ferreiro, carpinteiro, marceneiro, arreador, alfaiate, barriqueiro, etc.;
  • Proporcionou uma verdadeira revolução agrícola na região, com a introdução e difusão do arado de ferro com pá móvel, grade, ancilho, rastelo, gadanha, foice de cortar trigo, soterrador, etc.;
  • Proporcionou subsistência por 80 anos não só à Capital como às principais cidades do interior;
  • Deu início a inúmeras indústrias na capital e no interior;
  • Criou uma arquitetura característica, adaptada tanto ao quadro urbano, quanto ao meio rural;
  • Tornou o Paraná um Estado com população predominantemente branca, com majoritária influência européia.

Crescimento da população do Paraná no século XIX graças à imigração:

Ano Habitantes
1.836 42.890
1.847 47.950
1.854 62.258
1.872 126.722
1.890 249.491

1.900 327.136

Atualmente os italianos representam cerca de 40% da população do Paraná.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s