A África e a Escravidão

Em seu texto “A África e a escravidão ”, Paul Lovejoy afirma que a escravidão é uma forma de exploração, caracterizada pela transformação de indivíduos em propriedade. Segundo o autor, aqueles que tinham sua liberdade negada, além de sofrer coerção no sentido do trabalho, perdiam até o direito sobre sua própria sexualidade, e por extensão, a reprodução. As instituições sociais não contemplavam legalmente os escravos como pessoas, mas como bens móveis, sendo tratados como mercadorias. Ainda segundo Lovejoy, a escravidão pode ser definida como “um meio de negar aos estrangeiros os direitos e privilégios de uma determinada sociedade, para que eles pudessem ser explorados com objetivos econômicos, políticos e/ou sociais”, embora a palavra estrangeiro pudesse ser facilmente substituída por estranho.

A escravidão é acompanhada por um fenômeno: O escravo que falava a mesma língua que seu senhor, sem sotaque, que compartilhava a mesma cultura, seguia a mesma religião, e entendia as relações políticas a sua volta, sofria um nível muito menor de exploração do que aqueles completamente alheios à cultura dominante. “Aqueles que tinham vivido num só lugar durante muitos anos após a sua compra ou escravização tinham menos probabilidades de serem tratados como simples mercadorias”  . Isso explica, sem dúvida, as maiores regalias de crioulos em comparação a escravos africanos recém-chegados. Sempre havia uma distinção que legitimava a exploração. Não se escravizava pares, era sempre uma religião diferente, uma etnia diferente, ou uma cultura diferente. Tratava-se sempre da figura de um outro, estranho ou alheio.

Mesmo que a escravidão seja muitas vezes mostrada pelo lado da coerção exercida pelo senhor, em nível sociológico, havia certa acomodação. Senhores sabiam até onde poderiam forçar, e escravos eram cientes de sua dependência, considerando níveis de tratamento aceitáveis. Não há mais dúvidas de que havia o elemento negociação. Entretanto, não obstante o equilíbrio, se vivia a dualidade entre uma psicologia de servidão e o potencial para a revolução.

Identificar os papéis que cada escravo poderia exercer também é uma questão fundamental para se definir se a escravidão é um aspecto menos importante da vida social ou se efetivamente ocorre como instituição, de forma que o modo de produção escravista seja o principal. Os escravos poderiam desde assumirem importantes funções na economia, até serem responsáveis por cargos administrativos. De soldados do exército, até papeis relativamente mais simples no âmbito doméstico ou sexual.

Nos Estados africanos, com o crescimento da religião islâmica entre os séculos VIII até o X, a escravidão – que agora era legitimada pela religião – sofreu modificações. Embora o papel do escravo fosse ainda semelhante à sociedade pré-islâmica, com a subida dos muçulmanos ao poder o escravo vê na conversão a possibilidade de emancipação. Teoricamente muçulmanos não poderiam ser escravizados, sendo que um dos deveres do senhor era o da educação religiosa. Segundo a doutrina de Maomé, escravizar um indivíduo era uma forma de convertê-lo, embora na prática não ocorresse exatamente isso.

Um dos fatores que mais contribuíram para a escravidão na África foi a alta demanda de escravos pelo mercado europeu e o comércio transatlântico. Segundo Lovejoy, “As exportações de escravos cresceram gradualmente durante os primeiros 150 anos do comércio atlântico, chegando a 409.000 escravos d1450 a 1600. Posteriormente o comércio aumentou numa escala que sobrepujou todas as exportações anteriores da África”. Dentro do continente, como não podia deixar de ser, as transformações foram muito significativas. Os escravos logo se tornaram o principal item de exportação do continente, tornando-se muito comuns na sociedade local. Consolidou-se uma forma de escravidão não islâmica na costa ocidental, sendo que essa não era mais uma característica periférica, mas uma instituição fundamental. Lovejoy afirma que “o processo de escravização aumentou; o comércio cresceu em resposta aos novos e maiores mercados, e a utilização de escravos na África, tornando-se mais comum”  . Fundou-se uma estrutura política e social dentro da África, fundamentada na escravidão, que se expandiu até as últimas décadas do século XIX.

Referência: LOVEJOY, Paul E. A Escravidão na África: Uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

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4 opiniões sobre “A África e a Escravidão”

  1. como que os escravos estavão acomodados, se eles não tinham armas sofisticadas para lutarem pela liberdade?

  2. Muito bom…tem informações necessarias sobre o tema.Era o assunto que eu estava esperando ,pesquisando ja fazia dias e achei este website..
    Fico agradecida por você ter me ajudado
    Olha continue assim…Adorei
    Vou recomendar para meus amigos, concerteza eles vao amar
    Tema da afric e escravidao ta de parabéns…
    Obrigado

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