Em que pensam os historiadores?

Em que pensam os historiadores? É a pergunta colocada na obra de Jean Boutier e Dominique Julia.  Segundo esses autores, nos últimos anos – mais precisamente desde a década de 1960 – surgiu urgência de uma retomada da reflexão sobre a profissão do historiador, ainda que não lhes fosse esperado que elaborassem complexas arquiteturas teóricas. A aceleração das mudanças nos últimos anos levou certos historiadores a falar de crises, dúvidas, e incertezas – e isso não somente na França.

Para Boutier e Julia, dentro dessa perspectiva, tais questionamentos foram, provavelmente, resultado de três séries de fenômenos: Primeiramente as rápidas transformações do ensino secundário, tornado ensino de massa. Os historiadores tiveram de lutar para manter a história nos programas diante da invasão das ciências exatas, consideradas mais úteis. Braudel e Le Goff tiveram aqui papel fundamental. Em segundo lugar ocorreu uma separação entre a história acadêmica e a história vulgar, praticada – mediocremente – por amadores. Surge aqui uma crescente demanda por livros destinados ao grande público instruído, e um novo diálogo nasce– entre pesquisa de ponta e o mercado editorial. Tenta-se ocupar o vazio entre o jornalismo histórico e as teses dificilmente acessíveis. “A própria escrita da história sentiu os efeitos dessa abertura”  . A terceira e última série de fenômenos foi, sem dúvida, a mais importante: A história é levada a redefinir métodos, objetivos, e problemáticas em face às ciências sociais e humanas. O que fazemos, perguntam-se os historiadores.

Em 1974 é publicado Faire de l’histoire, um divisor de águas com 3 volumes e o ambicioso objetivo de ilustrar e promover os caminhos da pesquisa histórica. “Um novo tipo de história para esclarecer a história a ser feita”  . “Os subtítulos de cada um dos volumes manifestam esse interesse pelas mutações recentes da profissão: ‘Novos problemas’, que repensem a definição da história sob a ‘provocação’ das outras ciências humanas; ‘Novas abordagens’, que modifiquem os recortes tradicionais em diferentes setores bem balizados; ‘Novos objetos’, que em sua bulimia devorante a história apropria e que se desenrolam […]”. Faire de l’histoire acompanha a passagem de um paradigma onde a análise macro-econômica era o principal para uma história que apreende os sistemas culturais em um sentido mais amplo. Não mais apenas a civilização escrita ou da imagem, mas estudar o sexo, a vida, a morte, etc. Outra questão importante que Faire de l’histoire já anunciava era a fragmentação da disciplina – tão criticada por Pierre Vilar. A aventura da história “total” foi então duramente criticada. E a viabilidade do progresso da disciplina, entendido somente na medida da delimitação de seu projeto  . A partir daí o historiador deixou de visar o paraíso de uma história global.

Vinte anos depois da publicação de Faire de l’histoire, a historiografia expande seu território com a introdução de novas abordagens, domínios e objetos. “A história social e econômica, por muito tempo dominante na França, apagou-se diante do avanço da história cultural, mas também da história política, em história contemporânea”  . A rigidez dos quadros “estruturais” (econômico, social, mental) desgastou-se, a quantificação perdeu terreno – ainda que permaneça como instrumento importante – e a realidade histórica é cada vez menos examinada como objeto dotado de propriedades que preexistem à análise.

A grande questão que permanece então é: Porque certos historiadores insistem em falar de crise em meio a um panorama tão rico e abundante? O que ocorre, segundo Boutier e Julia é uma transformação dos grandes modelos de inteligibilidade que, por muitos anos, foram usados pelos historiadores no exercício de sua profissão. Além disso, trata-se dos desafios impostos por outras disciplinas à história. O próprio estatuto da disciplina é colocado em jogo. A história tornar-se-ia simples gênero literário, perdendo, conseqüentemente, toda a pretensão de discurso verdadeiro. Uma das fontes do problema está justamente no fato da história tornar-se patrimônio comum. Assim como a pintura e a música de amadores, qualquer um pode fazer história, diferente do que acontece com disciplinas como a antropologia, a biologia ou a matemática. Haja vista tal discussão – que é muito antiga na historiografia, remontando a Bloch – é no método, nas operações técnicas e nos procedimentos que os historiadores vão se apegar para legitimar seu ofício.

Os grandes paradigmas dão lugar então a um arsenal diversificado de instrumentos e de abordagens teóricas tomadas de empréstimo das outras ciências sociais. Nenhuma dessas formulações volta a ter ambições totalizantes. Duas tendências merecem destaque nesse momento. Em primeiro lugar a micro-história italiana, representada principalmente por Ginzburg e Levi – que busca um deslocamento de foco, considerando condutas pessoais e os destinos familiares, compreendendo as racionalidades específicas que informam comportamentos de determinadas categorias sociais. Em segundo lugar surge uma corrente historiográfica que restringe o campo de observação a parcelas de discursos e de fragmentos de vida. Diferentemente da micro-história, essa abordagem repousa sobre a importância atribuída ao detalhe, quase insignificante: não mais modelos formais, mas um retorno voluntário à desordem e às descontinuidades – a tudo o que rompe a normalidade majoritária.

Como disciplina, a história não para de reformular seus próprios problemas, pois, afinal, a percepção das realidades humanas que nos cercam também não para de se modificar. O presente não deixa de interrogar o passado, obrigando o historiador a retomar suas pesquisas, reformular questões, e mudar métodos. “Como qualquer outra disciplina científica, a história possui suas dinâmicas internas: ela conhece os entusiasmos e os desânimos dos pesquisadores, as submissões e as rebeldias, ela possui suas enquetes ‘normais’ e suas ‘revoluções científicas’”.

Referência: BOUTIER, Jean e JULIA, Dominique (orgs.). Passados recompostos: campos e canteiros da história. Rio de Janeiro: UFRJ e Fundação Getúlio Vargas, 1998, pp. 21-53.

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