Entrevista com Pierre Vilar

Em entrevista concedida em Paris, em abril de 1992, o historiador Pierre Vilar, fiel ao ensino de história como problema, e preocupado com o rigor metodológico, aponta para a estreiteza de uma formação monodisciplinar. Seu pensamento pode ser entendido no sentido do trabalho histórico global, de cunho marxista, que lança mão incessantemente das ciências humanas.

Vilar iniciou sua carreira como geógrafo, mas remontando cada vez mais longe no passado acabou se tornando historiador. Isso permitiu que não se esquecesse de levar em conta as condições materiais, geográficas e técnicas em suas análises. Concebendo, inicialmente, a história como uma ciência universal, o autor vê em sua concepção historiográfica a impossibilidade de uma história que não “global”. Para ele a especialização é preocupante para a historiografia, sendo que a “história em migalhas” vai contra aquilo que muitos esperam do historiador: “aquele que deveria sintetizar os conhecimentos sobre o homem e sobre a evolução da humanidade”.

Para Vilar, a formação ideal para o historiador de hoje seria aquela que levasse em conta a visão total das coisas, não se limitando a uma única linha, pois a pretensão de uma ciência a se bastar a si mesma é errada, nenhuma se basta. Sendo que é a perspectiva interdisciplinar que deve ser incentivada.

Outra questão importante comentada por Vilar é a percepção do tempo. Ainda que, como historiador, seja impossível não sentir os acontecimentos – tendo estes de ser usados para suscitar perguntas – é a longa duração que importa para o pesquisador. Para ele “a história não pode se desenvolver sem a estabilidade a muito longo prazo de um certo número de fatores. […] Na escala humana, isto é, para si mesmo, só se pode, obviamente, contar com os acontecimentos. Se, ao contrário, se procura considerar o destino da humanidade, é coisa bem diferente”.

Por último Vilar afirma que, nem mesmo quando seus objetos de estudo se localizavam muito distantes no passado, seus trabalhos permaneceram alheios à apreensão do presente. Isso, certamente, é uma lição que os historiadores deveriam aprender, pois ainda que toda pergunta seja formulada a partir do tempo presente, cabe ao pesquisador levar em consideração as solicitações, as necessidades, e as lacunas da historiografia atual.

Referência: BOUTIER, Jean e JULIA, Dominique (orgs.). Passados recompostos: campos e canteiros da história. Rio de Janeiro: UFRJ e Fundação Getúlio Vargas, 1998, pp. 271-297.

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