Sobrados e Mucambos

No primeiro capítulo de “Sobrados e Mucambos”  , Gilberto Freyre afirma que, com a descoberta das minas, e a chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, o patriciado rural começou a perder a majestade dos tempos coloniais. E o Brasil, além de tornar-se a colônia mais gorda de Portugal, passou a ser a mais explorada, vigiada, e governada com mais rigor. A própria presença do soberano em terra tão republicanizada, já começava a alterar a fisionomia da sociedade colonial.

A estrutura da colônia – homogênea em diversos sentidos – começava a se transformar. As cidades, as indústrias, e as atividades urbanas ganhavam maior prestígio. Coisa só experimentada antes na rápida passagem dos holandeses pelo nordeste. Surge o gosto pelo bem-estar material, pelas cidades com vida própria, independentes dos grandes proprietários de terras. “E como outrora em Portugal, os reis portugueses do Brasil passaram a prestigiar os interesses urbanos e burgueses, embora sem hostilizar rasgadamente os rurais e territoriais”  . Declina-se aos poucos o amor del-Rey pelos senhores rurais. Novo prestígio é investido nos capitães-generais, nos ouvidores, intendentes, bispos, etc.

No século XVIII emergia uma nova classe, ansiosa de domínio: “burgueses e negociantes ricos querendo quebrar o exclusivismo das famílias privilegiadas de donos simplesmente de terras, no domínio sobre as Câmaras ou os Senados”  . Essa nova classe seria denominada de mercadores de sobrados.

Pelas condições que foram sociologicamente estabelecidas na colonização do Brasil – fundamentalmente agrária – os senhores rurais tinham se habituado a um regime de responsabilidade frouxa em relação aos financiadores de suas fazendas. Mesmo considerando o risco do empréstimo, desde cedo surgiram agiotas, e entre eles muitos judeus – alguns atribuem a eles a fundação da lavoura de cana e da indústria do açúcar no país, além da importação de escravos para as plantações. “Sem o intermediário judeu, é quase certo que o Brasil não teria alcançado domínio tão rápido e completo sobre o mercado europeu de açúcar […]” Foi com os intermediários que a riqueza das cidades parece ter iniciado.

Não foi somente com os senhores de terras que a atividade de usurário foi exercida. Também entre os Mineiros, quando para as minas de ouro e diamantes começou a se deslocar escravos. O judeu usurário ficou conhecido como “comboeiro”: o vendedor de homens a prestações. A força desse intermediário cresceu mais ainda no decorrer do século XVIII e XIX. Sua figura foi enobrecida no banqueiro, no aristocrata da cidade, no comissário do açúcar ou do café. Morador de sobrado de azulejo, andando em luxo, comendo passa, figo e bebendo vinho do Porto.

Acentuou-se com D. João VI o desprestígio da aristocracia rural. Não mais ternura para com os devedores, sempre em atraso. As Câmaras não mais privilégio dos grandes proprietários de terras. Estes tinham agora de lidar com pesadíssimos juros e impostos. Segundo Freyre, “Os engenhos, lugares santos donte outrora ninguém se aproximava senão na ponta dos pés e para pedir alguma coisa – pedir asilo, pedir voto, pedir moça em casamento, pedir esmola para festa de igreja, pedir comida, pedir um coco de água para beber – deram para ser invadidos por agentes de cobrança, representantes de uma instituição arrogante da cidade – o Banco […]”.

Ainda segundo Freyre, as gerações mais novas de filhos de senhores de engenho – educados na Europa, ou em grandes metrópoles – tornaram-se, em certo sentido, desertores da antiga aristocracia rural. Os novos bacharéis, médicos e doutores, agora afrancesados, se tornariam aliados do Governo contra o próprio poder pater famílias rural que seus pais e avós representavam. “As cidades tomaram das fazendas e dos engenhos esses filhos mais ilustres”  . Entretanto, como enfatizará o autor, o poder dos senhores não foi desintegrado de forma tão simples, do dia para a noite, nem a ascensão da burguesia tão rápida. Houve muitas exceções; muitos encontraram alento em seus filhos, outros foram caloteiros para com os judeus da cidade – desviando remessas de açúcar ou de café – e outros até mesmo aumentaram suas fortunas.

Sem dúvida, foi nesse momento de configuração social do Brasil que ocorreu certa integração dos setores da sociedade em torno de um Governo mais forte, de uma Justiça mais livre da pressão de oligarquias ou indivíduos poderosos, e de uma Igreja mais independente. Foi o tempo em que o patriarcalismo urbanizou-se: “menos absorção do filho pelo pai, da mulher pelo homem, do indivíduo pela família, da família pelo chefe, do escravo pelo proprietário; e mais individualismo – da mulher, do menino, do negro – ao mesmo tempo que mais prostituição, mais miséria, mais doença. Mais velhice desamparada”  . Época de Mauá, das fábricas e dos burgueses.

Referência: FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos. Rio de Janeiro. Editora Record. 9ª edição. 1996.

Anúncios

Uma consideração sobre “Sobrados e Mucambos”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s