Religião e Política no Alvorecer da República

Após a proclamação da República no Brasil, algumas medidas foram tomadas pelo governo – especialmente em relação à Igreja – que davam fim ao padroado[1] e do regalismo[2]. Essas medidas, entre elas o ensino laico, a secularização dos cemitérios e o casamento civil obrigatório, geraram sentimentos dicotômicos de alívio e apreensão. Nesse período surge um movimento chamado de romanização, liderado por D. Macedo da Costa, que afirmava a impossibilidade do avanço do Estado sem a proteção da religião. Esse movimento acabaria por garantir a preservação dos bens da Igreja.

Em meio à tensão e negociação entre Estado e Igreja, e com o efetivo fortalecimento, em termos institucionais, da República, a perda do poder das autoridades religiosas desencadeou reações severas dos populares. Euclides da Cunha procurou explicar as manifestações sociais sertanejas como fruto do desequilíbrio mental de Antônio Conselheiro. Mais tarde, três autores estudaram o movimento, Maria Isaura de Queiroz, Rui Facó e Douglas Teixeira Monteiro.

Queiroz, em “O messianismo no Brasil e no Mundo” (1963), analisou os três movimentos – Juazeiro, Canudos e Contestado, com base em Antônio Cândido. Em seu entender, os aspectos sócio-políticos foram determinantes. A cultura “rústica” possibilitou os movimentos messiânicos, e a religião teve função secundária, pois a sociedade era baseada e conformada no coronelismo.

Rui Facó, por sua vez, em “Cangaceiros e fanáticos” (1963), explica os movimentos com base em sua formação histórica, remetendo-se aos males do monopólio da terra, geradores de marginalizados, que se manifestavam ou no crime ou na religião. Os fanáticos, em seu entender, eram os insubmissos, que acompanhavam os monges e beatos, e que tinham, por fim, interesses materiais. A religião era apenas o instrumento para se obter as melhores condições de vida.

Já Douglas Teixeira Monteiro, em “Um confronto entre império, canudos e contestado” (1977), se direciona para o catolicismo rústico e a crise do mandonismo (coronelismo) local. Esse autor entende que os movimentos compostos por rebeldes não tinham projeto político. Eram apenas seguidores de místicos, sendo que a religião era parte essencial das sociedades rústicas. Enquanto em Facó e Queiroz a religião era secundária, em Monteiro, ela está no mesmo plano da economia.

Os movimentos foram produtos de um quadro de crise motivado por mudanças estruturais, as quais desestabilizaram os sistemas de referencia cultural e religioso, e desencadearam a polarização dos conflitos entre sertão e litoral, catolicismo rústico e catolicismo oficial, senhores da terra e camponeses. Embora a religião tenha se destacado como única via de expressão para driblar a crise que se vivia, no imaginário dos sertanejos ocorreu um “desencantamento do mundo tradicional do sertão”.

Os três movimentos – Juazeiro, Contestado e Canudos – tiveram claras lideranças. Padre Cícero foi considerado um guia para os fiéis e desafiou a Igreja de forma mais longa e sistemática. José Maria manifestou-se como um salvador. Já Conselheiro, ainda que não se considerasse um messias, organizou a cidade de Canudos como uma cidade santa, sem fazer, porém, qualquer declaração explícita.

Para entender essas manifestações é crucial perceber o conjunto mais amplo de transformações impostas pelas mudanças do regime político do país, e as diferentes maneiras de como a religião e a política se combinaram nessa conjuntura.


[1] O Padroado foi criado através de um tratado entre a Igreja Católica e os Reinos de Portugal e de Espanha. A Igreja delegava aos monarcas destes reinos ibéricos a administração e organização da Igreja Católica em seus domínios. O rei mandava construir igrejas, nomeava os padres e os bispos, sendo estes depois aprovados pelo Papa.

[2] Doutrina que defende a ingerência do chefe de Estado em questões religiosas.

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