Frida Kahlo e o Surrealismo

Alguns autores consideram o surrealismo como uma seqüência do dadaísmo, para outros, entretanto, é entendido como um movimento completamente novo. O Dadá havia chegado ao fim. Com o intuito de tudo negar, acabou por negar a si mesmo. A tendência à teorização de tudo, especialmente entre o grupo de jovens franceses em torno de André Breton, chocou-se com o manifesto Dadá, que pregava um estado de espírito e o livre pensamento artístico.

Segundo Dawn Ades, “o surrealismo aboliu o veto que o Dadá tinha aplicado à arte e eliminou a necessidade da posição irônica dadaísta, devolveu ao artista a sua razão de ser sem impor, ao mesmo tempo, um novo conjunto de regras estéticas”.

O surrealismo herdou, entretanto, muitas características do Dadá, especialmente a crítica à sociedade burguesa e o ataque às formas tradicionais de arte. É em Freud, porém, que todo o movimento vai encontrar subsídios para sua teorização. O contexto do surgimento do surrealismo é o da busca pela compreensão dos sonhos, da hipnose – embora a prática não tenha dado bons frutos entre os surrealistas, acabando por ser abolida, e do automatismo. Este último era o que revelaria a verdadeira natureza individual de quem o praticasse, de forma muito mais completa do que as criações conscientes.

Por outro lado, se a relação entre o surrealismo e a psicanálise é de fundamental importância, os surrealistas não tinham intenção de interpretar os sonhos – somente a exteriorização do mesmo – enquanto a psicanálise tentava decifrar as manifestações do inconsciente pela razão, com o fim de curar o paciente de seus delírios.

Embora o nome de Frida Kahlo tenha sido associado ao movimento do surrealismo – participou de uma exposição com André Breton em Paris – o que motivava a artista mexicana era muito diferente dos pintores franceses. Frida procurava passar para a tela todas as amarguras que passava na vida. O mesmo princípio do auto-retrato – os quais ela pintou inúmero – se colocava para as outras obras. Frida fugia totalmente do modo de produzir encontrado no Manifesto Surrealista. Não lhe interessava o inconsciente, mas as dores do cotidiano e as tragédias pessoais.

Os franceses, ao que tudo indica, eram nacionalistas demais para suficiente atenção aos trabalhos americanos. Isso se demonstra mediante a atitude de André Breton quando da chegada de Frida à Paris. Segundo Andrea Kettenmann, assim que a mexicana aportou, viu que Breton não havia tomado qualquer medida para a exposição, que só se realizou mediante o auxílio de Marcel Duchamp, de quem Frida chamou de “o único que tem os pés assentes no chão, de entre esse bando de malucos e filhos da mãe de surrealistas”. Apesar da ajuda de Duchamp as obras da artista acabaram mesmo expostas junto aos trabalhos de mexicanos dos séculos XVIII e XIX. Frida sentiu que as mulheres eram ainda subestimadas na pintura.

Apesar de toda a força expressa em suas obras, Frida não era surrealista. Não teorizava da mesma maneira, nem partilhava de seus conceitos. E ainda que em inúmeros trabalhos elementos surrealistas e fantásticos sejam apresentados, a artista não se desprendeu completamente da realidade em nenhum deles. Retratava apenas a própria realidade. Os sonhos, talvez, poderiam se apresentar como mais doces e menos brutais do que vida real. Em seu diário registrou uma última frase: “Espero a partida com alegria… e espero nunca mais voltar… Frida”.

Para saber mais:
KETTENMANN, Andrea. Frida Kahlo: dor e paixão 1907-1954. Germany: Taschen, 1994.
STANGOS, Nikos. Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
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2 opiniões sobre “Frida Kahlo e o Surrealismo”

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