Manual de Ingenuidades: Praga

Outro dia topei com o blog Manual de Ingenuidades do jornalista Adriano Silva. Supreso com a qualidade do texto, tomei a liberdade de reproduzir aqui seu post sobre uma viagem à República Tcheca. Fica a recomendação: www.manualdeingenuidades.com.br.

Estávamos na estrada em direção à Praga e eis que me vi passando por Pilsen. Evidentemente que convenci minha mulher e entrarmos na cidade para tomarmos uma cerveja. (Quer dizer, bebi eu, porque ela estava dirigindo.) Eu já tinha comido uma cotoletta alla milanese  em Milão. E passei por Bolonha praticamente só para visitar a Universidade de Bolonha, a mais antiga da Europa, onde Umberto Eco leciona semiótica, e para comer um spaghetti alla bolognese. Em Nápoles, comi uma pizza napoletana. Então tomar uma pilsen em Pilsen era apenas uma obrigação inevitável.

Assim que saímos da alça da estrada, demos de cara com um McDonald’s. Com direito a brinquedão e tudo. Descobriríamos mais tarde que os vinte anos de economia de mercado da República Tcheca fazem com que, de certa forma, o país esteja convivendo com a economia de mercado e com a globalização há mais tempo do que nós aqui no Brasil. Eis o fato: a República Tcheca foi invadida duas vezes. Em 1938, pelos nazistas. E em 1968, pelos comunistas. E todos esses anos de jugo ideológico, debaixo de regimes duríssimos do ponto de vista econômico e político, não fizeram tanto mal aos tchecos quanto os nossos anos de coronelismo e capitalismo feudal e cartorial fizeram a nós. O tchecos viveram no atraso, sob o tacão, por 60 anos ininterruptos. Aí derrubaram sua ditadura, de modo pacífico, em 1989, e se abriram, se modernizaram. Hoje vivem num país com qualidade de vida muito superior à nossa, no Brasil – que só fomos nos reinserir de verdade na história a partir de 1994. E nós, por aqui, de certa forma, ainda não derrubamos as amarras culturais que nos prendem ao lamaçal.

Hoje, a sociedade tcheca esboça fundamentos muito superiores aos nossos – em termos de educação, divisão de renda, segurança pública, efervescência cultural, conexão à economia global, turismo. Os tchecos, por tudo isso, estão muito mais bem posicionados para enriquecer do que os brasileiros. Na verdade, já estão mais ricos. Nosso PIB per capita em 2010, segundo o Banco Mundial, era de 10 700 dólares. O da República Tcheca, 18 300 dólares. Todas as camareiras do nosso hotel em Praga eram ucranianas. Os porteiros, africanos. Enfim, a República Tcheca já é um país para onde as pessoas vão em busca de uma vida melhor. É vergonhoso, mas nosso capitalismo baseado na intervenção e na dependência do Estado, e na corrupção ampla, geral e irrestrita, que abala nossas instituições de cima abaixo e o próprio sentimento que temos de nação, há anos, como um cancro invencível, é pior, mas muito pior do que os regimes de Hitler e de Stalin somados. Adoramos olhar horrorizados para os governos sustentados pela KGB e pela SS. Mas nenhum sistema, como se vê, é tão danoso para um país quanto o que temos engendrado como autoflagelo por aqui há décadas.

Em Pilsen, entramos num boteco de subúrbio, cheio de velhotes. Dava a impressão de que minha mulher era a primeira a colocar um pezinho 37 por ali. O país real, sem turistas. Eram quase seis horas da tarde, ninguém na rua. Pilsen tem 170 000 habitantes – pouco  mais do que uma cidade como Itu, em São Paulo. (Casualmente também uma produtora de cerveja.) O boteco parou, nos olhando. Cena de filme. O bodegueiro sai de trás do balcão com sua enorme pança, de bermudas esgarçadas, meias velhas e chinelos de dedo. Vem nos atender, meio constrangido. Peço uma cerveja e ele me traz um caneco de Gambrinu’s – é a única que ele tem; a marca está na placa em frente ao estabelecimento. Os velhotes vão até a cozinha e trazem de lá uma bandeja cheia do que imagino serem iscas de peixe fritas. Com gestos – não falo tcheco e o bodegueiro, com suas formas e feições de Papai Noel, não fala nada de inglês – eu peço uma porção daquilo. Ele se desculpa e me diz que os petiscos não estão à venda – trata-se de uma espécie de happy hour entre amigos, ele incluso. “Kamarada” foi a única palavra que compreendi com clareza quando ele apontou para os outros. A conta dá menos de dois euros. Deixo cinco na mesa – nós utilizamos o seu banheiro. (O feminino estava trancado a chave. Há anos, talvez.) Todos os velhotes, ao perceberem nossa generosidade com o bodegueiro, então nos acenam quando vamos embora. Me chamam a atenção os olhos claríssimos e algumas gengivas desfalcadas de dentes.

Antes de pegar a estrada de novo, passeamos um pouco pelas ruelas daquele bairro residencial de Pilsen. Tudo bem cuidado, limpo, em clima ordeiro. Tudo mais com cara de novo do que com cara de velho. Jardins e hortinhas bem cuidados nos quintais comedidos, carros pequenos e médios nas garagens. Uma dignidade média, geral, ampla, que é coisa que nos falta, que nos machuca e que levaremos ainda muitos anos para resolver – se um dia viermos a entender o quanto isso é importante, é claro. Não vimos mansões mas casas suficientemente confortáveis e aconchegantes. E vimos um cuidado com as vias públicas, do asfalto das ruas às calçadas e à arborização, típicas de um lugar em que o básico e o lógico acontecem com um mínimo de obviedade e razão: 10 milhões de pessoas pagam impostos e veem seu dinheiro retornar em melhorias para todos. Aqui, somos 200 milhões a pagar impostos que somem nos bueiros mais imundos que se possa imaginar. E aquela, repito, não era a República Tcheca para turista ver. Nós tínhamos nos infiltrados onde  só chegam turista perdidos ou enxeridos, como eu. Aquilo era a República Tcheca profunda. E ela dava de dez a zero nas nossas construções verde amarelas que já viram ruína antes de nascer, como sintetizou bela e tristemente Caetano em uma canção.

Em seguida chegamos à Praga. A quarta capital mais visitada da Europa, depois de Londres, Paris e Roma, como me informou o motorista do hotel em que ficamos. Ele era tcheco. Me disse também que um aeroporto europeu era considerado grande se tivesse o fluxo de 1 milhão de passageiros por mês. O aeroporto de Praga já estava girando em 12 milhões de passageiros por ano. Guarulhos recebe 26 milhões de passageiros por ano. E com mais do dobro de passageiros, Guarulhos tem dois terminais e duas pistas, com 3 700 e 3 000 metros. Enquanto que o aeroporto de Praga tem quatro terminais e três pistas, de 3 700, 3 200 e 2 100 metros. Congonhas, que seria um aeroporto de grande circulação pelos padrões europeus, carrega nada menos que 15 milhões de passageiros por ano, espremido entre as Avenidas Bandeirantes e 23 de Maio, e conta com duas pistas, de 1 900 e 1 400 metros. Deixemos o conforto, a amplitude e outros detalhes arquitetônicos de fora da análise para não parecer que eu estou aqui pegando no pé da turma encarregada de administrar o transporte aéreo nacional…

O motorista fala com desenvoltura sobre a história do país e sobre as atualidades econômicas e políticas da República Tcheca, da Europa e do mundo. Ele é um retrato evidente do nível médio de informação da população por lá. Ele tem 42 anos e viveu até os 20 sob o comunismo. Me conta que desde a abertura os preços subiram muito mas os salários subiram mais – acha que seu poder aquisitivo é maior hoje. Os mais velhos é que se queixam mais, porque as pensões não subiram tanto quanto os salários de quem está na ativa. Diz que nunca houve falta de comida nos anos de chumbo mas tudo era controlado e a variedade era pouca. Era difícil conseguir produtos ocidentais, “como uma calça Levi’s”. Mas que no mercado negro tudo era possível, via escambo e troca de favores. Diz que era muito difícil sair do país e que havia só dois jornais e uma emissora de TV. Simpatizei demais com ele. Ele me conta que seu filho, de 20 e poucos anos, nascido e crescido sob o capitalismo, esses dias lhe disse que havia comprado uma mochila pela internet, em loja de outro país, com o cartão de crédito. Ele ria com orgulho e com uma ponta de encanto ao relatar essa aventura digital e econômica do seu filho. Ele mesmo só tivera o primeiro cartão de crédito depois dos 30. E era um fã do You Tube!

Flanamos muito por Praga. E encontramos uma turma muito jovem, muito pop, que gosta de balada, que adora se divertir. Todo mundo fala inglês. Um país jovem. E com a cabeça no lugar e o pé no caminho certo. Nada de um país velho ou chato. Nada de um baixo astral ou resquício de Cortina de Ferro, nenhum ranço de Europa oriental. Descobrimos que a música clássica é o verdadeiro rock and roll de Praga. Há Mozart e Strauss e Vivaldi todo dia e por toda parte. Fomos a vários concertos – sem pompa nem circunstância algumas. Obras clássicas muitíssimo bem executadas são eventos comuns em Praga. E, por fim, eis o que tenho a dizer: assisti no Municipal de Praga uma violinista gordinha que esmerilha – dá banho em qualquer guitar hero que eu já tenha visto tocar.

http://www.manualdeingenuidades.com.br

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