A Resistência Subreptícia

Hector Hernan Bruit, em seu texto “A resistência subreptícia”, afirma que o comportamento dos índios, em face à conquista, dependeu principalmente de sua origem e grau de civilidade. A forma com que entendemos esse comportamento hoje é também, em parte, de responsabilidade dos cronistas da época.

A derrota dos indígenas não foi fulminante em todo continente, em várias regiões os índios fizeram guerras prolongadas, como foi o caso dos araucanos que só aceitaram a paz no século XIX. Segundo o autor, o século XVI foi sacudido por catorze revoltas indígenas que provam que a conquista européia não foi tão tranqüila.

Ao longo do tempo, os índios desenvolveram outra forma de resistência, não militar, sub-reptícia, silenciosa. Mesmo conquistados e colonizados, não deixaram de ser agentes sociais ativos, capazes de fazer também sua história. Com efeito, a dominação total, a aculturação e a substituição de uma cultura por outra não chegou a realizar-se.

Por outro lado, a sobrevivência, tanto física como cultural, dos povos indígenas não anula ou anestesia o efeito causado pelo massacre de milhares de índios. Estes, por sua vez, também não foram tão pacíficos assim, como Las Casas os pintou. “A destruição e o morticínio foram produto, entre outras causas bastante conhecidas, de uma relação que se desenvolveu porque existiam combatentes de um lado e do outro. Mas, passada a etapa bélica, os índios praticaram uma resistência camuflada, apenas conjeturada pelos espanhóis mais perspicazes”.

Oviedo e Sepúlveda, adversários de Las Casas, afirmavam que os índios “gostavam de exagerar seus defeitos”, “não querem mudar seus costumes” e “são mentirosos e covardes”. Porém tudo fazia parte de uma resistência inconsciente. Enquanto Oviedo afirmava que os índios não trabalhavam porque eram preguiçosos, Las Casas entendia que os indígenas deixavam de cultivar suas terras com o propósito de matar de fome os conquistadores.

A respeito dessa resistência sub-reptícia, a primeira arma utilizada pelos índios foi o silêncio. No informe dos padres jerônimos, uma testemunha afirma que os índios “eram inimigos de conversar com os cristãos”. Neste caso se aplica a tese de Tzvetan Todoróv, que podemos chamar de “tese do silêncio”. “O silêncio foi do índio frente aos conquistadores e surge como conseqüência da inadequação do sistema simbólico dos indígenas, que levou a uma ruptura da comunicação”. “Ora, o silêncio, como oposto à linguagem formal da consciência, é a via de expressão do inconsciente, lugar onde se asilou o desastre da conquista na forma de um trauma doloroso demais que os obrigou a esconder o que tinham sido e os levou a ser o que nunca foram. Aqui começa o jogo das máscaras”. “Num primeiro momento, a atitude dos índios foi o resultado do trauma da conquista, um trauma psicológico de proporções descomunais”. Esse pânico inicial foi substituído por uma série de atitudes que desorientaram os conquistadores, produto da vontade de resistir.

Se analisarmos o perfil psicológico dos índios antes e depois da conquista, nos depararemos com uma mudança radical de comportamento social. Quase sem exceção, as crônicas que descrevem as sociedades indígenas pré-conquista são unânimes em reconhecer a moral social, a disciplina, o respeito às leis, a religiosidade, a economia, etc. Porém os mesmos cronistas descrevem o comportamento pós-conquista dos indígenas com todos os vícios imagináveis.

A resistência ainda é praticada através da teimosia e da mentira. Esta última de aspecto bastante sublinhado pelos cronistas, surgindo como instrumento de defesa e de oposição. “Certamente, quando os índios descobriram o delírio dos espanhóis pelo metal precioso, passaram a inventar cordilheiras, vales e lagoas cheios de ouro. O episódio mais antológico a esse respeito, narrado por Las Casas, talvez fosse a fundação de Castilla del Oro, no Darién, por Núnez de Balboa. A cidade foi batizada com esse deslumbrante nome depois que os índios informaram que por ali existia um rio onde se ‘pescava o ouro com redes’. A notícia explodiu o imaginário dos conquistadores, os procuradores de Balboa correram a contar ao rei e toda a Espanha agitou-se e os homens saíram à procura de redes para pescar o ouro na Terra Firme. De resto, os conquistadores só pescaram piranhas”. Podemos imaginar os indígenas rindo e zombando dos conquistadores.

Entretanto, o traço que mais chamou a atenção dos cronistas foi a bebedeira dos índios. Segundo nosso autor “o quadro desenhado pelos cronistas deixa a impressão de que, após a conquista, todos os índios do continente passavam bêbados as vinte e quatro horas do dia. Porém, os mesmos cronistas afirmavam que, no período pré-colombiano, a bebedeira era duramente castigada”. Segundo o cronista Peruano Guaman Poma de Ayala:

Que os mencionados índios bêbados, cristãos, sabendo ler e escrever, usando rosário, vestidos como espanhóis, com colarinhos, e parecendo santos, na bebedeira falam com o demônio e reverenciam as guacas, os ídolos e o Sol.

Desta forma utilizavam a bebedeira como forma de remeter-se ao passado pré-hispânico, de esconder suas antigas tradições e crenças, evitando assim a destruição completa de sua cultura e enganando os conquistadores. “Independentemente do significado idolátrico da bebida, a bebedeira no período colonial pode ser interpretada de outras maneiras. Como uma forma de iludir-se em relação ao mundo, a uma situação que não tinha mais sentido; talvez uma forma de anestesiar a frustração, a angustia e a dor pela perda de um passado destruído, que não existe mais. Porém, era uma maneira de inconformismo perante a nova sociedade que os explorava, embora como trabalhadores não fossem mais que uma caricatura. ‘Sempre estão bêbados e não querem trabalhar’, repetiam-se até o cansaço os corregedores e encomendeiros”.

“Ébrios e mentirosos, ociosos e teimosos, além de vingativos e inconstantes, eram os qualitativos que os espanhóis aplicavam aos índios para justificar sua situação de inferioridade na escala social”. Embora fosse apenas uma tentativa de agir de alguma forma sobre a sociedade organizada pelos conquistadores. “O sistema simbólico indígena, que se mostrou deficiente para decodificar os atos e intenções dos primeiros conquistadores, agora desorientava a maior parte dos espanhóis”.

Os indígenas deram um nó cego entre as duas religiões. Fantasiavam coisas, misturando a idolatria com os santos católicos. Não se tratava de blasfêmia, era apenas um mecanismo de defesa, de deculturação, de resistência. A sociedade hispano-indígena corria o risco de não vingar como uma sociedade cristã ordenada e governável. “Uma força estranha, oculta, não-entendida, trabalhava para desajustá-la, deturpa-la em seus objetivos, e essa força eram os próprios índios submetidos pelas armas, mas não conquistados nem pela nova religião, nem pelo saber dos espanhóis, que na realidade era um ‘não-saber’, pois ignorava a cultura e as raízes das tradições e costumes dos vencidos”. Assim serpenteava a dialética do visível e do invisível, de sujeitos mascarados que deixaram mais enigmas que transparências.

O jesuíta José de Acosta atribuiu a simulação dos índios a Satanás, demonizando os indígenas, porém tanto ele quanto o dominicano Diego Duran, reprovaram duramente os conquistadores pela destruição dos códices e monumentos indígenas, impedindo dessa forma, um conhecimento mais profundo sobre as tradições americanas e eliminando qualquer possibilidade de desarme da simulação, e consequentemente da idolatria.

A idolatria estava em todas as coisas, fazia parte do cotidiano. Era uma maneira de ver, agir e sentir as coisas do mundo, uma concepção de universo. Era praticada por meio das artes mágicas dos adivinhos e dos feiticeiros. Os índios a praticavam no interior de sua vida privada, eram Cristãos fora de casa e idolatras dentro de casa. A idolatria podia ser encontrada nas coisas mais simples como na semeadura e na colheita, e por ter sido uma prática oral e privada, foi escondida no interior do lar e na sombra da noite, sendo que sua extirpação se tornou tarefa quase impossível.

A língua dos índios também se tornou em problema para os espanhóis, enquanto os indígenas tinham a maior vontade em aprender o castelhano, suas línguas nativas permaneceram desconhecidas para a maior parte dos conquistadores. Bilíngües, os índios comunicavam-se em sua própria língua nativa, sem que os espanhóis os entendessem, o que gerava tremenda irritação entre os conquistadores.

“De fato, cristãos ou não, os índios usavam sua linguagem, suas festas, seus bailes, a embriaguez, para manter vivas suas tradições e suas diferenças com os espanhóis. Por trás da simulação, a rivalidade e a recusa da cultura hispânica foram perenemente renovadas. Suas danças, e os espanhóis sempre se se queixaram que só sabiam dançar, eram um verdadeiro teatro dramático e cômico, que recuperavam e refaziam a história passada, alimentavam a memória e a robusteciam, mantendo essa identidade coletiva constantemente ameaçada pelo peso da cultura invasora e a necessidade dramática de vive-la como simulação”.

PARA SABER MAIS:

Bruit, H. Hernan – Bartolomé de Las Casas e a Simulação dos Vencidos.

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