As Sociedades Andinas anteriores a 1532

“O Império Inca (Tawantinsuyu em quíchua) foi um estado que existiu na América do Sul de cerca 1200 até a invasão dos conquistadores espanhóis e a execução do imperador Atahualpa em 1533. O império incluía regiões desde o extremo norte como o Equador e o sul da Colômbia, todo o Peru e a Bolívia, até o noroeste da Argentina e o norte do Chile. A capital do império era a atual cidade de Cuzco. O império abrangia diversas nações e mais de 700 idiomas diferentes, sendo o mais falado o Quíchua”.

John Kurra, em seu texto “As sociedades andinas anteriores a 1532”, afirma que quando Pizarro invadiu as Andes já haviam passado mais de quarenta anos desde a invasão de Granada e mais de vinte desde a invasão da Mesoamérica. Uma geração inteira de europeus – quase duas – estavam familiarizados com os costumes dos ‘pagãos’ e dos ‘índios’”.

Muitos ouviam boatos sobre povos ricos que habitavam lugares mais remotos ao sul do Panamá. É basicamente desses boatos que se derivam todo nosso conhecimento sobre as civilizações andinas em 1532. Um conhecimento bastante incompleto e fragmentado.

Com relação à arqueologia, diferentemente do que ocorre no México, poucos se dedicam profissionalmente ao estudo dos Incas. “Paradoxalmente, grande parte de períodos mais antigos, alguns que datam de centenas de anos antes dos incas, parecem mais acessíveis e tiveram suas peças de cerâmica minuciosamente estudadas; e os aspectos decorativos de outras técnicas, especialmente a tecelagem – a principal arte dos Andes – foram todos catalogados, fotografados, preservados. Todavia, quanto mais nos aproximamos de 1532, época em que o Estado andino foi dominado e estilhaçado nas centenas de grupos étnicos que o compunham, menos possibilidade temos de obter conhecimentos através da arqueologia na forma como é praticada hoje, e mais temos de depender dos relatos escritos por aqueles que ‘estiveram’ lá”. Muitas questões permanecem ainda sem resposta.

Os primeiros observadores europeus chegaram a algumas conclusões semelhantes aos estudiosos modernos. Primeiramente, nunca haviam vislumbrado semelhante geografia. “Nos Andes, as montanhas eram mais altas, as noites mais frias, os dias mais quentes, os vales mais profundos, os desertos mais secos, as distâncias maiores do que as palavras poderiam descrever. […] o país era rico e não apenas em termos do que podia ser levado embora. Havia riqueza na quantidade de pessoas e em suas habilidades, nas maravilhas tecnológicas observáveis na edificação, na metalurgia, na construção de estradas, na irrigação ou nos produtos têxteis (‘depois que os cristãos levaram tudo o que queriam ainda parecia que nada havia sido tocado’)” .

Na agricultura, os andinos precisaram se adaptar às bruscas mudanças de temperatura. Este empecilho acabou por ser transformado numa vantagem adaptacional, o tecido vegetal, em especial as variedades de tubérculos, e a carne animal sofreram um processo de conservação, congelados a noite e secos sob o sol. Para vencer a geografia e a altitude, os andinos possuíam plantações, pastoreios, cavavam sal, cortavam madeira, cultivavam algodão e pimenta, nos vales a três ou quadro dias de caminhada de “casa”.

“A esse modo complementar de ter acesso a muitos pisos ecológicos espalhados deu-se o nome de ‘arquipélago’ de colonização andina”. Algumas populações das montanhas ainda praticam o “duplo domicílio”. Não se sabe a idade desse padrão.

A forma mais importante de manifestação da arte andina era encontrada nas roupas. Para os padrões europeus do século XVI, as roupas eram produzidas em rítimo verdadeiramente industrial, sendo produzidas em tempo integral por grande número de mulheres.

“Tahuantinsuyo, o Estado Inca, não foi a primeira comunidade política multiétnica surgida nos Andes. Nas últimas décadas, os arqueólogos têm distinguido vários ‘horizontes’ (períodos em que as autoridades centrais conseguiram controlar tanto as comunidades das montanhas quanto as costeiras) das eras ‘intermediárias’, em que floresceu o separatismo étnico”. “Não há consenso entre os arqueólogos sobre o modo como surgiram esses ‘horizontes’ nos Andes e como acabaram por desintegrar-se. Alguns sugeriram que o elemento ativo foi o ‘comércio’, revigorado por controles militares que usualmente se originaram nas montanhas; outros detectaram um zelo religioso por trás da expansão”

Como forma de controle político, os habitantes das montanhas podiam interromper o florescimento da região costeira mediante o bloqueio dos canais de irrigação que traziam água das geleiras andinas para as plantações no deserto. A expansão de Tahuantinsuyo só conseguiu se desenvolver com rapidez porque absorvia entidades políticas inteiras. Um exemplo dessa forma de domínio se deu com a conquista da população que conhecemos pelo nome de lupaca, foram deportados “para baixo”, para uma altitude de 3800 metros, na praia do lago Titicaca; nos novos locais de habitação as antigas defesas lupacas, como muros, “casas e lugares secretos”, se tornaram desnecessários já que a estrada real passava por suas capitais que logo se tornariam em centros administrativos incas.

O idioma quíchua serviu de instrumento unificador do império inca. Como não havia escrita, a cultura era transmitida oralmente. Para gerir o império eram utilizados os quipus, cordões de lã ou outro material onde eram codificadas mensagens e mantidas estatísticas permanentemente atualizadas. Realizavam regularmente censos extremamente completos (por exemplo, número de habitantes por idade e sexo). Na matemática, utilizavam o sistema numérico decimal.

Os artesãos eram peritos no trabalho com o ouro e mesmo sem conhecer o torno, alcançaram um bom domínio da cerâmica. Seus vasos tinham complicadas formas geométricas e de animais, ou uma combinação de ambas. Sua religião era uma mistura de culto à natureza (sol, terra, lua, mar e montanhas) e crenças mágicas. Os maiores templos eram dedicados ao Sol. Realizavam sacrifícios tanto de animais como de seres humanos.

“Cuzco deixo de ser, no século XV, o núcleo de uma comunidade local para tornar-se um importante centro urbano, capital da Tahuantinsuyo descrita pelos europeus. Não era apenas o coração administrativo do reino inca, mas também um centro cerimonial, onde eram sacrificadas diariamente uma centena de peças de roupas finas e um grande número de sacerdotes jejuava enquanto observava de seus observatórios-palácio os movimentos do sol. Seus calendários oficiais não são tão bem compreendidos quanto os dos maias, porque os resultados das observações não foram registrados em pedra, mas, muito provavelmente, tecidos em material têxtil perecível”.

Não sabemos quanto as várias etnias que formavam o império Inca estavam representados em Cuzco, mas sabemos que era obrigação dos chimos, uma comunidade do litoral, enviar para a capital artesãos e mulheres. Cuzco, da mesma forma como Tenochitlán, parece ser o centro multi étnico do império Inca, embora em ocasiões especiais esperava-se que os forasteiros deixassem a capital.

PARA SABER MAIS:

BETHELL, Leslie. História da América Latina Vol.1: América Latina Colonial.

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