O Trauma da Conquista

A história visível da conquista é a história da derrota militar dos povos americanos, da derrubada dos grandes impérios indígenas, do massacre do índio. É também a história da pequena tropa dos conquistadores, a de Cortés, Pizarro, Valdivia, que enfrentaram toda classe de obstáculos – cordilheiras, planícies áridas, selvas, climas quentes, guerras. Foram os “heróis-civilizadores”, valentes, católicos, cruéis e delirantes.

Fazem parte dessa história visível a evangelização dos índios, a extirpação das idolatrias, a luta contra o demônio, a dominação e o servilismo dos naturais. Mas, também, a procura do ouro, o enriquecimento rápido e a exploração até a exaustão e a morte dos povos americanos.

Com razão, o historiador colombiano Germán Arciniega escreveu em 1944 que “os espanhóis não descobriram a América; o que fizeram foi encobri-la quando destruíram as sociedades indígenas”.

No primeiro impacto, os indígenas aparecem medrosos e confusos, porém com o decorrer do tempo, se apresentam como sujeitos que esqueceram seu passado, aceitando pacificamente os novos amos. Inconscientemente, silenciaram o fato doloroso da destruição, porém não deixaram de agir como “sujeitos de uma história que nas aparências não lhes pertencia”.

Não podemos afirmar quão profundo foi o trauma da conquista, mas podemos afirmar que variou de acordo com o grau de civilidade e a escala social que o indivíduo pertencia. Logicamente o choque em sociedades mais organizadas foi maior, já que a destruição era mais evidente. Na escala social, aqueles que tinham mais privilégios foram, com toda certeza, os que mais sofreram. No caso dos humildes apenas trocaram de amo, embora “a dissolução da família, a violação das filhas, a violência física, a persecução religiosa, a ruptura brusca das crenças e costumes deixou nesses indivíduos o sentimento de um desastre incomensurável”.

A maior questão no que tange a conquista é como tropas tão pequenas destruíram impérios de milhões de pessoas. Cortés com quatrocentos soldados, Pizarro com cento e sessenta e Valdivia com pouco menos de cem. “As explicações para este fato tão singular são muitas, desde a inferioridade do armamento indígena (Las Casas), até as divisões políticas no interior desses impérios (Bernal Díaz, Cieza de León); desde os erros de estratégia militar apontados para explicar a derrota de Atahualpa em Cajamarca (Oviedo), até as sofisticadas explicações dos estudiosos de sua incapacidade de decodificar os signos dos conquistadores (Todorov)”.

O processo da conquista aparece envolto em um tecido estampado com símbolos, profecias premonições e mitologias. No caso dos Astecas, os índios acreditavam na profecia que Quetzalcóatl regressaria, os conquistadores se encaixavam no perfil de deuses. Embora depois que conheceram as obras dos espanhóis não os tiveram por celestiais. “No império incaico, Viracocha, o deus criador, à semelhança do deus asteca, deixou o continente entrando no mar e prometeu voltar”.

O aspecto diferente dos conquistadores, com suas armaduras reluzentes, montados em seus grandes animais com ‘prata nos pés’, fez com que os indígenas tratassem os espanhóis como deuses, porém ao contrário dos seus próprios, estes novos deuses infringiam pavor e eram chamados de donos do trovão. Eram deuses do mal, demônios que provocavam medo e paralisia. Foi o primeiro ato do trauma. Todavia quando iniciaram a matança e a destruição de templos e ídolos, o medo logo se transformou em pânico.

“O cavalo foi uma figura decisiva, pois os índios não o conheciam. Um monstro ágil, veloz, demolidor, que também usava vestiduras: uma conta de algodão e couro reluzente, peiteira de couro com cravos incrustados e fivelas de metal, e chocalhos no pescoço cujos sons assustavam os índios. Segundo vários cronistas, Atahualpa ordenou a seus índios mitayos dar presentes, comida e mulheres a Pizarro e Almagro, e também aos cavalos, pois pensavam que eram pessoas”.

Os historiadores modernos afirmam que as profecias relacionadas à vinda dos espanhóis e destruição do povo indígena foram construídas a posteriori. Isto evidencia o trauma entre os indígenas e a tentativa de substituir o ocorrido por uma regressão a um passado mais distante. Mesmo os espanhóis recorriam frequentemente ao seu imaginário. Cortés atribui suas façanhas à Cristo, à Virgem Maria e ao apóstolo Santiago.

Bernal Díaz escreveu páginas magistrais sobre os temores e apreensões que envolviam os soldados espanhóis quando entravam na guerra. A batalha de Tenochtitlan nos oferece uma narrativa viva e emocionante em que se mesclam os horrores físicos da contenda ao pânico psicológico. Entre os milhares de corpos mutilados, o medo ia tomando conta dos soldados enfiados nos escuros corredores de templos demoníacos, espreitando o inimigo ou a morte entre as sombras de figuras horríveis esculpidas na pedra. O medo-pânico ia invadindo lentamente as consciências desses lutadores arrogantes, quando os índios jogavam-lhes as cabeças cortadas e sangrantes dos companheiros aprisionados – amigos de longo tempo, lá da Espanha –, o cronista os lembra por seus nomes com aflição. Segurando as cabeças pelas barbas, arremessavam-nas, gritando enlouquecidos: ‘Assim os mataremos! Assim os mataremos!’, enquanto escutavam o lúgubre som de um estridente e imenso tambor situado no alto do templo. ‘Instrumentos do demônio!’, exclama o cronista soldado, que anunciava o sacrifício de dez companheiros na pedra sacrifical. ‘Arrancaram-lhes os corações e nada pudemos fazer’.

Bernal Díaz termina a cena agradecendo a Deus por não ter sido ele um dos mortos daquele dia. Embora o medo fosse compensado pela recompensa final, ouro, mulheres e vitória.

Já o medo dos índios se transformou em trauma quando seu mundo, como o conheciam, desabou sobre suas cabeças. A principio a catástrofe foi material e espiritual, em médio prazo, demográfica. Em longo prazo, amargaram destruição lenta de sua cultura.

O nível de desenvolvimento alcançado por estas civilizações destruídas era muito variado, de tribos de pescadores até grandes impérios organizados. Estes impérios chegaram a ser elogiados pelos próprios cronistas hispânicos, que embora criticassem a idolatria, os sacrifícios humanos e a sodomia, não deixaram de citar a limpeza das cidades, a ordem, a disciplina, a religiosidade, as construções o comércio, etc. Tenochtitlan tinha, em 1519, segundo estimativas modernas, aproximadamente 300 mil habitantes. Nem Paris, Milão ou Veneza tinha essa população. Sevilha, a maior cidade da Espanha, tinha apenas 120 mil habitantes.

É impressionante notar que em 1519 o México Central possuía algo em torno de 25 milhões de habitantes. Nos primeiros quatro anos, a população caiu para incríveis 16 milhões; oitenta e seis anos depois seria reduzida a cinzas marcando apenas 1 milhão de pessoas.

“Alguns cronistas do século XVI, assim como os estudiosos modernos, atribuíram o declínio demográfico às doenças transmitidas pelos conquistadores: sarampo, varíola e tifo. Entretanto, as doenças não foram as únicas responsáveis, houve outras causas que contribuíram também para isso: os suicídios individuais e coletivos, os abortos, o debilitamento da fertilidade unido a razões socioeconômicas e psicológicas, além é claro, das guerras e da violência dos conquistadores. Enfim, foi a derrubada do mundo, esmagando a consciência e os sentimentos dos indígenas”.

Uma carta de frei Pedro de Córdoba endereçada ao rei nos apresenta uma esterilidade voluntária das índias:

As mulheres, cansadas pelo trabalho, deixaram de conceber e parir porque estando prenhes ou paridas, teriam trabalho sobre trabalho; e muitas, estando prenhes usam coisas para abortar e abortam as criaturas, e outras, depois de paridas, com as próprias mãos matam os filhos para não deixá-los sob uma tão dura servidão; e mesmo não querendo entristecer Vossa Alteza, digo-lhe que não sei de nação nenhuma, nem ainda de infiéis, que tenham feito tantos males e crueldades com seus inimigos da forma e maneira que os cristãos tem feito contra estas tristes gentes que tem sido seus amigos e auxiliares em sua própria terra…, que destruíram e desenterraram destas pobres gentes a natural geração, as quais nem engendram, nem multiplicam, nem podem engendrar, nem multiplicar; não há nelas posteridade, que é coisa de grande dor.

Somando-se a isto, os suicídios, a prática dos franciscanos de recolher crianças nos seminários, o trabalho forçado, enfim, as humilhações explicam o desastre demográfico.

A conquista provocou nos índios um medo que alterou o comportamento em nível individual e social. A derrota fora tão humilhante que colocaram os sentimentos de vingança e rancor no mais profundo do ser. Era uma espécie de alienação, “esconderam o que tinham sido e passaram a ser o que nunca foram”.

Demorou 400 anos para que os índios enfim revivessem a catástrofe, porém na condição de que os tristes fatos originadores do trauma viessem modificados. “É a dança da conquista, como é denominada na área do que foi o império incaico, ou dança das penas no México e Guatemala”. Essas danças são na verdade obras teatrais em que “os atores, todo índios, alguns vestidos como no século XVI e outros como conquistadores, de rostos rosados e barbas loiras, encenam os fatos da conquista. Atahualpa, Huáscar, Pizarro e Almagro são revividos; as armas, os estandartes e as guerras são encenados e o povo é transportado ao século XVI pelo fascínio do teatro e de uma lembrança imperecível. Então, Atahualpa não morre choramingando e conformado, mas amaldiçoando os conquistadores; o povo jura vingança, e o rei da Espanha condena Pizarro pelo assassinato do Inca. No México, o povo delira quando Cortés se ajoelha e pede perdão a Montezuma logo após ser derrotado”.

Em geral, os cronistas, talvez com exceção de Las Casas, não observam o drama social dos povos americanos como catástrofe. Sua visão está atrelada ao resultado final; como diria Bernal Díaz, “a extinção dos crimes e vícios que infectavam a alma dos astecas”. A vitória de Deus contra Satanás, a propagação dos valores cristãos e ocidentais.

“Em geral, podemos dizer que muitos desses cronistas tentaram responder às críticas violentas formuladas por Las Casas, sem compreender o alcance verdadeiro dessas críticas, que apontavam para o nascimento de uma sociedade corroída em seus próprios fundamentos, desequilibrada, perpetuamente condenada à injustiça”.

PARA SABER MAIS:

Bruit, H. Hernan – Bartolomé de Las Casas e a Simulação dos Vencidos.

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2 opiniões sobre “O Trauma da Conquista”

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