A Península Ibérica no início da Idade Moderna

Em seu texto “Os modos ibéricos”, Stuart B. Schwartz & Robert D. Lockhart afirmam que embora no início da era moderna a Península Ibérica apresentava uma grande diversidade de reinos e idiomas, todos tinham em comum uma experiência cultural e histórica.

Para onde quer que fossem, os ibéricos do inicio da era moderna davam maior importância para a província de origem do que para a nacionalidade. “A província, a cidade e a vizinhança eram pontos de referência fundamentais que ajudavam os indivíduos a se definir em relação aos outros”.

“A percentagem da população que vivia dentro dos muros não era necessariamente alta, mas quase todo mundo que tinha alguma posição estava ali. Todas as organizações, quer eclesiásticas, comerciais, sociais ou mesmo agrícolas, tinham sua direção e sua sede na cidade. (…) A cidade ibérica, com seus direitos e privilégios tradicionais, suas funções político-simbólicas e seu amplo domínio sobre os recursos sociais e econômicos dos habitantes da região era um teatro de ações de toda a sociedade(…)”.

 GRUPAMENTOS FUNCIONAIS DA SOCIEDADE

 A sociedade ibérica poderia ser dividida entre nobres e plebeus, sendo a nobreza ao mesmo tempo uma questão de linhagem e um conjunto de atitudes. Tinha-se a nobreza em tão alta conta que alguns nobres, em outros países seriam considerados apenas aldeões prósperos. Muitos caminhos levavam à nobreza, o pleno sucesso econômico era um deles. Embora senhoriais, os nobres não eram anticomerciais, investiam em todos os ramos da economia de sua região. “O objetivo era a riqueza permanente, permitindo que uma família ‘vivesse nobremente’da renda da terra e dos rebanhos sem atividade cotidiana no comércio. Apesar do estereótipo moderno do hidalgo esfarrapado (sendo hidalgo o termo espanhol mais conhecido para designar o nobre), na sociedade ibérica havia uma correspondência razoável entre riqueza e nobreza (…)”.

As subdivisões mais significantes da sociedade ibérica eram relacionadas à ocupação ou função. A classe mais alta era composta de profissionais treinados para a igreja, a lei ou a medicina. Numa faixa inferior, mas ainda no alto da escala social, estavam os mercadores, principalmente aqueles envolvidos no comercio de longa distancia. Depois vinham os “servos”, que iam de administradores letrados e influentes, que detinham o comando prático dos negócios de nobres importantes, até encostados, pajens, capangas e cavalariços. Aqueles que recebiam sustento de um patrono eram chamados de paniaguados (pão e água). A sociedade é complementada pelos plebeus artesãos e lojistas dedicados ao pequeno comércio. Na mais baixa escala encontravam-se os pequenos proprietários e trabalhadores agrícolas. “As três classes tradicionais, a nobreza, o clero e os plebeus, eram, em certo sentido, corporações, cada uma com seus deveres e privilégios específicas; juntas, formavam o todo orgânico que compreendia o corpo político da monarquia.

 OS PRINCÍPIOS DE ORGANIZAÇÃO SOCIAL

Um dos princípios de organização que perpassava pela sociedade Ibéria era o patriarcalismo, ou seja, princípio segundo o qual qualquer grupo, familiar ou não, forma uma hierarquia, começando no nível mais baixo ou mais jovem até uma figura superior mais velha, sob cuja proteção e domínio o grupo se coloca. A sociedade era formada por grandes unidades construídas em torno de uma família e uma propriedade, com o dono governando a família, muitos parentes, empregados e escravos, se estendendo da cidade ao campo. “Uma família rica e poderosa tinha parentes mais pobres e menos nobres que eram, até certo ponto, incorporados ao rebanho, sem falar nos órfãos e escravos que adotavam o nome da família”.

A lei espanhola reconhecia vários níveis de bastardia, sendo comum um segundo relacionamento com mulheres de classe mais baixa. Os filhos ilegítimos recebiam o nome do pai e algum reconhecimento, porém eram tratados ao mesmo tempo como servos e parentes. Demos acrescentar também que a família ibérica adorava o princípio da divisão da herança em vez de direito estrito de primogenitura.

 GRUPOS ÉTNICOS

“Os cristãos da Península não viviam em isolamento cultural. No contraponto da conquista e reconquista, da retirada e do avanço através da Idade Média, os muçulmanos ficaram muitas vezes sob domínio cristão e vice-versa. Nas terras de ambos existia ainda uma minoria judaica. As relações entre esses grupos étnicos eram, em geral rotineiras (…)”.

 Porém com a reconquista, criou-se entre os cristãos a necessidade de unidade política e religiosa, o que fez com que, depois da queda de Granada, os judeus fossem forçados a se converter. “Assim, embora os cristãos da Península Ibérica tivessem uma tradição cosmopolita de lidar com outras culturas, também embarcaram num processo de unificação cultural e religiosa”, tenções que posteriormente foram transferidas para o Novo Mundo. Os novos conversos ao cristianismo estavam sempre sob olhares de suspeita e mesmo depois de gerações, para se conseguir um trabalho para a coroa era necessário provar que se tratavam de cristãos velhos. Os que fossem flagrados praticando sua antiga religião poderiam sofrer tortura e morrer nas mãos da inquisição.

Em termos globais os habitantes da Península compartilhavam conceitos etnocêntricos, de que sua religião, sua língua e seus costumes eram superiores aos dos outros povos. Porém, diferentemente dos outros povos da Europa já tinham lidado com culturas radicalmente diferentes, e por isso chegaram ao Novo Mundo munidos de expectativas e mecanismos para lidar com os “descobertos”.

 GOVERNO

Embora a Península Ibérica tenha liderado a Europa rumo a evolução da monarquia, no início estavam ainda muito longe de serem estados ativistas e unitários. “Como seus antecessores, sua principal função era confirmar e legitimar o status e arbitrar disputas”, de forma que as forças sociais e econômicas funcionassem com bastante autonomia. “Os principais poderes do governo eram nomear e julgar. A ambição do príncipe era ficar no ‘poder’, encontrar apoio para aliados e dependentes e, acima de tudo, arrecadar impostos”.

 O COMPONENTE ECLESIÁSTICO

O estado e a igreja exerciam uma relação de interdependência. Quanto aos vínculos governamentais, a coroa exercia o poder prático de nomeação de bispos e dignitários de catedrais, não lhe faltavam influência sobre as promoções nas próprias ordens regulares. Empregava religiosos em seus conselhos e, principalmente, para inspeções e outras missões extraordinárias. Organizações eclesiásticas também administravam a maioria dos hospitais, embora o financiamento quase sempre fosse leigo.

“Quanto à Inquisição, aquele tribunal, preocupado com a ortodoxia de elementos de ordem judaica ou moura na população ibérica, só pertencia ao resto da igreja por ser ocupado por religiosos. Por atacar com freqüência tanto o clero secular quanto o regular, é melhor considera-lo outro dos braços colegiados do governo”.

 COMÉRCIO

“A unidade básica do mundo mercantil era a “companhia”, forma conhecida havia muito tempo na área do Mediterrâneo”. Nada mais era do que uma sociedade de compra e venda de produtos entre dois ou mais indivíduos. Um sócio, geralmente o maior investidor, ficava em casa enquanto o outro, como um “procurador”, viajava e, comprava ou vendia um determinado lote de produtos. Era um meio em que todos os setores da população, e não só os mercadores pudessem investir. Formaram esse tipo de companhia para várias áreas além do comércio atacadista, tais como, construção, manufatura, transporte marítimo etc. Porém a Península não era nenhuma Gênova, os mercadores, por mais bem-sucedidos que fosse, abririam caminho rumo a nobreza para que a família viesse a abandonar o comércio.

 ESCRAVIDÃO

A escravidão era uma tradição muito bem estabelecida na Península Ibérica. Os escravos eram, por definição, estrangeiros e de origem étnica, religião e língua diferentes das de seus donos. Essa tradição de escravatura vinha desde a antiguidade e, durante séculos, cristãos e mouros escravizaram-se uns aos outros.

Bem antes da descoberta da América, um novo tipo de escravo vinha crescendo na península, era o escravo negro subsaariano, que com o tempo suplantou os escravos mouros.

Com relação à alforria, podia ser comprada pelo escravo ou por alguém em seu benefício. Mesmo quando o motivo era pessoal, era mais como um reconhecimento de vínculos sexuais e familiares ou recompensa a um indivíduo merecedor do que um ato de protesto humanitário contra a escravidão.

 CASTELA

Castela dominava o núcleo da Península, com mais terra e gente do que os dois outros grandes reinos de Portugal e Aragão, era também o mais etnocêntrico de todos. Castela permaneceu frente a frente com os mouros até o próprio ano do descobrimento da América. “Para os castelhanos, expansão ainda significava conquista do tipo clássico (…): colonização permanente por um bom número de imigrantes, domínio formal e cobrança de tributos e, com o tempo, mudança de religião e incorporação geral da nova área ao país de origem. Da mesma importância era a tradição de que o que fosse conquistado deveria ser dividido entre os conquistadores”. Todos os participantes, acima do nível de plebeu, recebiam sua parte. Criou-se dessa forma, com relação à América, uma expectativa de que, depois da conquista, haveria uma divisão.

“Os poderosos governantes na época do descobrimento, Fernando e Isabel, não conseguiram impor uma verdadeira uniformidade, já que, a recém unida coroa de Aragão era ainda inteiramente separada em teoria e quase tanto na prática (…)”. “(…) Como conseqüência dessa busca, os Reis católicos viram, pelo menos, a evolução de formas e normas padronizadas para as cortes e administradores, que poderiam ser disseminadas com facilidade e de modo uniforme por toda a América espanhola (…)”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s