Filosofia para todos os gostos

Texto de Renato Janine Ribeiro.

Por onde começar? Siga os passos para entrar no mundo e nas idéias dos principais pensadores do Ocidente

A filosofia é menos difícil do que se imagina. Se parece difícil, é por uma razão simples: ela é um gênero à parte. Conhecê-la é aprender a ler de um modo diferente. Ela tem pontos comuns com a ciência e com a literatura, mas se distingue de ambas. Como a ciência, ela procede com rigor e costuma ter, no horizonte, uma idéia de verdade. Mas a ciência se atualiza sempre e descarta seu passado. A filosofia não. Como a arte ou a literatura, ela preserva seu passado como um patrimônio irrenunciável.

Esta é uma primeira dica para o interessado em filosofia. Se você quiser conhecer literatura, deve começar por uma obra ou por uma história literária? É claro que pelas obras, romances, contos. O mesmo vale para a filosofia. Por isso, embora existam hoje muitas introduções à filosofia ou a filósofos específicos, o melhor é mergulhar diretamente nos autores e em seus livros.

Nos últimos 20 anos, aumentou muito a demanda por filosofia. Quem diria que, em 1968, quando “la definitiva noche se abría sobre Latinoamérica”, a filosofia viria a ser sucesso de público? Nos colégios, aposentava-se a escrita em favor das provas com cruzinhas. A filosofia era acusada de perigosa, pelas ditaduras, ou de inútil, pela tecnocracia. Mas isso mudou. A edição de filosofia está em franca expansão.

Por isso, até eu, que critico a ênfase excessiva que os cursos de filosofia dão aos autores (em detrimento das questões propriamente filosóficas), recomendo começar por eles. Filosofar é caminhar por isso […] O maior erro de quem quiser conhecer filosofia será acreditar que cada conceito tem um sentido exato, e um só. O leitor verá que cada autor lhe dá um significado diferente! E esse significado só cabe no pensamento desse autor. Assim, os dicionários de filosofia são úteis, mas não demais. Nenhum deles substitui a frequentação direta de uma obra.

Um exemplo: ética e moral. Qual é a diferença? Uns, porque “mores”, em latim, significa “costumes”, dizem que a moral é conformista, exprimindo os costumes de um grupo, e a ética (do grego “ethos”, “caráter”) seria a escolha que cada um faz, livre e responsavelmente, de sua vida. Outros trocam o sentido dessas mesmas palavras. Conclusão: o importante não é pontificar que moral e ética significam tal ou qual coisa, mas saber que há dois sentidos opostos, que podem receber nomes distintos, é crucial.

Não tenha medo do jargão filosófico. Toda disciplina tem seu rigor próprio, e na filosofia ele é decisivo. Mas penso que ela só adota jargão bem técnico ao ser ministrada nas universidades – o que acontece no fim da Idade Média, com a escolástica, e, modernamente, desde Emmanuel Kant (1724-1804). Ela então se torna mais difícil ao leigo, mas, retirando esses 500 anos mais técnicos, restam pelo menos dois milênios de filosofia feita, em larga medida, para um público não-acadêmico.

Filósofo, diz a etimologia, é o amigo do saber (do grego “filia”, “amizade”, e “sofia”, “saber”). A filosofia começa, na Grécia do século 6º a.C., sob o signo da modéstia. O Oriente conhecia a figura do sábio; ora, os gregos repudiavam a pretensão a serem sábios, isto é, proprietários do saber. Eles eram apenas (apenas?) amigos do conhecimento. Não queriam ser donos da verdade.

1. Comecemos, então, descartando os livros que pretendem possuir o saber, em vez de ensinar-nos a ser seus amigos. Muitas introduções à filosofia, infelizmente, expõem uma visão do mundo de seu autor, juntando de tudo – de Paulo Coelho a Martin Heidegger (1889-1976) – para comprová-la. As intenções educativas podem ser boas, mas não são obras de filosofia. Outras introduções (olhe bem o sumário antes de comprar) ficam distinguindo teses e escolas, o que resulta em algo abstrato, pesado e, a esta altura, inútil. O melhor ingresso na filosofia é ir direto a algumas obras particularmente fortes – e que não exijam formação na área para serem lidas. Se já souber quem lhe interessa, vá direto ao item 3.

2. Há outra possibilidade: começar por uma introdução mais ampla, mas que anime o leitor. Quando fiz o curso que se chamava clássico, minha professora recomendou “Fundamentos de Filosofia”, de Manuel Garcia Morente (Lições Preliminares, 324 págs., R$ 40), do qual tenho boa recordação. Esse livro talvez não resista às exigências mais técnicas de hoje, mas suas maiores qualidades são justamente seu caráter oral e seu entusiasmo pela filosofia. É uma obra de divulgação redigida por quem conhece o assunto. Pode dar a quem nada sabe de filosofia um mapa geral e leve dos autores. Mais fácil de encontrar, “O Mundo de Sofia” (Companhia das Letras, 560 págs., R$ 39,50), best-seller de Jostein Gaarder, ajudou muitos a se enamorarem pelo tema. O bom dessas obras é que auxiliam o leitor a identificar o segundo passo: que filósofo quer ler. Depois disso, mergulhe no autor de sua preferência.

[Comentário do Blog: Minha dica é “Uma História da Razão: Entrevistas com Émile Noel/ François Châtelet”  – ed. Jorge Zahar, R$33,00 na Fnac].

3. Dou algumas sugestões. Pode ser um diálogo de Platão (427-347 a.C.), como “O Banquete” (Difel, 188 págs., R$ 30,50), em que Sócrates discute o amor com Aristófanes e outros contemporâneos. Ou, quem sabe, algumas obras de Jean-Jacques Rousseau, como o “Emílio ou da Educação” (Martins Fontes, 714 págs., R$ 45), o manifesto do que hoje chamamos de educação, “Os Devaneios do Caminhante Solitário” (UnB, 136 págs., R$ 15), pungente na dor de um pensador que se sente repudiado por todos, “As Confissões” (Relógio d’Água, 2 vols., 654 págs., R$ 70,78), obra que funda a idéia moderna de verdade como sinceridade, conferindo, assim, valor à intimidade. (Nesse caso, leia também “O Declínio do Homem Público”, de Richard Sennett – Companhia das Letras, 448 págs., R$ 46).

4. A filosofia política geralmente é mais acessível do que a teoria do ser (conhecida por ontologia) e do que a teoria do conhecimento. Recomendo “O Príncipe”, de Nicolau Maquiavel (1469-1527), na edição da Martins Fontes (218 págs., R$ 15,40), somado à introdução de Isaiah Berlin à edição da Ediouro (256 págs., R$ 20,20) – infelizmente, a tradução desta última editora tem muitos erros.

“A Utopia”, de Thomas Morus (1478-1535), tem duas boas edições: uma pela Martins Fontes e outra pela Abril (ambas esgotadas). De Rousseau, veja o “Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens” (Martins Fontes, 330 págs., R$ 34,50). Ou ainda, de Spinoza (1632-1677), o “Tratado Teológico-Político” (Imprensa Nacional de Lisboa, esgotado). Muitas obras também estão disponíveis na coleção “Os Pensadores” (Nova Cultural, R$ 14,90 cada volume), lançada nos anos 70 e, desde então, reeditada com mudanças e (infelizmente) reduções.

Mais perto de nós, o “Dezoito Brumário de Louis Bonaparte” (Centauro, 149 págs., R$ 20), de Karl Marx (1818-1883), a “Introdução à Psicanálise” (Delta, esgotado), de Sigmund Freud (1856-1939), e a “Genealogia da Moral” (Companhia das Letras, 179 págs., R$ 29,50), de Friedrich Nietzsche (1844-1900), ensinam o leitor a suspeitar das aparências – o que é talvez a melhor lição filosófica. Mas o que significa ler Marx ou Freud pela filosofia, e não pela economia ou pela psicanálise? Há uma diferença. Significa suspender um pouco a referência de cada um deles a casos concretos ou empíricos (por exemplo, a sociedade brasileira de hoje ou a paciente histérica) e viajar dentro da consistência de seu pensamento.

Um exercício: procure entender tudo à luz do que o autor diz. Se possível, faça isso com dois autores, quase simultaneamente. Tente compreender a opressão, no Brasil de hoje, como Marx a entenderia (razões de classe) e como Freud o faria (questões de psique). Veja que cada sistema é consistente internamente. E fique muito preocupado com isso: veja que, partindo de certas premissas, explica-se, se não tudo, quase tudo. Isso poderá levá-lo ao ceticismo, que é uma posição filosófica hoje muito respeitada, com suas origens na Antiguidade.

5. Aqui você pode começar a ler com alguma ajuda. Para isso, há uma série de pequenas introduções em formato de livro. Destaco uma obra-prima, o “Pascal”, que Gérard Lebrun publicou pela Brasiliense 20 anos atrás e está esgotado. Cobre da editora que o reedite, pela coleção “Encanto Radical”, que tinha um “Walter Benjamin” de Jeanne-Marie Gagnebin e um “Nietzsche” de Scarlett Marton. Mas passe longe da coleção “Filósofos em 90 Minutos”, de Paul Strathen. Dica: quando alguém der importância demais à biografia ou ao contexto histórico, desconfie. O “Foucault em 90 Minutos”, por exemplo, fala mais da homossexualidade (assumida e notória) do filósofo do que de suas idéias. Esqueça.

A série de introduções a filósofos da Cambridge University Press, traduzida pela Editora da Unesp (R$ 8 cada volume), é boa, bem como a coleção “Filosofia Passo-a-Passo”, escrita por professores brasileiros para a Jorge Zahar (R$ 14,90 cada volume). Contudo, nem sempre esses livros escapam ao jargão técnico. Dê uma olhada neles antes de comprá-los, para ver se lhe interessam mesmo. “Montaigne”, de Marcelo Coelho, (Publifolha, 89 págs., R$ 11,50) é bom.

6. Deixei para este item as histórias mais técnicas da filosofia. Minha recomendação: use-as como livros de referência, como dicionários. Não comece por elas, a não ser que deseje estudar filosofia a fundo. Para o leitor interessado, elas ajudam a dar o quadro do autor e de suas idéias. Podem ser mais úteis do que as introduções a autores específicos.

Talvez a primeira a indicar seja “Convite à Filosofia”, de Marilena Chaui (Ática, 440 págs., R$ 49,90). No Brasil, ela e Adauto Novaes foram pioneiros na difusão da filosofia para um público leigo, interessado em questionar a experiência política e cultural. Chaui está escrevendo a série “Introdução à História da Filosofia”, da qual já saiu o primeiro volume, dedicado à Grécia antiga (“Dos Pré-Socráticos a Aristóteles”, Companhia das Letras, 560 págs., R$ 42).

ambém podem valer a pena o “Dicionário de Filosofia”, de Nicola Abbagnano (Martins Fontes, 1.026 págs., R$ 89), ou “História da Filosofia”, que Emile Bréhier escreveu sozinho nos anos 30 (Mestre Jou, esgotado) – o melhor para o resumo das idéias dos pensadores, ainda que ignore a história e a cultura. Se quiser conhecer a filosofia sem divorciá-la de seu tempo, leia a “História da Filosofia”, organizada por François Châtelet nos anos 70 (Zahar, esgotado).

7. Uma novidade: está sendo preparada a edição em CD-ROM da importante “Dialética para Principiantes” (Editora Unisinos, 247 págs., R$ 25), de Carlos Roberto Cirne Lima. Vi a versão beta dessa obra, que se chamará “Dialética para Todos”, e, para não exagerar, é uma maravilha, toda ilustrada pela artista plástica Maria Tomaselli. Vale conferir.

8. Tentemos agora alguns filósofos de mais difícil leitura. Se você se apaixonar pelas “Meditações Metafísicas” (Martins Fontes, 155 págs., R$ 22,50), de René Descartes (1596-1650), estará provada a sua disposição para ler filosofia. Não é fácil, mas é impressionante. Nesse caso, aventure-se também por “Poética”, de Aristóteles (384-322 a.C.)_procure o livro do autor na coleção “Os Pensadores”, por “Temor e Tremor” (Ediouro, 130 págs., R$ 11,90), de Soren Kierkegaard (1813-1855), e por alguns livros de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). À medida que se interessar mais, precisará usar as introduções específicas ou gerais de que falei anteriormente.

9. E a internet? Ela ajuda a encontrar os clássicos da filosofia que já são de domínio público, mas não os textos de filósofos do século 20 ou de comentadores. Infelizmente, como as traduções confiáveis em português são, na maioria, recentes, é raro achar boas edições em nossa língua na rede. Serve para o texto no original ou traduções em inglês e em espanhol.

10. Sendo meu assunto a filosofia política, gostaria de recomendar o que ela teve de melhor no século 20. O italiano Norberto Bobbio tem vários bons livros, entre os quais “Direita e Esquerda” (Unesp, 190 págs., R$ 22) e “O Futuro da Democracia” (Paz e Terra, 208 págs., R$ 26,50). De Hannah Arendt, “A Condição Humana” (Forense Universitária, 352 págs., R$ 46,80) e “As Origens do Totalitarismo” (Companhia das Letras, 568 págs., R$ 52). Isaiah Berlin escreveu “Quatro Ensaios sobre a Liberdade” (UnB, esgotado). Não perca também “A Invenção Democrática”, de Claude Lefort (Brasiliense, esgotado) e “O Desentendimento”, de Jacques Rancière (Editora 34, 144 págs., R$ 23).

11. Para terminar, há a aplicação da filosofia ao conhecimento de nossa cultura. Os filósofos atuais não falam só de filosofia, eles discutem nossa sociedade. Adauto Novaes, nos últimos 20 anos, organizou uma dúzia de livros, sempre incluindo um terço ou metade de professores de filosofia debatendo nossa experiência cultural. Destaco “Os Sentidos da Paixão” (Companhia das Letras, 528 págs., R$ 52) e “A Crise da Razão” (Companhia das Letras, 568 págs., R$ 50).

Alguns colegas procuram usar a filosofia para pensar o Brasil: Ernildo Stein, com “Órfãos de Utopia – A Melancolia da Esquerda” (Editora UFRGS, 108 págs., R$ 12), Marilena Chaui, com “Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária” (Fundação Perseu Abramo, 104 págs., R$ 20), Gerd Bornheim, com “O Conceito de Descobrimento”, Editora Uerj, 86 págs., R$ 10), e Luis Sérgio Coelho de Sampaio, com “Filosofia da Cultura Brasil: Luxo ou Originalidade” (Ágora da Ilha, 378 págs., R$ 30). Essa pode ser também uma porta de entrada – ou de saída.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na USP e autor de “A Sociedade contra o Social” (Companhia das Letras), entre outros títulos. Ter lido Nietzsche aos 17 anos mudou sua vida talvez menos do que achou na época, mas mudou.

FONTE: http://www.renatojanine.pro.br/Humanidades/paraler.html
Este artigo foi extraído do jornal Folha de S. Paulo, caderno Sinapse, de 26 de agosto de 2003, páginas 26 a 27.

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