Bertrand Russell e a perspectiva liberal

Talvez a essência da perspectiva liberal pudesse ser resumida em um novo decálogo, não destinado a substituir o antigo decálogo, mas somente a suplementá-lo. Os dez mandamentos que, como professor, eu gostaria de promulgar, deveriam ser definidos assim:

1. Não sinta absolutamente certeza de nada.

2. Não pense que valha a pena proceder escondendo a evidência, pois a evidência certamente virá à luz.

3. Não tente desencorajar pensando que você tem certeza de que terá êxito.

4. Quando enfrentar oposição, mesmo que seja de seu esposo ou filhos, tente vencer pelo argumento e não pela autoridade, pois uma vitória que depende da autoridade é irreal e ilusória.

5. Não tenha respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a ser encontradas.

6. Não use o poder para suprimir as opiniões que você julga perniciosas, pois, se o fizer, as opiniões irão lhe suprimir.

7. Não tema ser excêntrico em opinião, pois cada opinião hoje aceita foi uma vez excêntrica.

8. Sinta mais prazer na dissensão inteligente do que na concordância passiva, pois, se você valorizar a inteligência como você deveria, a primeira implica em uma concordância mais profunda do que a última.

9. Seja escrupulosamente confiável, mesmo se a verdade for inconveniente, pois é mais inconveniente quando você tenta escondê-la.

10. Não sinta inveja da felicidade daqueles que vivem em um paraíso de loucos, pois somente um louco pensará que isso é felicidade.

(RUSSELL, Bertrand. The Best Answer to Fanaticism – Liberalism; Its calm search for truth, viewed as dangerous in many places, remains the hope of humanity. New York Times Magazine, 16/12/1951).

Bertrand Russell foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX. Político liberal, ativista e um popularizador da filosofia, Russell recebeu o Nobel de Literatura de 1950, “em reconhecimento dos seus variados e significativos escritos, nos quais ele lutou por ideais humanitários e pela liberdade do pensamento”. Até à sua morte, a sua voz deteve sempre autoridade moral, uma vez que ele foi um crítico influente das armas nucleares e da guerra americana no Vietnã. Era inquieto.

(Texto publicado no blog Desafiando a Nomenklatura Científica).

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