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Evidências de uma consciência além do cérebro

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Neurociência é o estudo científico do sistema nervoso, um dos sistemas mais complexos do corpo humano. Tradicionalmente, a neurociência tem sido vista como um ramo da Biologia.[1] O termo “neurobiologia” geralmente é usado de modo alternado com o termo neurociência, embora o primeiro se refira especificamente à biologia do sistema nervoso, enquanto o último se refere à inteira ciência do sistema nervoso. Nos últimos anos, a Neurociência tem assumido sua posição materialista, há muito já implícita. O materialismo científico tem decretado a morte da mente [2]. Aos poucos foi sendo substituído o conceito de “mente” pelo de “cérebro”. Os materialistas acreditam que a mente não existe como uma entidade separada; é meramente um estado do cérebro, causada tão-somente por neurônios e neuroquímica.

É de se esperar que as explicações científicas acerca das maravilhas da mente humana e do cérebro encontrem respostas na teoria da evolução de Charles Darwin por meio dos mecanismos de seleção natural. Porém, não é bem o caso. Para Darwin, a mente foi um enorme problema por resolver. A única coisa que ele disse sobre isso invalida todas as suas hipóteses sobre a teoria evolutiva, que foi o produto (convicção) de sua mente. Em 1881, após refletir sobre o assunto, ele escreveu a William Graham: “Comigo a terrível dúvida sempre surge se as convicções da mente humana, as quais foram desenvolvidas a partir da mente de animais inferiores, são de algum valor ou de todo confiáveis. Qualquer um confiaria nas convicções da mente de um macaco, se houvesse alguma convicção em tal mente?” [3]

Ainda assim, recentemente o biólogo neodarwinista Richard Dawkins afirmou: “É tremendamente difícil definir o que é consciência. Não existe consenso sobre isso. Mas, obviamente, a consciência evoluiu como uma propriedade emergente dos cérebros. Nós, seres humanos, temos consciência. Portanto, é certo que, em algum momento, nossos ancestrais obrigatoriamente desenvolveram consciência.”[4: p. 16]

O filósofo da mente John Searle já havia feito a seguinte alegação: “Sabemos que a consciência […] é causada por processos neurobiológicos bem específicos. Nós não sabemos os detalhes de como o cérebro faz isso, mas sabemos, por exemplo, que se você interferir com os processos de determinadas maneiras – anestesia geral, ou um golpe na cabeça, por exemplo – o paciente fica inconsciente.”[5] Por sua vez, o neuropsicólogo Barry Beyerstein disse em uma entrevista que, “assim como os rins produzem urina, o cérebro produz a consciência”.[6]

No entanto, novas evidências têm contestado esse conceito clássico. Um novo campo de pesquisa tem surgido: a neurociência não materialista. Pesquisadores que a defendem dizem que “a mente existe e usa o cérebro, mas não é a mesma coisa que o cérebro”.[7: p. 358] Esse campo de pesquisa tem contribuído para a compreensão de uma mente imaterial e separada do corpo, mas que ao mesmo tempo é capaz de controlá-lo por meio da dinâmica eletroquímica do cérebro, e usar as informações coletadas pelos sistemas sensoriais disponíveis.

Mas em que os neurocientistas não materialistas se baseiam para fazer suas afirmações? Os argumentos seguem duas linhas de evidência. A primeira vem do fato de que certas manifestações de estados mentais (não físicos) podem influenciar os estados do cérebro; e a segunda está relacionada à ausência de uma explicação materialista contemporânea satisfatória para a chamada experiência consciente.

Beauregard e O’leary, proponentes do design inteligente, afirmam que estados e conteúdos mentais comprovadamente afetam estados cerebrais.[7] De fato, em 2006, outro estudo já havia verificado que experiências subjetivas mudam a química do cérebro.[8] Os autores desse estudo demonstraram que nossa experiência subjetiva de interagir com o rosto de outras pessoas afeta uma região do córtex relacionada à percepção facial no cérebro do receptor.

Isso quer dizer que as mentes não poderiam estar totalmente instanciadas (criadas) no cérebro, nem nas relações deste com o ambiente e nem em nenhum lugar de nosso mundo físico. Mas o que vem a ser a mente? O que é a consciência? Seria a “alma” de um ser humano? Seria o fôlego de vida? Ou a sua fonte vital? Para os autores, as chamadas experiências religiosas, espirituais e místicas (EREM) podem realmente acontecer.

Em 2006, impulsionados por sua curiosidade sobre o que está acontecendo com o cérebro durante as EREM, Beauregard e Paquette estudaram as experiências espirituais de freiras carmelitas.[9] Para tanto, eles se utilizaram de estudo de imagem por ressonância magnética funcional (fMRI) com o objetivo de identificar os correlatos neurais durante as EREM. Os pesquisadores descobriram uma coleção de áreas do cérebro que estavam mais ativadas durante as experiências, chegando à conclusão de que é mais provável que as freiras estivessem enfrentando diretamente realidades fora de si mesmas (além do cérebro material).

Mas, além dessas, existem outras evidências de que a consciência e o Self (autoconsciência) não são meramente um processo físico do cérebro? Um estudo realizado pelo neurocirurgião Wilder Penfield estimulou eletricamente o cérebro de pacientes com epilepsia e descobriu que podia levá-los a mover o braço ou a perna, virar a cabeça ou os olhos, falar ou engolir. Invariavelmente, o paciente iria responder, dizendo: “Eu não fiz isso. Você fez.”[10, 11] O Dr. Penfield acrescenta: “O paciente pensa em si mesmo como tendo uma existência separada de seu corpo”, e “não importa o quanto [se estimule] o córtex cerebral, […] não há nenhum lugar […] onde a estimulação elétrica fará com que um paciente acredite ou decida [algo].”[10, 11] Isso porque essas funções são originárias do Self, não do cérebro.

Roger Sperry e colaboradores estudaram a diferença entre os hemisférios cerebrais esquerdo e direito e descobriram também que a mente tem um poder causal independente das atividades do cérebro, o que os levou a concluir que o materialismo era falso.[10, 12] Outro estudo mostrou um atraso entre o tempo de um choque elétrico aplicado na pele, sua chegada ao córtex cerebral e a percepção de autoconsciência da pessoa.[10, 13] Isso sugere que a experiência subjetiva é mais do que apenas uma máquina que reage aos estímulos recebidos pelo cérebro. O autor do estudo, Laurence Wood, disse que por essas e outras razões é que “muitos cientistas do cérebro têm sido obrigados a postular a existência de uma mente imaterial, mesmo que eles não tenham uma crença em vida pós-morte”.

A neurociência tem contribuído significativamente com geração de dados neurofuncionais relativos às EREM. Andrew Newberg é considerado o pai de um novo ramo da neurociência que estuda os efeitos da espiritualidade no cérebro: a neuroteologia. Em 2009, ele publicou os resultados de uma pesquisa realizada ao longo de 15 anos. Foi analisada, por meio de tomografia cerebral – tomógrafo por SPECT -, a atividade do cérebro de religiosos de diversas crenças e ateus durante uma EREM (oração e meditação).[14] Foram observados diferentes padrões de atividades neuronais entre crentes em um ser inteligente (chamando-o de Deus) e não crentes. Para Newberg, “Deus pode modificar seu cérebro, não importa se você é cristão ou judeu, mulçumano ou hinduísta, agnóstico ou ateu”; ademais, o cérebro é programado para acreditar em Deus, fato considerado fundamental para a sobrevivência da espécie humana.

Outra linha de pesquisa está associada à investigação dos fenômenos mediúnicos em que, supostamente, a consciência e a volição do médium estão atenuadas ou mesmo dissociadas. Em 2012, um estudo analisou o fluxo sanguíneo cerebral (CBF) de dez médiuns brasileiros durante a prática de psicografia.[15] O método utilizado foi o de neuroimageamento por meio da tomografia por emissão de fóton único. Os resultados mostraram uma diminuição na atividade nas redes atencionais durante a EREM, o que levou os cientistas a considerar mente e cérebro como coisas diferentes ao dizer que devemos “melhorar a nossa compreensão da mente e sua relação com o cérebro”.[15: p. 7]

Além disso, existe uma linha de pesquisa na Neurociência não materialista relacionada às experiências de quase morte (EQM). Em 2013, um estudo norte-americano afirmou que EQM são tipos de EREM vívidas, realísticas, que frequentemente promovem mudanças profundas na vida de pessoas que estiveram fisiológica ou psicologicamente próximas da morte.[16] As EQM por vezes ocorrem durante uma parada cardíaca, na ausência de atividade cerebral detectável. Os autores da pesquisa revisaram estudos prospectivos e descobriram uma incidência média de 10% a 20% de EQM induzidas por paradas cardíacas.

Para os cientistas, pessoas que passaram por EQM são mais propensas a mudanças de vida positivas que podem durar muitos anos após a experiência do que aquelas que não a tiveram.[16] Eles concluem que as teorias materialistas da mente não são capazes de explicar como pessoas que tiveram EQM podem vivenciar − enquanto seu coração está parado e sua atividade cerebral aparentemente ausente – pensamentos vívidos e complexos e adquirir informações verídicas a respeito de objetos ou eventos distantes de seus corpos. Segundo essa linha de pesquisa, as EQM em paradas cardíacas sugerem que a mente não é gerada pelo cérebro e não está confinada a ele ou ao corpo.

Por outro lado, a Neurociência não materialista pode fornecer outra explicação para essas EQM, tais como ser resultado da diminuição do fluxo sanguíneo no cérebro, o que provocaria alterações momentâneas na mente. Conforme o neurocientista norte-americano Kevin Nelson afirmou em uma entrevista: “Em casos de quase morte, os estados de consciência podem se misturar, provocando reações como paralisia e alucinações.”[17]

Ao mesmo passo em que o Dr. Nelson provê uma alternativa científica para as EQM, o neurocientista não descarta o papel da fé e da espiritualidade.[18] Ele acrescenta que, “mesmo se soubéssemos o que faz cada molécula cerebral durante uma experiência de quase morte, ou qualquer outra experiência, o mistério da espiritualidade continuaria”.[17] Nelson revela como nosso cérebro cria essas visões e diz que, apesar de tudo, ainda espera que exista vida após a morte.

A física quântica é outra das linhas de pesquisa da Neurociência não física, a qual nos diz que a realidade não é fixa – partículas subatômicas só passam a existir quando elas são observadas. Assim, em 2013, um estudo norte-americano analisou a consciência por meio de vários tipos de sistemas ópticos de dupla fenda.[19] A mecânica quântica, linha tomada como base para o estudo, sugere que exista uma consciência, e que ela pode desempenhar um papel fundamental na forma como o mundo físico se manifesta. Isso não significa que a consciência humana, literalmente, “criaria” a realidade, mas ela sugere que há mais consciência do que está implícito hoje nos livros didáticos.

Para os autores, o ato de observar um objeto cotidiano influenciaria as suas propriedades. Devido ao fato de o objeto quântico ser extremamente reativo ao ato de observação, essa sensibilidade será constatada sempre que um objeto quântico for medido, afirmam os autores.[19] O ato de medir a sensibilidade de um objeto faz com que o comportamento das ondas quânticas mude o comportamento das partículas. Os autores salientam que foram realizados três experimentos: dois em que as pessoas tentaram influenciar objetos mentalmente em seu laboratório, e um envolvendo um teste semelhante realizado online. Todos os três experimentos mostraram resultados positivos consistentes com a proposta de von Neumann (pai da Física Quântica) e com pesquisas anteriores.

Em 2014, um estudo realizado por um neurocientista pró-design inteligente explicou que o materialismo científico ainda é influente em certas esferas acadêmicas.[2] O autor examinou várias linhas de evidência empírica mostrando que o materialismo é incompleto e obsoleto. As evidências levantadas indicam que os humanos não podem ser reduzidos a impotentes máquinas biofísicas, uma vez que a psique influencia fortemente a atividade do cérebro e do corpo, e pode operar telossomaticamente. Com base nessas evidências, o autor elaborou e propôs a Teoria da Psychelementarity (ainda sem tradução).

Essa teoria sugere que a psique desempenha um papel primordial na forma como o Universo funciona, o equivalente a matéria, energia e espaço-tempo.[2] Além disso, afirma que a psique não pode ser reduzida a processos físicos ou a uma posição reducionista. A teoria abrange uma série de fenômenos psicofísicos supostamente bem estudados, que são reinterpretados à luz de uma perspectiva pós-materialista. Também inclui fenômenos anômalos que são rejeitados pelos materialistas.

Foi confrontando essa constante rejeição que, em 2014, oito cientistas internacionais de diversas áreas, incluindo o cientista psiquiátrico brasileiro Alexander MoreiraAlmeida, publicaram o “Manifesto pela ciência pós-materialista”, aberto para assinaturas.[20] Trata-se de um convite direto para que a ciência não se deixe emperrar pelo dogmatismo que se formou em torno do paradigma convencionalmente chamado de “materialismo científico”. O manifesto reconhece os tremendos avanços da ciência materialista, mas admite que a dominância dessa filosofia nos meios acadêmicos e universitários chegou a ponto de ser prejudicial, em especial ao estudo da consciência e da espiritualidade.

De fato, é incrível o poder que o materialismo científico tem nas academias e o seu discurso reduzido à matéria. Mas se realmente apenas a matéria existisse, então seríamos capazes de pegar toda a matéria do corpo humano e, a partir dela, criar vida. Como Geisler e Turek afirmam: “Certamente existe na vida alguma coisa além do material. Que materialista pode explicar por que um corpo está vivo e o outro está morto? Ambos contêm os mesmos elementos químicos. Por que um corpo está vivo num minuto e morre no minuto seguinte? Que combinação de materiais pode ser responsável pela consciência?”[21: p. 96]

Como o filósofo Geoffrey Madell disse: “O surgimento da consciência, então, é um mistério ao qual o materialismo falha em fornecer uma resposta.”[22: p. 141] Assim, as evidências indicam que a mente é o agente mais eficaz de mudança para o cérebro. É certo que existem várias linhas de pesquisa, e estudos produzidos a partir delas, acerca da ciência do cérebro imaterial na literatura disponível. Entretanto, neste artigo, procuramos apresentar apenas algumas dessas linhas.

Todavia, vale ressaltar que, embora a neurociência não materialista ainda não consiga responder a todas as perguntas relacionadas ao efeito placebo ou aos problemas psicológicos incapacitantes graves, tais como as fobias e o transtorno obsessivo-compulsivo, ela libera o cientista para estudar a questão, abrindo portas para novas investigações sobre como a mente funciona e para o futuro da pesquisa em Neurociência.

(Everton Fernando Alves é enfermeiro e mestre em Ciências da Saúde pela UEM; seu e-book pode ser lido aqui)

Referências:

[1] Hoppen NHF. As neurociências no Brasil de 2006 a 2013, indexada na Web of Science: produção científica, colaboração e impacto. Dissertação (Comunicação e Informação). Porto Alegre: UFRGS, 2014.

[2] Beauregard M. “The Primordial Psyche.” Journal of Consciousness Studies 2014; 21(7–8):132-57.

[3] Charles Darwin to William Graham, Darwin Correspondence Project, Letter No. 13230, dated July 3rd, 1881. Disponível em: http://www.darwinproject.ac.uk/entry-13230

[4] Entrevista concedida por Richard Dawkins. “Maravilhe-se com o universo” [27 Mai. 2015]. Entrevistador: André Petry. Revista Veja, edição 2.427, ano 48, n 21, 2015.

[5] Réplica de John Searle ao artigo de David J. Chalmers: “‘Consciousness and the Philosophers’: An Exchange” [Mai. 1997]. The New York Review of Books, 1997. Disponível em: http://www.nybooks.com/articles/archives/1997/may/15/consciousness-and-the-philosophers-an-exchange/

[6] Entrevista concedida por Barry Beyerstein. “Do Brains make minds?” Série: Closer to Truth. Entrevistador e escritor do programa: Dr. Robert Lawrence Kuhn. Produzido pela Fundação Kuhn e Getzels Gordon Productions, 2000. Disponível em:

http://www.closertotruth.com/roundtables/do-brains-make-minds

[7] Beauregard M, O’Leary D. The Spiritual Brain: A Neuroscientist’s Case for the Existence of the Soul. New York: HarperCollins, 2007.

[8] Kanwisher N, Yovel G. “The fusiform face area: a cortical region specialized for the perception of faces.” Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci. 2006; 361(1476): 2.109-2.128.

[9] Beauregard M, Paquette V. “Neural correlates of a mystical experience in Carmelite nuns.” Neurosci Lett. 2006; 405(3):186-90.

[10] Strobel L. The Case for a Creator: A Journalist Investigates Scientific Evidence That Points Toward God. Grand Rapids, Michigan: Zondervan, 2009. Disponível em: http://verticallivingministries.com/2012/10/05/do-we-have-souls-lee-strobel-interviews-dr-j-p-moreland/

[11] Penfield W. Mystery of the Mind: A Critical Study of Consciousness and the Human Brain. New Jersey: Princeton University Press, 2015.

[12] Sperry R. “Changed Concepts of Brain and Consciousness: Some Value Implications.” Journal of Religion & Science 1985; 20(1):41-57.

[13] Wood LW. “Recent Brain Research and the Mind-Body Dilemma.” The Asbury Theological Journal 1986; 41(1):37-78.

[14] Newberg A, Waldman MR. Como Deus Pode Mudar Sua Mente: Um Diálogo entre Fé e Neurociência. Tradutor: Júlio de Andrade Filho. Rio de Janeiro: Editora Prumo, 2009.

[15] Peres JF, Moreira-Almeida A, Caixeta L, Leao F, Newberg A. “Neuroimaging during Trance State: A Contribution to the Study of Dissociation.” PLoS One. 2012; 7(11): e49360.

[16] Trent-Von Haesler N, Beauregard M. “Near-death experiences in cardiac arrest: implications for the concept of non-local mind.” Arch. Clin. Psychiatry 2013; 40(5):197-202.

[17] Entrevista concedida por Kevin Nelson. “A neurociência da espiritualidade” [Jan. 2011]. Entrevistadora: Natalia Cuminale. Seção: Corpo e Mente. VEJA.com – Ciência, 2011. Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/a-ciencia-da-espiritualidade

[18] Nelson K. The Spiritual Doorway in the Brain – a Neurologist’s Search for the God Experience. New York, NY: Dutton, 2011.

[19] Radin D, Michel L, Johnston J, Delorme A. “Psychophysical interactions with a double-slit interference pattern.” Physics Essays 2013; 26(4): 553-66.

[20] Beauregard MSchwartz GEMiller LDossey LMoreira-Almeida ASchlitz MSheldrake RTart C. “Manifesto for a Post-Materialist Science.” Explore (NY), 2014; 10(5):272-4.

[21] Geisler NL, Turek F. Não tenho fé suficiente para ser ateu. São Paulo: Editora Vida, 2006.

[22] Madell GC. Mind and Materialism. Edinburgh: Edinburgh University Press, 1988.

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Sobre a Pré-História: Duas visões.

Sabemos muito pouco sobre ela, mas o suficiente para separar ficção de ciência.

Fonte: Professor Rúben Aguilar, doutor em Arqueologia pela USP.

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Contar a história que antecedeu a História, sempre foi uma tarefa mais fácil para cineastas e ilustradores, do que para cientistas, historiadores e teólogos. A falta de informações sobre esse período, força qualquer pesquisador ou curioso pelo assunto a recorrer, em algum momento, à especulação.

Na ficção, o tema já rendeu bons sucessos na indústria cultural, como o filme a Era do Gelo, já na quarta produção; o desenho Os Flintstones, lançado na infância dos nossos pais e que ganhou versão para o cinema em 1994; e a série de TV Família Dinossauro, exibida nos anos 90 em três emissoras brasileiras.

Faltam muitas peças

Mas quando se trata de investigar as evidências que ajudariam a reconstituir essa época ainda obscura da trajetória humana, sobram perguntas sem respostas. Do lado evolucionista, há um consenso dogmático, mais baseado em um paradigma filosófico construído nos dois últimos séculos do que em peças que se encaixam no grande quebra-cabeça fóssil.

Para esse grupo, o homem tem origem comum com os símios e evoluiu ao longo de centenas de milhares de anos – tempo em que aprendeu a andar sobre dois pés, a se abrigar em cavernas, manipular acidentalmente o fogo, registrar seus hábitos e crenças nas paredes das grutas, e finalmente desenvolver ferramentas de pedra, bronze e ferro.

Do lado dos criacionistas, as pistas também não são muitas, pelo menos no campo da ciência. Mas, por considerarem a Bíblia um documento confiável e histórico – e não um mito, como os céticos – os cristãos levam vantagem na busca por resgatar esse tempo perdido. Como afirma o professor de Pré-História da Universidade Estadual da Paraíba, Matusalém Alves Oliveira, “o historiador não pode desprezar nenhuma fonte”. Ainda que ela seja religiosa e contrária às suas hipóteses.

É do fundo dessa caverna quase inexplorada que esta matéria pretende achar alguns vestígios dos primeiros passos do homem na História, ou melhor, na Pré-História. Quem nos ajudará nesta viagem no tempo são cientistas e teólogos criacionistas. Optamos pela interpretação deles como uma alternativa à teoria evolucionista, já bem divulgada e que até aqui moldou nossa imaginação.

No início, as definições

O conceito de pré-história foi elaborado no século 19, em um contexto de imperialismo europeu, que buscava justificativas para a dominação de povos mais “atrasados”. Nascia ali a definição de História associada ao início da escrita. Logo, tudo o que antecede o registro dos documentos mais antigos – em cuneiforme mesopotâmico e hieroglífico egípcio, datados de 3.200 a.C) – é classificado como pré-história.

A escrita, sem dúvida, é uma fonte de informação mais rica do que um artefato sem sinais gráficos, mas, na ausência de documentos, o caminho é recorrer à cultura material (cerâmicas, pinturas e artefatos), campo da Arqueologia, e aos fósseis humanos, passatempo dos paleantropólogos.

Para facilitar o estudo desse período que, segundo os evolucionistas, começou há mais de 1 milhão de anos, Christian J. Thomsen, em 1816, criou os termos Idade da Pedra (1 milhão a 3.200 a.C), do Bronze (3.200 a 1.200 a.C) e do Ferro (1.200 a.C até hoje). Seu insight aconteceu quando organizava os artefatos do Museu Nacional da Dinamarca e percebeu que esses três materiais predominavam nas ferramentas das civilizações mais antigas.

O problema das datas

Para os evolucionistas, o desenvolvimento tecnológico desses artefatos representaria a evolução cognitiva do homem. Teríamos avançado da pedra para o ferro, do simples para o complexo. Já os criacionistas entendem que essas ferramentas representam apenas o desenvolvimento cultural do homem, e não, o biológico. Isso explicaria por que, há poucas décadas, foram ainda encontradas comunidades isoladas que apresentaram hábitos e organização social dignos da Idade da Pedra. Para os criacionistas, o período da pedra, do bronze e do ferro não foram necessariamente sucessivos e longos, mas contemporâneos.

Os que questionam a cronologia evolucionista se mostram mais cautelosos quanto aos métodos de datação. “Para datar a idade relativa de um vestígio de osso orgânico, não fossilizado, é usado o C14, mineral radioativo que tem uma vida média de desintegração que chega a 5.750 anos. Portanto, uma idade maior do que essa, está sujeita a toda dúvida”, pondera o professor Rúben Aguilar, doutor em Arqueologia pela USP.

Fósseis

Se a Arqueologia tem suas limitações para reconstituir a Pré-História, com o estudo dos fósseis humanos não é diferente. Entre os paleoantropólogos a evolução é unanimidade, mas as divergências são quanto às linhagens macaco-humanas. Quem afirma isso no artigo “A busca dos ancestrais de Adão”, na revista Diálogo Universitário,1 é a Dra. Elaine Kennedy, Ph.D em Geologia pela Universidade do Sul da Califórnia (EUA).

A Dra. Kennedey aponta lacunas da teoria evolucionista nessas três áreas: paleoantropologia, filogenética e antropologia molecular. Na paleoantropologia, há dificuldades quanto à classificação dos fósseis em uma linhagem ascendente que chegue até o homem moderno. O homo habilis, por exemplo, foi identificado como homo em função apenas dos artefatos que foram encontrados próximos a ele, e não por andar ereto, como é o padrão de classificação desse grupo.

A dificuldade de organização dos cladogramas, diagramas em forma de árvore ramificada que procuraram mostrar as relações de parentescos dos seres vivos, também é enfrentada pelos filogeneticistas. Segundo a Dra. Kennedy, há pelo menos sete cladogramas, e os evolucionistas costumam optar por aquele que mais favorece a evolução.

No campo da antropologia molecular, que estuda as semelhanças de proteínas e DNA dos hominídeos, a tese questionada é de que o tempo teria cuidado da diferenciação entre os símios e o homem (cerca de 5 a 7 milhões de anos). Os evolucionistas não sabem dizer quando as espécies afins teriam se separado geneticamente. O start de um possível “relógio molecular”, que funcionaria num ritmo constante de mudança do DNA, é a suposição deles.

A Dra. Kennedy conclui que boa parte dos métodos utilizados e das interpretações feitas são condicionados pelo ponto de partida evolucionista e que esse mosaico de características dos fósseis torna difícil a classificação deles pelo conhecimento disponível hoje.

Outro olhar

Os criacionistas olham de maneira distinta esses mesmos fósseis. Entendem que parte deles se trata de símios extintos e, os demais, de seres humanos com deformidades e de raças que conviveram e tiveram sua diferenciação determidada pelo isolamento geográfico, adaptação ao clima e cruzamento genético.

“Os erectinos parecem ter sido humanos. Talvez sofreram os graves efeitos da reprodução no seio da família e de um estilo de vida prejudicial. Os australopitecos podem ter sido um tipo extinto de macaco. Eles não parecem ter relação com as espécies atuais”, explica o paleontólogo Dr. Raul Esperante, pesquisador do Geosciente Research Institute (GRI), instituição da Igreja Adventista, com sede na Califórnia (EUA).

Quanto aos australopithecus, mais conhecidos como a Criança de Taung e Lucy, segundo o Dr. Esperante, foram símios extintos. “Eles eram muito semelhantes aos seres humanos, mas tinham um cérebro do tamanho de um chimpanzé e algumas características que sugerem que viveram em árvores”, completa o Dr. Esperante.

Já em relação aos neanderthais, ele afirma: “Provavelmente, eles viveram em cavernas. A forma de seu crânio é diferente da atual, e a capacidade cerebral é maior que a do homem moderno. Eles formaram uma cultura, eram altamente inteligentes e possuíam alguns traços típicos decorrentes, talvez, das adaptações ao clima e à mastigação de alimentos difíceis. Ao que parece, foram mais fortes do que nós.”

O que é um homem?

Essa interpretação criacionista tem como base a definição do que é o homem e a dificuldade de encaixá-la nas linhagens evolutivas. “Uma abordagem prática é colocar um fóssil dentro da categoria homo quando a massa e a proporção corporais, as dimensões dos dentes e as adaptações do esqueleto mostram maior semelhança com os humanos modernos do que com os fósseis australopitecinos”, esclarece o Dr. Ronny Nalin, pesquisador do GRI e Ph.D em Ciências da Terra pela Universidade de Pádua, na Itália.

Partindo desse referencial, o Dr. Nalin diferencia dois supostos ancestrais do homem. Para ele, o homo habilis está mais para australopitecinos do que homo, porque apesar de andar sobre dois pés, tem braços semelhantes aos de macaco, enquanto a estrutura física do Neanderthal se parece com a dos esquimós. Por isso, alguns pesquisadores brincam que, se um Neanderthal barbeado, de terno e usando um iPhone entrasse no metrô de Nova York, passaria despercebido.

Homem das cavernas

Ao que tudo indica, o Neanderthal foi o homem das cavernas. Para os criacionistas, ele foi humano e habitou nas grutas da Europa e Ásia oriental. O Dr. Nalin cita, por exemplo, um estudo publicado na prestigiada revista Science, em 2010, que mostra que algumas populações de hoje carregam em seus segmentos genômicos de DNA vestígios dos neanderthais.2 “Se dois organismos podem cruzar e produzir descendentes férteis, eles pertencem à mesma espécie. Portanto, o Neanderthal pode ser considerado humano”, confirma o pesquisador.

Os criacionistas ressaltam que escolher as cavernas como casa e ter hábitos da Idade da Pedra não são exclusividades dos habitantes da Pré-História. “Os homens das cavernas são homens que viveram ou talvez ainda vivam em cavernas, já que essa condição de vida faz parte da história humana até períodos recentes”, justifica o Dr. Rubén Aguilar, fazendo referência a algumas comunidades descobertas nas últimas décadas no interior da África e nas ilhas do Sul do Pacífico.

Modo de vida

Se a identidade dos homens das cavernas está mais ou menos definida, faltam informações sobre o modo de vida desses grupos. O professor Matusalém Alves Oliveira, coordenador do Núcleo de Estudos Pré-históricos da UEPB, tem se dedicado a estudar e ensinar o tema, ainda pouco explorado pela literatura criacionista. Em seu livreto A Pré-História na Perspectiva Criacionista, ele faz referência aos livros do naturalista Harry Baerg, autor do clássico criacionista O Mundo já Foi Melhor.

Para Matusalém, os homens das cavernas foram os marginalizados da Pré-História, pessoas que por doença ou inadequação social foram expulsas das sociedades estabelecidas, tendo assim que viver em lugares isolados. As cavernas, segundo o professor, têm as condições climáticas ideais para preservar o que esse grupos registraram.

O que esses desenhos mostram, via de regra, são os hábitos de caça e pesca como atividades de sobrevivência e ritos religiosos. “Nos lugares mais particulares das cavernas eram oferecidos sacrifícios aos deuses, suplicando a eles por sucesso nas caçadas ou a manutenção da fertilidade”, descreve o professor, que tem alguns artigos publicados sobre a arte rupestre da Paraíba.

“Alguns grupos mais estabilizados e com nível cultural mais elevado construíram habitações mais permanentes, cultivaram a terra e domesticaram animais. Em certos lugares da Europa, houve uma religiosidade mais elaborada, como mostram os megalíticos de Stonehenge”, exemplifica o professor. Matusalém também cita textos bíblicos que dão pistas sobre a organização social desse período. Segundo ele, há referências sobre grupos isolados que viviam em cavernas (Jó 30:3-8); e da criação de animais, cultivo da terra, desenvolvimento musical e urbano e uso da metalurgia em tempos bem remotos (Gn 4:16-24).

Perguntas sem resposta

No fim das contas, o que é certo sobre a Pré-História é que ainda faltam muitas peças do quebra-cabeça. Os criacionistas se perguntam: Onde estão os fósseis dos homens gigantes que habitaram a Terra ou dos que foram mortos no Dilúvio? Ou porque os fósseis aparecem nas camadas estratigráficas, organizados como se realmente tivessem evoluído?

Os evolucionistas, por sua vez, também coçam a cabeça em busca de respostas. As transições-chave da linhagem evolutiva não foram demonstradas de forma inequívoca. O elo ainda está perdido? Ou por que o homo sapiens demoraria milhares de anos para dominar ferramentas rudimentares e passar a escrever?

Essa ignorância parcial sobre nosso passado tem seus benefícios, conforme argumentou Gary W. Burdick, Ph.D em Física pela Universidade do Texas, em seu capítulo do livro Mistérios da Criação.3 Burdick lembra que a humildade é fundamental no estudo das ciências e da Teologia.

“Não devemos nos surpreender se as tentativas de conciliar a ciência com a Teologia nos levarem a mais perguntas sem resposta. Isso não quer dizer que a ciência e a Teologia estejam em guerra ou que um lado deva ser o vencedor; e o outro, o derrotado. Ao contrário, isso nos dá mais uma indicação de que Deus e a realidade são maiores do que nossa compreensão”, argumenta, insistindo que a pesquisa em ambas as áreas deve continuar.

Mas, Burdick lembra que talvez algumas questões nunca serão respondidas pela ciência, nem pela teologia. Para essas perguntas, os cristãos parecem levar mais uma vantagem. A mensagem central do evangelho é a salvação e não as explicações sobre a realidade que nos cerca. Logo, ainda que o homem não mate suas curiosidades intelectuais, a solução para suas necessidades existenciais já existe e está disponível. Quem acredita no relato da Bíblia sobre a Pré-História, tem uma visão antecipada do quadro completo e não se desespera quando uma peça ou outra parece não se encaixar.

Referências

1 Kennedy, Elaine. “A Busca dos Ancestrais de Adão”, Diálogo Universitário 8(1), 12-15, 34.
2 R. E. Green et al., “A Draft Sequence of the Neandertal Genome”, Science 328 (2010): 710-722
3 Gibson, L. James e Rasi, Humberto M. (orgs.), Mistérios da Criação (CPB, 2013).

O elo continua perdido

Os desenhos sobre a suposta linhagem evolutiva do homem são mais obra de arte do que ciência. Elos importantes ainda não foram achados. Durante essas décadas de busca, a mídia elegeu alguns fósseis como celebridades da Pré-História. Veja alguns deles.

Neandertal

Achado em 1856, perto do Rio Dussel, no vale de Neander, na Alemanha. Tinha cabeça grande, era baixinho e robusto. Em 1956, os doutores William Straus e A. Cave disseram que a postura encurvada do fóssil era decorrente de uma doença deformativa: a osteoartrite.

Homem de Java

Em 1890, o professor Eugene Dubois encontrou dois dentes molares, um crânio pequeno e um fêmur na Ilha de Java, Indonésia. Estudos indicam que o fóssil era de um gibão gigante ou de um homem com doenças degenerativas.

Piltdown

Em 1911, na Inglaterra, foram encontrados vários fragmentos de ossos da face, petrificados, de formatos curiosos e com um grande canino. Em 1953, foi confirmada a fraude. O crânio era fossilizado, os demais ossos não, e o dente era de um símio moderno.

Boisai

Na Tanzânia, em 1959, foram achados 400 fragmentos de ossos, que formaram um crânio, chamado de zinjanthropus boisei. O problema: a camada geológica onde o fóssil foi escavado tem 1,75 milhão de anos, mais antiga que o aparecimento do homem na Terra; e, outro crânio mais moderno achado perto dali foi estimado em 1,8 milhão de anos.

Homem de Pequim

Em cavernas perto de Pequim, em 1929, foram descobertos desenhos rupestres, um crânio de tamanho pequeno, ossos avulsos e esqueletos de animais. Em 1938, foi relatado que haviam ali 38 indivíduos fossilizados. Um achado! Mas, esses ossos sumiram na Segunda Guerra Mundial.

Publicado originalmente em: http://conexao.educacaoadventista.org.br/secoes/capa/pre-historia

A Síntese Evolutiva Moderna (o fim do neodarwinismo)

charles-darwin-3Texto publicado por Enézio de Almeida Filho aqui. Enézio é autor do excelente blog Desafiando a Nomenklatura Científica.

Ainda em 2009 Eugene Koonin publicou uma análise magistral do impacto da genômica sobre o pensamento evolucionário. Isso se mostrou por demais substancial para um blog conciso, e o meu rascunho inicial foi abandonado. Felizmente, um resumo mais abreviado foi publicado, e isso resume os pontos salientes do artigo da pesquisa. Koonin destaca que o centenário do A Origem das Espécies em 1959 foi “marcado pela consolidação da síntese moderna”, mas os anos subsequentes testemunharam grandes mudanças que solaparam sua credibilidade. “O edifício da síntese moderna desmoronou, aparentemente, sem condições de reparo.” Está na hora de uma mudança paradigmática – mas os neodarwinistas estão imobilizados porque eles têm muita bagagem filosófica que os puxa para baixo.

Koonin usa a metáfora da “paisagem da biologia evolucionária”. Há três revoluções distintas que ocorreram ao longo dos últimos 50 anos: a revolução molecular, a revolução microbiológica e a revolução genômica.

“Este ano [2009] é o tempo perfeito para se fazer algumas perguntas cruciais: como a biologia evolucionária mudou nos 50 anos desde o endurecimento da síntese moderna? Ela ainda é um quadro conceitual viável para o pensamento evolucionário e pesquisa?”

A revolução molecular culminou, disse Koonin, na teoria neutra, o que significa dizer que a seleção purificadora é mais comum do que a seleção positiva. A revolução microbiológica trouxe o mundo dos procariotas ao domínio da biologia evolucionária, mas depois se tornou aparente que os conceitos do darwinismo e da síntese moderna “aplicam-se somente aos organismos multicelulares”. A revolução genômica revelou que o mundo vivo era “completamente diferente do quadro simples e bem ordenado imaginado por Darwin e os criadores da síntese moderna”. Em particular, agora esse quadro é interpretado como “um mundo extremamente onde a transferência lateral de gene (TLG) não é uma raridade, mas o modo regular de existência, e os elementos genéticos móveis que são os veículos da TLG são ubíquos”.

“A descoberta da presença difundida de TLG e a dinâmica total do universo genético destroi, não somente a árvore da vida como nós a conhecemos, mas também outra doutrina central da síntese moderna herdada de Darwin, isto é, o gradualismo. Em um mundo dominado pela TLG, duplicação de gene, perda de gene e tais eventos momentâneos como a endosimbiose, a ideia da evolução ser dirigida principalmente pelas mudanças hereditárias infinitesimais na tradição darwiniana se tornou insustentável.”

Koonin fala sério que todos os conceitos da síntese moderna estão precisando de uma revisão fundamental. “Além disso, com a morte do pan-adaptacionismo, do mesmo modo é a noção de progresso evolucionário que é, indubitavelmente, central ao pensamento evolucionista tradicional, mesmo se isso nem sempre seja feito explícito.”

O sumário de como está a situação nos 150 anos de A Origem das Espécies é algo chocante. Na era pós-genômica, todas as principais características da síntese moderna foram, se não completamente derrubadas, substituídas por uma visão nova e incomparavelmente mais complexa de aspectos-chaves da evolução. Assim, sem rodeios, “a síntese moderna já era.”

Koonin tentativamente identifica duas candidatas para preencher o vazio deixado pela descartada síntese moderna. A primeira das duas parece enfatizar o papel do acaso; a segunda parece enfatizar a lei [natural].

“A primeira é a teoria da evolução de população genética da arquitetura genômica, segundo a qual a evolução da complexidade é um efeito colateral de processos evolucionários não adaptativos ocorrendo em pequenas populações em que as limitações da seleção purificadora são fracas. A segunda área com um potencial de grande unificação pode ser o estudo de padrões universais de evolução tais como a distribuição das taxas evolucionárias de gene ortólogos, que é quase que a mesma em organismos de bactérias a mamíferos, ou a anticorrelação uniformemente universal entre a taxa de evolução e o nível de expressão de um gene. A existência desses universais sugere que uma teoria simples do tipo usada em física estatística pode explicar alguns aspectos cruciais da evolução.”

Não é difícil predizer que a análise de Koonin não será recebida calmamente pelos líderes vocais da biologia evolucionária. Eles ainda estão entrincheirados no neodarwinismo e não mostram sinais de conceder qualquer chão para qualquer um. Da perspectiva do design inteligente, a análise de Koonin de mudança do cenário da biologia evolutiva acertou o alvo. Suas duas candidatas para avançar o referencial teórico são interessantes – mas não reconhecem o design intencional na natureza. O conceito do filtro explanatório de design de Dembski é relevante aqui: há características no mundo biológico que são melhor entendidas em termos de processos estocásticos; há outras características que são melhor entendidas em termos de lei natural; mas há também características que exigem a perspectiva do design intencional a fim de se entendê-las. É o ultimo elemento, proeminente no pensamento dos cientistas orientados pelo design, que precisa fazer parte de qualquer discussão na qual a biologia evolucionária estiver indo.

(David Tyler, The Origin at 150: is a new evolutionary synthesis in sight? Eugene V. Koonin, Trends in Genetics, 25[11], November 2009, 473-475. PDF grátis aqui)

A nova teoria geral da evolução – a Síntese Evolutiva Ampliada (que não será selecionista pela montanha de evidências negativas, e deverá incorporar alguns aspectos lamarckianos) – somente será apresentada à comunidade científica e ao público em 2020. O que a Nomenklatura Científica fará para livrar a cara de Darwin da vergonha epistêmica? Fui, nem sei por que pensando em Sören Lovtrup, um biólogo evolucionista que disse o seguinte sobre a teoria da evolução:

“I believe that one day the Darwinian myth will be ranked the greatest deceit in the history of science.” [Eu creio que um dia o mito darwiniano será classificado como o maior de todos os enganos na história da ciência.] (Søren Løvtrup, Darwinism: The Refutation of a Myth [New York: Croom Helm, 1987], p. 422 – Tenho esse livro, mas não empresto para ninguém!)

Nota do blog Desafiando a Nomenklatura Científica: “Em 2006, eu [Enézio de Almeida Filho] apresentei uma palestra sobre se a teoria do Design Inteligente era Paley redivivus ou uma teoria cientificamente plausível. Dos poucos que me interpelaram, apenas meu bom amigo Charbel Niño El-Hani me disse: ‘Enézio, você embarcou numa canoa furada, e seria melhor pular fora o quanto antes.’ Respondi: ‘Charbel, a teoria do Design Inteligente não é uma canoa furada, e estou apostando tudo no Design Inteligente.’ Muito antes de Koonin, Stephen Jay Gould disse em 1980 que a Síntese Moderna (neodarwinismo) era uma teoria morta que posava como ortodoxia científica somente nos livros didáticos. Uma pergunta impertinente: Se a Nomenklatura científica já sabia desde 1980 que Darwin não fechava as contas num contexto de justificação teórica, o que significa ter ensinado o fato, Fato, FATO da evolução através de uma teoria da qual já se reconhecia a fragilidade para explicar a origem e evolução das coisas bióticas? Eu chamo isso carinhosamente de ‘171 epistêmico’. E a Nomenklatura científica e a Grande Mídia tupiniquins ainda têm a cara de pau de dizer há muito tempo que não existe nenhuma crise na teoria da evolução, e nenhum sinal de iminente e eminente mudança paradigmática em biologia evolutiva. Vem aí a nova teoria da evolução – a Síntese Evolutiva Ampliada, que não pode ser selecionista pelas razões expostas brilhantemente por Koonin.”

Da Concepção ao Nascimento – Alexander Tsiaras

http://www.ted.com Alexander Tsiaras é um Matemático especialista em tecnologia da visualização. Como professor da Universidade Yale ele trabalhou para a NASA e fez parte da equipe ganhadora do Prêmio Nobel pelo desenvolvimento do aparelho de Ressonância Magnética (MRI). Utilizando dados reais de scans do corpo humano, ele simula o desenvolvimento de um embrião humano da concepção ao nascimento.

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