Arquivo da categoria: 1ª Guerra Mundial

O Nacionalismo e a Grande Guerra

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Pode-se dizer que, do século XIV ao XVI, as nações européias se preocuparam em definir suas fronteiras, principalmente, mediante a guerra. Entretanto, no século XIX, com o fim das guerras napoleônicas, o turbulento período dá lugar a certa calmaria – com a única exceção da guerra franco-prussiana. É desse contexto o nascimento do nacionalismo – que pode ser definido como sentimento de pertença e identificação à cultura e aos inúmeros símbolos nela inseridos – que surge como desdobramento da consolidação política e geográfica das nações. Sendo que se trata mais de uma identificação sensível e afetiva do que de fidelidade territorial ou ao Estado. Na Comuna de Paris, por exemplo, o sentimento de pertencimento à França se sobrepõe à de Estado – entendido como um aparato de governo burguês. Por outro lado, o nacionalismo não deve ser confundido com patriotismo, que é o uso político e militar de um sentimento que é muito mais espontâneo. É certo que o sentimento de pertencimento à determinada “comunidade imaginada” amplia o sentido da existência individual.

Duas exceções devem ser frisadas, quando tratamos de nacionalismo. Tanto a Itália como a Alemanha só conseguiram se conseguiram se estabelecer como Estado unificado muito tardiamente. E, por conseqüência, não partilharam da colonização/exploração da América no século XVI, nem da África no XIX. Esses são alguns fatores que podem ter contribuído para que os dois países, em maior grau a Alemanha, emergissem muito fortes internamente, política e militarmente. O processo pelo qual se desenvolveu o nacionalismo na Alemanha, por exemplo, é o inverso dos outros casos europeus. A imposição alemã, em face de uma Europa tradicional, gerou um nacionalismo exacerbado e militar, que buscava no passado sentimentos míticos – não históricos – anteriores mesmo à unificação. Como se a identidade pré-existisse à nação, e o alemão ao Estado – discurso esse que seria muito explorado por Hitler na primeira metade do século XX. Dessa forma, Berlim emergiu como uma cidade que delirava com experimentações das mais diversas, condição que reivindicava para a Alemanha um lugar muito mais cosmopolita e moderno, frente a uma Europa velha. Mesmo a França não alcançou o nível alemão de modernidade. Ainda que Paris fosse a capital européia de referência, a cultura francesa era por demais tradicional, sendo que se viam bolsões de modernidade, não um movimento moderno homogêneo.

A busca por elementos míticos do passado, que justificassem a identidade nacional, não foi uma tentativa unicamente alemã. O historiador francês Michelet, já buscava na figura da bruxa medieval, um sentimento de rebeldia contra a dominação – no caso do clero – que caracterizaria o francês desde sempre – uma busca constante pela liberdade – que teria seu ápice na revolução francesa.

Partindo do contexto nacionalista o historiador e psicanalista Peter Gay escreve sua obra “O cultivo do ódio” – na qual utiliza como referencial teórico a psicanálise. Segundo o autor, o que explica a adesão total à guerra foi a cultura, e não a política ou a economia.  Peter Gay vai a Freud, em especial ao ser desesperançado texto “O mal estar na civilização”, para fundamentar sua teoria. Segundo Freud, o custo da civilização é a felicidade dos indivíduos, a qual é cobrada do ser humano através da repressão aos desejos naturais e aos instintos agressivos do homem, controlados artificialmente via cultura. Segundo Freud, essa é a causa da neurose a qual todos somos portadores. Para Gay, no pré-guerra, a cultura burguesa aumentou radicalmente os mecanismos de repressão, e coube ao conflito libertar os reservatórios de ódio, preenchidos pelos sentimentos das nações.

Para saber mais: GAY, Peter. O cultivo do ódio – a experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud. São Paulo, Cia das Letras, 1988.

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A Grande Guerra

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A Grande Guerra ocorreu entre a Tríplice Intente (liderada pelo Império Britânico, França, Império Russo (até 1917) e Estados Unidos (a partir de 1917) que derrotou a Tríplice Aliança (liderada pelo Império Alemão, Império Austro-Húngaro e Império Turco-Otomano), e causou o colapso de quatro impérios e mudou de forma radical o mapa geopolítico da Europa e do Médio Oriente.

“O período anterior à guerra foi caracterizado por uma grande disputa política e por intensa corrida armamentista. As grandes potências imperialistas européias se envolviam em conflitos pelo controle das matérias-primas e dos mercados mundiais, principalmente sobre territórios Afro-asiáticos. O neocolonialismo, também denominado como “a partilha afro-asiática” foi um processo desigual, que implicou no predomínio de ingleses e franceses sobre as novas áreas conquistadas”.

No fim do século XIX a Europa não experimentava conflito algum. Entretanto, segundo Eric Hobsbawm em texto “A Era da Guerra Total” – parte da consagrada obra “A Era dos Extremos” – alguns eventos demonstravam a fragilidade da paz. Não havia segurança de que a paz permaneceria, alguns esforços vinham sendo feitos nesse sentido. O Congresso Mundial pela Paz (1890), a instituição do Premio Nobel da Paz (1897), e a conferencia de Haia (1899), são parte desses esforços, e exemplos de que, sem dúvida, havia o efetivo risco do conflito. Caso contrário, na visão de Hobsbawm, não seria necessário falar tanto em paz. Argumento que se mostra verdadeiro, pois em apenas um mês, as principais nações da Europa se viram dentro de um conflito as quais estavam muito bem preparadas.

Na visão de Modris Eksteins – em sua obra “A Sagração da Primavera – a Primeira Guerra Mundial deve ser entendida para além das questões político-econômicas, como confrontos de visões de mundo opostas, as quais se apresentavam naquele período histórico. Uma guerra cultural, em que de um lado haveria a visão aristocrata e tradicional, e de outro a visão moderna da burguesia liberal. O conflito seria um evento necessário que viria a limpar o mundo dos velhos valores, e possibilitar o progresso. A guerra não é, de forma alguma, entendida como um projeto que deu errado, pelo contrário, apesar de às avessas e fugindo ao controle, ela realiza a experiência moderna.

A Grande Guerra foi o primeiro conflito a ser conduzido, principalmente, pela classe média. Alguns afirmam que os soldados iam para o campo de batalha como operários iam à fábrica, como quem ia para o trabalho. E muitos enxergavam o conflito como forma de fugir ao tédio, como uma aventura pronta a ser vivida pelo voluntário.

A guerra foi amplamente apoiada pela população européia. O povo abriu mão de seus projetos individuais para fazer a guerra, e milhões de pessoas saíram às ruas não para protestar, mas para mostrar seu suporte e acelerar a marcha rumo ao confronto que teria como fim acabar com todas as guerras. Mesmo os comunistas alemães, tradicionalmente pacifistas, foram a favor da guerra, mesmo que este conflito fosse considerado de ordem burguesa. Para a jovem Alemanha – recentemente unificada – um confronto dessa magnitude serviria para colocar o país na posição de nação soberana e potência mundial. Apoiados na tecnologia militar, os alemães acreditavam na ilusão de uma guerra rápida e higiênica.

“Os líderes civis das nações européias estavam na época enfrentando uma onda de fervor nacionalista que estava se espalhando pela Europa há anos, como memórias de guerras enfraquecidas e rivalidades entre povos, apoiados por uma mídia sensacionalista e nacionalista. Os frenéticos esforços diplomáticos para mediar a rixa entre o Império Austro-Húngaro e a Sérvia foram irrelevantes, já que a opinião pública naquelas nações pediam pela guerra para defender a chamada honra nacional. Já a aristocracia exercia também forte influência pela guerra, acreditando que ela poderia consolidar novamente seu poder doméstico. A maioria dos beligerantes pressentiam uma rápida vitória com conseqüências gloriosas. O entusiasmo patriótico e a euforia presentes no chamado Espírito de 1914 revelavam um grande otimismo para o período pós-guerra”.

Hobsbawm afirma que, comparada com as guerras anteriores, a Grande Guerra apresentou vários aspectos inéditos:

  1. Fim dos ideais cavalheirescos com a substituição da noção de heroísmo pela de dever (Ex: Natal nas trincheiras – um resquício que não se repetiu nos anos posteriores);
  2. As proporções mundiais;
  3. A perda da noção de campo de batalha (antes os locais de combate eram pré-determinados enquanto agora toda a Europa era o campo de batalha);
  4. A guerra de trincheira (em que o avanço era medido em metros, e os custos em milhares de vidas);
  5. A primeira vez que se fizeram registros dos traumas de guerra;
  6. Tecnologia militar avançada substituiu o homem, e a guerra tornou-se impessoal. As mortes ocorreram em proporções gigantescas (9 milhões em 4 anos). E havia uma indústria voltada para a guerra. Pela primeira vez se usou armas químicas em um conflito (gás de mostarda).

Os avanços na tecnologia militar significaram na prática um poder de fogo defensivo mais poderoso que as capacidades ofensivas, tornando a guerra extremamente mortífera. O arame farpado era um constante obstáculo para os avanços da infantaria; a artilharia, muito mais letal que no século XIX, armada com poderosas metralhadoras. Os alemães começaram a usar gás tóxico em 1915, tática que ambos os lados utilizariam até o final do conflito. Tal artifício não garantiu a vitoria de nenhum dos lados, mas colaborou muito para tornar a vida nas trincheiras ainda mais miserável, sendo lembrado como a mais temida arma entre os horrores de guerra.

Com a vitória da tríplice intente sobre a tríplice aliança a culpa pela guerra foi atribuída à Alemanha – a Itália não sofreu sanções, pois deixou a guerra tomando uma posição de neutralidade. O tratado de Versailles terminou de afundar a moral e a economia alemã já debilitada após tantos anos de conflito. Certamente uma dos fatores que propiciaram a ascensão do regime nazista foi o referido tratado. Discursos alemães dos anos 20 colocavam a necessidade de retomada da trajetória gloriosa de uma Alemanha humilhada.

Com a Europa toda em frangalhos, os americanos se tornaram os principais investidores do Velho Continente. A dívida externa dos Estados Unidos foi zerada, passando de devedor a credor, e assumindo finalmente a posição de principal potência mundial.

progressoAo final do conflito, após o gigantesco saldo de mortos, nos é apresentado o outro lado da modernidade, da razão humana e da noção de progresso. Em suas “Teses sobre a filosofia da história”, Walter Benjamin fala de um quadro do pintor Paul Klee, intitulado Angelus Novus, onde um anjo parece querer afastar-se de algo que ele observa. O anjo tem olhos arregalados, a boca está aberta e está prestes a voar. Benjamin diz que o Anjo da História deve ser do mesmo jeito: com um rosto voltado ao passado; e o que para nós parecem diversos acontecimentos, para o anjo significa uma única catástrofe que sem cessar acumula escombros sobre escombros, atirando-os a seus pés. O anjo bem que gostaria de poder parar, de acordar os mortos e de reconstruir o que foi destruído, mas não consegue, pois uma tempestade sopra do Paraíso e fortemente se aninha em suas asas de forma a impedi-lo de fechá-las. A tempestade o leva inexoravelmente ao futuro, ao qual ele dá as costas, enquanto o monte de escombros cresce diante dele até o céu. Benjamin diz que aquilo que nós chamamos “progresso” seria essa tempestade que o anjo presencia. Para ele civilização e violência seriam indissociáveis.

O século XIX pensou a História de forma otimista. Marx, Hegel, Conte, independentemente de suas ideologias, viam na História um sentido. O progresso e a modernidade teriam de, ao cabo, levar ao bem estar social. Mas ficou evidente que História não é sinônimo de progresso, e que este último possui um poder destrutivo brutal e, muitas vezes, incontrolável. Cai também a tese da paz perpétua de Kant – de que quanto mais racional mais pacífica seria a nação – pois esta guerra, profundamente assentada na tecnologia, conduzida de forma extremamente racional, somente levou à ruína. Nunca mais os homens veriam a razão da mesma forma.