Arquivo da categoria: História da África

Um Homem Invictus

Nelson Mandela é um homem que não foi derrotado; é um homem invicto. Após quase 30 anos na prisão sob a linha segregacionista do regime apartheid, Mandela saiu da cela prisional para o salão presidencial. Com o poder nas mãos, ele tinha tudo para encarnar os temores de uma grande parcela dos brancos da sociedade sul-africana: vingança, revanchismo, ajuste de contas. Com o poder nas mãos, ele tinha tudo para incorporar as expectativas de uma grande parcela dos negros sul-africanos: idem, idem, idem. Mandela, porém, superou os preconceitos e medos de todos os lados ao propor a construção de uma nova sociedade baseada na reconciliação. Para tanto, duas decisões foram significativas. Primeiro, a realização do chamado “Comissão da Verdade e da Reconciliação”. Em vez de estimular uma caça aos promotores sanguinolentos do apartheid ou conduzir uma anistia ampla e irrestrita apenas como forma de esquecimento dos horrores da segregação racial, aquele tribunal colocava cara a cara ofensores e ofendidos. Como uma espécie de tribunal moral, ali começava o processo de pacificação sem o qual o país mergulharia na vingança sem fim.

A outra forma de reagregar o país dividido foi a decisão de Mandela de incentivar a conquista da Copa do Mundo de rugby pela seleção sul-africana, no ano em que a sede do evento seria a África do Sul. A divisão racial tinha levado os negros a identificar a seleção nacional como um símbolo da supremacia branca, o que os fazia torcer sempre pelo adversário em campo.

Uma história dessas não poderia deixar de virar filme. E no filme chamado Invictus, de Clint Eastwood, conta-se como Mandela planejou a nova sociedade sul-africana, dentre outras formas, usando o esporte como elemento unificador. Numa cena marcante, os jogadores da seleção sul-africana visitam o lugar onde Mandela esteve preso. Ali, o capitão da equipe se pergunta, Como alguém passa tanto tempo na prisão e ainda sai disposto a perdoar todo mundo?

A reconciliação foi uma escolha racional de Mandela. Na cela apertada, seu espírito voava. E ali, ele decidia ser o senhor do seu destino. Costumamos desresponsabilizar o indivíduo e criminalizar a sociedade. Claro que as estruturas sociais deixam poucas opções ao sujeito discriminado e marginalizado social e economicamente. Mas ainda há chances de escolhas e a consequência delas não pode ser creditada unicamente ao presidente, ao delegado, ao pastor, aos amigos, ao diabo.

Mandela, representado com a dignidade principesca do ator Morgan Freeman, recitava para si, na prisão: “Eu sou o senhor do meu destino, eu sou o capitão da minha alma”. Em diversas oportunidades, nossas escolhas revelam o que queremos ser e o que devemos fazer. E até onde estamos dispostos a ir por nossos propósitos e princípios.

No país que esperava vingança, ele dava o exemplo de justiça. Embora tivesse defendido o enfrentamento armado durante parte de sua vida de luta contra o regime opressor, ele não foi derrotado pelas algemas do apartheid nem pelo revanchismo nos tempos da cólera racial. Por isso, tornou-se um homem invicto.

Respondendo à pergunta, Como alguém passa 27 anos na prisão e sai disposto a perdoar?

É que, em tempos de ódio e intolerância, não há gesto mais revolucionário que o perdão.

(Joêzer Mendonça, Nota na Pauta)

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Cinema: O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland: 2006)

“O Último Rei da Escócia”, filme de 2006 dirigido por Kevin Macdonald, conta a história do instável e carismático ditador Idi Amin, que governou Uganda de 1971 a 1979, vista pelos olhos de um jovem médico escocês. Acontecimentos verídicos, como os massacres de Amin, sua vida e o seqüestro palestino de um avião são misturados no filme com ficção. A própria existência do médico é fictícia. Apesar de todas as crueldades do ditador, a produção se limita a mostrar a complexidade do personagem, cujo lado humano e gentil grita muito mais do que suas crueldades.

Amim nasceu no interior e serviu no exército britânico durante a época em que o país ainda era uma colônia inglêsa. Após 1962, com a independência, tornou-se chefe do exército sob o comando do presidente Milton Obote. Em 1971 liderou um golpe militar que destituiu Obote, tornando-se líder de Uganda. O regime imposto foi brutal, cerca de 300 mil pessoas foram assassinadas.

Durante o período que governou, o ditador expulsou empresários asiáticos, paquistaneses e indianos  – cerca de 90 mil foram expulsos. Além disso, arruinou a economia do próprio país, e criou o símbolo ditatorial africano. Foi finalmente deposto em 1979, falecendo em 2003. Os ugandenses reagiram com uma mistura de sentimentos, do alívio pela morte, a uma nostalgia gerada pela expulsão dos asiáticos que dominavam a economia.

Senegâmbia, o desafio da história regional

Segundo Barry Boubacar, a África é o continente mais fragmentado do mundo, tanto no plano geopolítico quanto no da diversidade de sua população. Segundo o autor a integração está mais do que nunca no coração do problema africano, pois o sonho não realizado de uma unidade do continente choca-se com o peso da divisão colonial que moldou a configuração das fronteiras dos Estados atuais. As crises que afetam tanto grandes Estados como os pequenos, e refletem, sobretudo, conflitos internos, recolocam a questão da redefinição do espaço territorial, econômico e cultural da África na busca pela consolidação da paz e da segurança.

A configuração atual das fronteiras foi praticamente moldada no final do século XIX, através da conquista européia. Entretanto, segundo Boubacar, as fronteiras são resultado de uma longa história, que deve ser levada em consideração para além do acidente da divisão colonial, para se compreender as lógicas internas de fragmentação e unificação do continente.

Boubacar remonta ao século VIII para analisar o problema. Para ele, os impérios do Ghana, Mali e Songhai, tem importância não devido aos limites frouxos de suas fronteiras, mas pela capacidade de integração das zonas ecológicas do Sahel, da Savana e da Floresta, assegurando as rotas de comércio intercontinentais – sob uma administração descentralizada, que oferecia grande autonomia às regiões – permitindo aos mercadores especializados desenvolver o comércio de longa distância. A noção de fronteira é muito fluida e não determina, nesse período, o centro de gravidade dos conflitos territoriais. O que ocorre é um movimento de migração em todos os sentidos, possível através da existência de vasto espaço capaz de absorver excedentes populacionais.

No século XV as grandes navegações abrem um longo período de disputa entre a caravela e a caravana. E o comércio negreiro instala por vários séculos uma era de violência e reestruturação dos Estados da África. Os grandes impérios desaparecem, dando lugar a um “esfarelamento” político extremo. Os novos Estados negreiros privilegiam a caça ao homem em detrimento da conquista territorial, consolidando sua posição graças a uma política de centralização e militarização. Dessa forma, os povos sem defesa se obrigaram a se fechar sobre si mesmos nas zonas de refúgio, criando assim terras de ninguém. Nesse contexto, as populações têm somente como opção construir um Estado forte, capaz de garantir segurança no interior de suas fronteiras.

É preciso esperar pelo século XIX, com a supressão do tráfico negreiro, para assistir a novas reestruturações dos Estados, agora relacionados com os diferentes movimentos sócio-políticos que buscam o triunfo do comércio legítimo de produtos em detrimento do de escravos. O declínio do comércio de escravos – ainda que ilegalmente tenha se mantido até a metade do século XIX – trouxe importantes transformações econômicas e sociais. Por toda a parte ocorrem migrações das populações buscando contato com o comércio europeu.

A conquista européia do continente colocou populações divididas de um lado e outro por novas barreiras alfandegárias, lingüísticas ou administrativas. Porém, após a divisão, as fronteiras da África praticamente permaneceram inalteradas. O que efetivamente ocorreu, para além do estabelecimento dos territórios ao acaso – refletindo as preocupações contraditórias das potências coloniais – foi que a divisão pôs fim aos processos internos de reestruturação do espaço. O que se observa, por exemplo, no caso da AOF (África Ocidental Francesa), é que os conflitos que remetem a questões territoriais são em grande parte limitados pela capacidade de arbitragem dos governantes europeus.

Por outro lado, a divisão colonial teve papel regulador para as populações que não conheciam fronteiras. Para escapar das repressões, do pagamento exorbitante de impostos, do recrutamento militar, ou em busca de emprego, as demarcações territoriais favoreceram a mobilidade entre um governo e outro – muito favorecidas pelas solidariedades étnicas que ligam populações de um lado e de outro.

Com as independências, novas perspectivas se abrem aos povos africanos, que se encontram divididos entre dois objetivos contraditórios: o da unidade pan-africana e o da construção do Estado. Entretanto, os novos países sacralizaram as fronteiras herdadas da colonização na conferência da OUA (Organização da Unidade Africana) em 1963. A fisionomia da África se mostrava muito fragmentada. No plano político, especialmente na África Ocidental, as nações nenhum laço orgânico possuem em comum, acabando por se fechar no interior de suas fronteiras. A partir de então, no contexto do Estado-Nação, o controle das fronteiras se intensificou, assim como as barreiras alfandegárias, reduzindo trocas oficiais entre os países, que se dão as costas. O desenvolvimento separado muito rapidamente se seguiu a crises econômicas que se transformaram em crises políticas, revelando as fragilidades dos Estados baseados em forte centralização e na prática despótica do partido único.

Como as populações têm dificuldades em se exprimir no interior de suas fronteiras – onde vivem sufocadas segundo Boubacar – diversas formas de crises são inevitáveis, acabando por precipitar a implosão dos Estados. Isso se traduz nas diversas guerras civis que a África experimentou ao longo dos anos. Segundo o autor, o problema certamente não está em modificar as fronteiras atuais, com o fim de criar novos desequilíbrios, mas em suprimir tudo o que pode contribuir para frear uma real política de integração africana.

Muito cedo, em face aos limites de um desenvolvimento separado os Estados africanos tentaram se reagrupar. Entretanto, estavam primeiro preocupados em consolidar poderes hegemônicos no interior, não dispostos a ceder uma parcela sequer de sua soberania nacional, materializada nas fronteiras artificiais, herdadas da divisão colonial. Esse é o paradoxo que explica o fracasso da maior parte dos projetos de integração regional. O que se vê é, efetivamente, a ausência de economias complementares, o que contribui para o problema das fronteiras, e dos jogos com as disparidades das moedas e tarifas alfandegárias. A necessidade de planificação do valor dos recursos africanos é uma emergência para responder às necessidades das populações em seu conjunto.

Para Boubacar, o principal objetivo das nações deveria ser o de devolver ao continente a unidade e homogeneidade que perdeu depois do século XV. A África, como o continente mais fragmentado do mundo, deve corrigir o mais cedo possível os desequilíbrios internos criados pela construção unilateral do Estado-Nação centralizado, que ignorou a existência das nacionalidades diferentes no sei dos novos Estado. Essa reintegração passa por uma retomada da questão do papel do Estado na gestão do espaço e da mobilidade dos homens.

Mazelas da Colonização: O contexto da independência de Ruanda

Ao contrário dos seus vizinhos, Ruanda, não teve a sua “sorte” decidida na Conferência de Berlim. Sendo entregue à Alemanha somente em 1890. Após a Primeira Guerra Mundial, entretanto, o protetorado foi entregue à Bélgica por mandato da Liga das Nações.

Quando os colonizadores belgas chegaram à região, produziram carteiras de identidade classificando as pessoas de acordo com sua etnia. As etnias tutsis e hutus surgiram em grande medida pela divisão criada de uma só população pelos colonizadores belgas, distinção que era baseada em critérios muito diversos como altura e formato do nariz. Tanto do ponto de vista da lingüística como da cultura, não havia distinção entre hutus e tutsis. Porém, pensa-se que a divisão entre estes dois grupos tem raízes sociais, uma vez que os tutsis haviam sido a classe política dominante da região desde o século XV, situação que foi mantida pelos belgas.

Os tutsis durante muito tempo desfrutaram de empregos e oportunidades de educação melhores do que os vizinhos hutus. Dessa forma, o ressentimento entre os hutus foi crescendo gradualmente e culminou em uma série de revoltas em 1959. Mais de 20 mil tutsis foram mortos e muitos fugiram para países vizinhos como Burundi, Tanzânia e Uganda.

Ainda em 1959, sob circunstâncias misteriosas, o rei tutsi Mutara III acabou falecendo após tomar uma vacina. O rei que o sucedeu, chamado Kigeli V, assumiu o trono no mesmo ano, mas acabou permanecendo por muito pouco tempo no poder, apenas dois anos, pois Dominique Mbonyumutwa, líder hutu, assumiu o poder após depor o monarca, que se exilou na Tanzânia.

Quando a Bélgica deixou o poder e deu independência a Ruanda em 1962 (seguindo o referendo realizado pela ONU em 1960), os hutus, que detinham o poder, tomaram várias medidas de repressão contra os tutsis, tais como confisco de bens, deslocamentos populacionais e até medidas de cunho racistas como a proibição de casamentos mistos entre ambas as etnias. Essas medidas durante muitos anos deixaram Ruanda à beira de uma guerra civil.

Em 5 de Julho de 1973, o general Juvénal Habyarimana, que era ministro da defesa, destituiu o seu primo Grégoire Kayibanda, dissolveu a Assembléia Nacional e aboliu todas as atividades políticas, se mantendo no poder até 1994. Entretanto, em 1990, uma série de problemas econômicos gerou conflitos internos e a Frente Patriótica Ruandesa (RPF), dominada por tutsis refugiados nos países vizinhos lançou ataques militares contra o governo hutu, a partir do Uganda. O governo militar de Habyarimana respondeu com programas genocidas contra os tutsis. Em 1992 foi assinado um cessar-fogo entre o governo e a RPF na Tanzânia.

Em Abril de 1994 Habyarimana foi assassinado quando o seu avião foi atingido ao aterrissar em Kigali. Durante os três meses seguintes, os militares e milicianos mataram cerca de 800000 tutsis e hutus, naquilo que ficou conhecido como o Genocídio do Ruanda. Ainda trabalha-se para julgar os culpados pelo massacre. Até 2001, 3 mil foram julgados, com 500 penas máximas.

Breve Resumo sobre História da África

A historiografia sobre a África, ainda que em bom número, tem pouca contribuição de historiadores africanos. Os poucos que trabalham nesse sentido foram formados em universidades européias, tendo herdado uma tradição que os fazem ver a história de seus países de fora para dentro. A cultura africana é sem dúvida propagada muito mais oralmente. O principal meio de comunicação no continente ainda é o rádio.

A história da África pode ser dividida em três grandes fases:

1.    Interesse do oriente no comércio com os grandes reinos africanos.
2.    A África volta-se para o ocidente a partir do século XV.
3.    A descolonização africana.  Fase em que o continente ainda se encontra. Uma coisa é certa, não se pode falar em cultura africana, mas em culturas múltiplas. Após as saídas das nações européias e as proclamações de independência, não foram resolvidos os antigos conflitos. O pluralismo é muito grande, são muitas etnias em disputa no mesmo espaço político. Sem dúvida as dificuldades em se constituir estados nacionais são tremendas. Alguns países imediatamente após a independência envolveram-se em guerras civis. Já outros deixaram as pendências conflituosas para resolver posteriormente. Tudo isso fez da África um barril de pólvora.

Até o século VII os reinos africanos não tiveram contato com outros povos. A partir desse momento, entretanto, os árabes os alcançam, trazendo consigo o islamismo, e o comércio. Três grandes reinos se desenvolveram na África: Ghana, Mali e Songhai. O último assumiu o califado do Sudão. Após aderirem ao Islã – embora as religiões de adoração aos elementos da natureza ainda persistissem (certo sincretismo é notável) – o comércio com o oriente intensifica-se mais ainda, tendo a África vivido um período de relativa prosperidade. Os principais itens comercializados eram o marfim, a noz de cola e os escravos – provenientes dos africanos – os quais eram trocados por tecidos, cobre e pérolas.

O REINO DE GANA


O Ghana foi provavelmente fundado durante o século IV de nossa era. Entretanto, foi somente no século VII que o reino ganhou representatividade, principalmente devido a suas minas de ouro, fato que chamou a atenção dos árabes.

Quando o comércio com os árabes se intensificou, Ghana instituiu um responsável, uma espécie de ministro do comércio, para controlar, através de taxas, as operações de importação e exportação. O Estado era mantido através de um eficiente sistema de cobrança de impostos localizados nos principais entrepostos comerciais de um território não muito bem definido. A organização do reino de Ghana era notável, havia subdivisões de governo, com certa autonomia, espécie de províncias, politicamente organizados ao longo do rio Senegal e Niger. As principais atividades eram a agricultura, a mineração, a pecuária e o comércio com os árabes. Ghana foi-se mantendo sob o governo dos berberes e dos muçulmanos até 1240 quando o rei do Mali, Sundiata Keita, acabou por conquistá-lo.

O REINO DE MALI


O Império Mali foi um estado da África Ocidental, perto do rio Níger, que dominou esta região nos séculos XIII e XIV. De três impérios consecutivos, este foi o mais extenso territorialmente, comparado com o de Songhai e do Gana. O império alcançou o auge no início do século XIV, durante o governo de Mansa Musa, que se converteu ao Islã. Mali controlava as rotas comerciais transaarianas da costa sul ao norte.

Em sua peregrinação a Meca, esse soberano fez-se acompanhar de uma comitiva com 15 mil servos, cem camelos e expressiva quantidade de ouro. Em seu retorno, determinou a construção de escolas islâmicas na capital, a cidade de Tombuctu, que de próspero centro comercial, tornou-se também um centro de estudos religiosos. Mali tornou-se famoso devido à imensa riqueza obtida através do comércio com o mundo árabe.

No início do século XV, o Império do Mali começou a declinar.

O REINO DE SONGHAI


Do início do século XV até o final do XVI, Songhai foi um dos maiores impérios africanos da história. Este império tinha o mesmo nome de seu grupo étnico líder, os Songhai. Sua capital era a cidade de Gao, onde um pequeno estado Songhai já existia desde o século XI. Sua base de poder era sobre a volta do rio Níger.

Em 1325, quando Mansa Musa volta de sua peregrinação à Meca, submete pelas armas o reino de Songhai à dominação Mali. Os príncipes de Songhai são levados à corte de Mali. Entretanto um deles consegue fugir e, em 1355, reestabelece o reino de Songhai com a dinastia dos Sonnis, que contou com 17 soberanos até 1464. O império de Songhai, porém, só foi constituído durante o reinado de Sonni Ali, o último dos 17 soberanos. Sonni Ali não era religioso, embatia-se com os mussulmanos. Dentre suas conquistas estão todas as cidades às margens do rio Níger com sua frota de navios. Como que por ironia acabou morrendo afogado no próprio rio Níger, em 1492, sem deixar descendência.

Em 1493 assume o poder o general Askia Mohamed, fiel muçulmano. O novo soberano teve grande preocupação em combater o analfabetismo, a fim de que as pessoas pudessem ler o alcorão. Também criou um exército efetivo, em sua maioria composto por prisioneiros e escravos, cujo chefe era seu irmão Omar Mohamed. Em 1497 realizou uma peregrinação à Meca numa comitiva de 1500 homens, incluindo os sábios do reino (médicos, matemáticos, homens de ciência e letras), a fim de que tudo observassem no caminho para trazer melhorias para Songhai.

Askia Mohamed foi então nomeado pelas autoridades do Islã como califa do Sudão, com o objetivo de fazer frente à crescente influência do cristianismo vinda dos países europeus. Coube ainda a esse soberano unificar o sistema de pesagem do reino, a criação de um sistema bancário e de financiamento e reformas no campo da educação – com a criação de escolas superiores, e da universidade de Sankoré, de orientação laica. Seu filho mais velho acabou dividindo o país em guerras civis e depondo seu pai.

Devido ao controle econômico exercido por Songhai, entre outros produtos, do ouro produzido no Sudão ocidental, do sal, artigo de grande importância no deserto, e dos escravos, cuja procura era constante nos territórios islâmicos, o império de Songhai acabou destruído pelo Marrocos em 1591.

SOBRE OS MISSIONÁRIOS EUROPEUS NA ÁFRICA


A partir de 1830 diversos missionários, fundamentalmente ingleses, adentraram o continente africano – principalmente Libéria, Costa do Ouro e Nigéria – num esforço de evangelização dos povos. Eram anglicanos, metodistas, batistas e presbiterianos. Também alguns luteranos e calvinistas alemães, a serviço da sociedade missionária de Londres, se dirigiram para as cercanias da fronteira do Cabo. Trabalharam junto aos povos Khoins e Tsuana – ao norte do rio Orange. Mais tarde, quando a colônia do Cabo expandiu-se para o leste e Natal foi anexada, missionários de diversas ordens se deslocaram da Alemanha, Inglaterra, França, Holanda, Suécia e EUA, para a África Meridional.

Merece destaque as missões da região dos lagos, entre 1860 e 1880, que tinham o objetivo de estabelecer unidades-modelo para instruir a população livre no cultivo dos produtos de exploração. Essa era uma das características desses missionários: eram abolicionistas, e a favor do trabalho assalariado, de acordo com o Congresso de Viena.

Pelo lado católico, merece destaque os missionários liderados pelo vigário Daniel Camboni, criador da obra pela propagação da fé; mais tarde Camboni se tornaria bispo da África Central. Ele defendia a regeneração da África pela própria África, a partir de seus próprios esforços, sem intervenção política das metrópoles.

Tanto a evangelização católica como protestante tinham três pontos em comum:

1.    Levar os africanos não somente a conversão ao cristianismo, mas à apreensão do conjunto de valores da civilização ocidental.
2.    Ensinar a divisão/separação entre a esfera espiritual e secular, posição diretamente oposta às crenças africanas animistas que criam na natureza.
3.    Minimizar a influência das autoridades locais, a fim de que o povo abandonasse seus ritos sagrados, muitas vezes ligados a posição dos reis ou chefes.

É certo que o empreendimento dos missionários encontrou resistência. Por vezes havia forças em sentido contrário, que acabavam desenvolvendo certo sincretismo.

A África e a Escravidão

Em seu texto “A África e a escravidão ”, Paul Lovejoy afirma que a escravidão é uma forma de exploração, caracterizada pela transformação de indivíduos em propriedade. Segundo o autor, aqueles que tinham sua liberdade negada, além de sofrer coerção no sentido do trabalho, perdiam até o direito sobre sua própria sexualidade, e por extensão, a reprodução. As instituições sociais não contemplavam legalmente os escravos como pessoas, mas como bens móveis, sendo tratados como mercadorias. Ainda segundo Lovejoy, a escravidão pode ser definida como “um meio de negar aos estrangeiros os direitos e privilégios de uma determinada sociedade, para que eles pudessem ser explorados com objetivos econômicos, políticos e/ou sociais”, embora a palavra estrangeiro pudesse ser facilmente substituída por estranho.

A escravidão é acompanhada por um fenômeno: O escravo que falava a mesma língua que seu senhor, sem sotaque, que compartilhava a mesma cultura, seguia a mesma religião, e entendia as relações políticas a sua volta, sofria um nível muito menor de exploração do que aqueles completamente alheios à cultura dominante. “Aqueles que tinham vivido num só lugar durante muitos anos após a sua compra ou escravização tinham menos probabilidades de serem tratados como simples mercadorias”  . Isso explica, sem dúvida, as maiores regalias de crioulos em comparação a escravos africanos recém-chegados. Sempre havia uma distinção que legitimava a exploração. Não se escravizava pares, era sempre uma religião diferente, uma etnia diferente, ou uma cultura diferente. Tratava-se sempre da figura de um outro, estranho ou alheio.

Mesmo que a escravidão seja muitas vezes mostrada pelo lado da coerção exercida pelo senhor, em nível sociológico, havia certa acomodação. Senhores sabiam até onde poderiam forçar, e escravos eram cientes de sua dependência, considerando níveis de tratamento aceitáveis. Não há mais dúvidas de que havia o elemento negociação. Entretanto, não obstante o equilíbrio, se vivia a dualidade entre uma psicologia de servidão e o potencial para a revolução.

Identificar os papéis que cada escravo poderia exercer também é uma questão fundamental para se definir se a escravidão é um aspecto menos importante da vida social ou se efetivamente ocorre como instituição, de forma que o modo de produção escravista seja o principal. Os escravos poderiam desde assumirem importantes funções na economia, até serem responsáveis por cargos administrativos. De soldados do exército, até papeis relativamente mais simples no âmbito doméstico ou sexual.

Nos Estados africanos, com o crescimento da religião islâmica entre os séculos VIII até o X, a escravidão – que agora era legitimada pela religião – sofreu modificações. Embora o papel do escravo fosse ainda semelhante à sociedade pré-islâmica, com a subida dos muçulmanos ao poder o escravo vê na conversão a possibilidade de emancipação. Teoricamente muçulmanos não poderiam ser escravizados, sendo que um dos deveres do senhor era o da educação religiosa. Segundo a doutrina de Maomé, escravizar um indivíduo era uma forma de convertê-lo, embora na prática não ocorresse exatamente isso.

Um dos fatores que mais contribuíram para a escravidão na África foi a alta demanda de escravos pelo mercado europeu e o comércio transatlântico. Segundo Lovejoy, “As exportações de escravos cresceram gradualmente durante os primeiros 150 anos do comércio atlântico, chegando a 409.000 escravos d1450 a 1600. Posteriormente o comércio aumentou numa escala que sobrepujou todas as exportações anteriores da África”. Dentro do continente, como não podia deixar de ser, as transformações foram muito significativas. Os escravos logo se tornaram o principal item de exportação do continente, tornando-se muito comuns na sociedade local. Consolidou-se uma forma de escravidão não islâmica na costa ocidental, sendo que essa não era mais uma característica periférica, mas uma instituição fundamental. Lovejoy afirma que “o processo de escravização aumentou; o comércio cresceu em resposta aos novos e maiores mercados, e a utilização de escravos na África, tornando-se mais comum”  . Fundou-se uma estrutura política e social dentro da África, fundamentada na escravidão, que se expandiu até as últimas décadas do século XIX.

Referência: LOVEJOY, Paul E. A Escravidão na África: Uma história de suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.