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Por que não se critica o comunismo como o nazismo?

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Leonardo Padura: “Os cubanos estão cansados”

PUBLICADO NO SITE DA REVISTA ÉPOCA:
http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/04/bleonardo-padurab-os-cubanos-estao-cansados.html

828_leonardoO escritor de maior sucesso no momento em Cuba fala dos efeitos do stalinismo, do sonho que “virou fumaça” e da “amizade crítica” do Brasil por seu país
IVAN MARTINS

Com O homem que amava os cachorros, publicado no Brasil pela editora Boitempo, o cubano Leonardo Padura, de 59 anos, escreveu talvez o melhor romance histórico das últimas décadas. Certamente o mais relevante para quem se interessa pela história do socialismo no século XX – uma utopia lançada pela Revolução Russa de 1917 que se transformou, nas décadas seguintes, num  pesadelo autoritário que tragou milhões de vidas. Essa é a história que Padura conta em seu romance, centrado nas figuras do revolucionário russo Leon Trotsky e de seu assassino, Ramón Mercader.  “O livro não  começa e termina em Cuba por acaso. A experiência cubana é essencial para o que quero contar”, diz Padura. Ele chegará ao Brasil neste sábado para conferências em Brasília e São Paulo. Na entrevista que deu a ÉPOCA por telefone, de Havana, Padura falou de literatura, da vida em Cuba e das relações de seu país com o Brasil.

ÉPOCA – O personagem central de seu livro é Leon Trotsky, um revolucionário russo da primeira metade do século XX com poucos seguidores no mundo atual. Por que escrever sobre ele?
Leonardo Padura –
Na universidade que cursei, nos anos 1970, a figura de Trotsky não existia. Nas aulas de filosofia e de história, ou quando se falava da Revolução Russa, ele não era mencionado. Exatamente como se fazia na União Sovié­tica. Isso me provocou uma enorme curiosidade. Quando pude, tratei de procurar informações sobre ele. Os livros soviéticos diziam que era um traidor da causa do socialismo e, por isso, morrera no exílio. Em 1989, visitando a Cidade do México, pedi a um amigo que me levasse à casa de Trotsky, no bairro de Coyoacan. Quando cheguei ali, senti uma comoção forte ao ver a mesa de Trotsky tal como ficou depois do crime. Como, num lugar tão perdido no mundo, chegou a mão de Josef Stálin para matar esse homem? Anos depois, soube que Ramón Mercader, o homem que matara Trotsky, morrera em Cuba completamente anônimo. Posso ter cruzado com ele na rua sem saber. Tudo isso formou a base sentimental do romance. Depois, passei dois anos lendo e pesquisando sobre o assunto e três anos escrevendo.

ÉPOCA – Seu livro é muito simpático a Trotsky, uma figura controversa. O senhor acredita que, se ele tivesse vencido a disputa com Stálin, a União Soviética teria sido diferente do que foi?
Padura –
Teria sido diferente, por uma questão de caráter, de educação e de experiência política. Trotsky era um homem totalmente diferente de Stálin. Ele não tinha o componente doentio que caracterizou Stálin, um sujeito enfermo de ódio, violência e inveja. A vitória de Trotsky faria com que a história soviética fosse diferente, mas como? É uma especulação difícil de fazer. Quando Lênin morreu, ainda havia um estilo que se poderia chamar de democrático na direção do Partido Bolchevique. Mas já estava lá a semente do autoritarismo. Stálin não chegou ao poder por ser um assassino ou um reacionário. Ele conseguiu porque havia na União Soviética condições que fizeram com que um homem como ele chegasse ao poder, se perpetuasse nele e desse a fisionomia do socialismo real.

ÉPOCA –  O romance é crítico dos partidos comunistas e, quando fala de Cuba, descreve uma situação de escassez desesperadora nos anos 1990. O senhor teve problemas com a censura por causa disso?
Padura –
Afortunadamente, não. Mas não acreditei que o livro sairia em Cuba até que o vi impresso e exposto. Tenho um amigo russo que diz que, se há algum indício de que as coisas mudaram em Cuba, é a publicação de meu livro. Mas é verdade, também, que, embora o livro tenha saído em Cuba, a imprensa oficial não falou dele. Ocorreu um silêncio total, também uma forma de resposta ao que diz o livro.

ÉPOCA –  O personagem cubano de seu livro é um escritor acossado pela fome e pelo medo. Há algo de autobiográfico nele?
Padura –
Esse personagem foi construído a partir da experiência que vivemos em Cuba durante os anos 1990, uma época de crise. O que acontece a esse personagem poderia ter acontecido comigo. Por sorte não foi assim, ainda que, em alguns momentos, eu tenha sentido o peso da censura e do dogmatismo ideológico. Em 1983, trabalhava numa revista cultural e fui demitido porque diziam que eu tinha problemas ideológicos, assim como acontece ao personagem do livro. Nos anos 1990, quando estava no trabalho, comia pão com uma pitadinha de ovo ou tomate. Foi um período muito duro.

ÉPOCA – Hoje a situação material dos cubanos está melhor?
Padura –
A situação é melhor, ou talvez seja diferente. Hoje em dia, o problema não é que seja difícil comprar determinado alimento ou ter acesso a determinado objeto material. Hoje, o problema é conseguir dinheiro para comprar essas coisas. Um cubano ganha em média US$ 25 ou US$ 30 por mês, e 1 litro de óleo de soja custa US$ 2,50. Quer dizer: 1 litro de óleo de cozinha leva 10% de todo o salário. Aí está o grande problema atual.

ÉPOCA – O jornalista americano Jon Lee Anderson escreveu na revista The New Yorker que aquilo que o senhor diz estabelece o limite do que pode ser dito em Cuba.
Padura –
Não sei dizer. Como também faço jornalismo, falo da realidade cubana de uma forma direta. Faço isso porque acredito que é a única forma que tenho de participar como cidadão na sociedade em que vivo e pela qual trabalhei e me sacrifiquei muitos anos. Estive em Angola, trabalhando como colaborador civil. Na juventude, tive de cortar cana e trabalhei no campo. Fiz tudo o que tinha de ser feito, nunca deixei de viver em Cuba e creio que isso me dá direito de dizer o que penso sobre meu país. Sei que, em determinados níveis políticos, talvez não gostem do que digo. Mas, como acredito que é meu direito, sigo falando.

ÉPOCA – O senhor não tem vontade de sair de Cuba e viver com  mais conforto e mais liberdade em outro país?
Padura –
Preciso viver em Cuba para poder escrever. A matéria-prima, a substância essencial da minha literatura, está na vida cubana. Se vivesse fora de Cuba, talvez tivesse mais conforto e mais comodidade, mas não seria o mesmo. Preciso ouvir os cubanos falar, ver como se portam. Preciso me indignar ou rir com eles, porque é a cultura a que pertenço. Há quatro anos tenho passaporte espanhol. Poderia viver na Europa, mas decidi que quero viver em Cuba e escrever sobre Cuba.

ÉPOCA –  Como o senhor, que viaja muito, compara a vida em Cuba à de outros países da América Latina?
Padura –
O mais importante é que em Cuba, ainda que as pessoas sejam muito pobres, a pobreza não chega a ser extrema. Há quem tenha mais possibilidades econômicas, outros que têm menos, mas o país segue sendo uma sociedade mais igualitária. É algo que se construiu em muitos anos e só agora começa a ter algumas rachaduras. Parte da população não tem mais o espírito de minha geração. Acreditávamos no futuro. Acreditávamos que, com nosso trabalho e nosso esforço, teríamos uma vida melhor. Esse sonho virou fumaça. Muitos não acreditam mais nisso. Há um cansaço histórico. São muitos anos de sacrifício, e muita gente não saiu do mesmo lugar. Muitos até retrocederam em suas possibilidades pessoais.

ÉPOCA – O senhor sabe que muita gente no Brasil critica a simpatia do governo brasileiro pelo governo cubano, que muitos brasileiros consideram uma ditadura?
Padura –
Sei que existe esse debate no Brasil. Os governos do PT tiveram uma atitude de aproximação do governo cubano, mas tem sido uma aproximação de amizade crítica, não de amizade sem nenhuma condição. Uma amizade não crítica é a do governo da Venezuela com Cuba. O Brasil não tem tido a mesma atitude.

ÉPOCA – A presença de médicos cubanos no Brasil também tem provocado polêmica, porque eles recebem um salário menor que os médicos brasileiros, e a diferença fica com o governo cubano. Sabe-se dessas coisas em Cuba?
Padura –
Os cubanos discutem isso porque muitos médicos cubanos vão trabalhar no exterior. Mesmo que ganhem salários baixos, esses salários são maiores que em Cuba. Os médicos que trabalham fora de Cuba representam uma entrada de divisas importantes para o país.

ÉPOCA – A blogueira Yoani Sánchez esteve no Brasil e foi atacada pelos simpatizantes do governo cubano. Em mais de uma ocasião não a deixaram falar. O senhor teme que lhe aconteça o mesmo?
Padura –
Espero que não (rindo). Meu livro teve muitos leitores no Brasil e imagino que ele tenha sido percebido como a posição de um cubano que participa da realidade cubana e tem direito de dizer o que pensa sobre o país em que vive. Não conheço pessoalmente Yoani Sánchez, mas ela mostrou valentia numa época em que não era conhecida e começou a fazer seu trabalho de forma consequente com sua maneira de pensar. Eu a admiro por isso.

Sobre a Ideologia de Esquerda nas Universidades Brasileiras

UFPR

“É delírio pensar que existe uma orquestração esquerdista para doutrinar alunos” disse o professor Luiz Eva, da Filosofia da UFPR, ao blog CAIXA ZERO do jornal Gazeta do Povo. Segue abaixo a entrevista completa:

1- Há um predomínio de intelectuais de esquerda nas universidades públicas brasileiras? Por quê?

Só posso me pronunciar aqui acerca de minhas impressões cotidianas do setor de humanas da nossa UFPR e das demais universidades que conheço. Infelizmente o contato entre áreas diferentes da universidade, em nível pessoal ou mesmo científico, é quase inexistente. Concordo basicamente com o que disse o meu colega Adriano Codato, da Ciência Política: entre nós, é visível uma certa predominância de pessoas com uma tendência “à esquerda”, mas ela não corresponde à imagem que pode eventualmente ser transmitida à sociedade pelos movimentos organizados de esquerda que se fazem representar na universidade pública. Não me parece nenhuma novidade que, talvez mesmo em um sentido mais amplo, a figura do intelectual engajado tenha perdido espaço e o engajamento, não sei se dos intelectuais, mas dos pesquisadores em ciências humanas na universidade pública seja, de modo geral, pouco ou nada relevante para a aferição de sua qualidade ou do seu prestígio. Acho que, cada vez mais, a questão central, ao menos na minha área (que é a Filosofia) tende a ser a de saber se o pesquisador domina ou não, ou em que grau, os critérios de qualidade para tratar do objeto de que trata, estude ele um pensador de esquerda ou não.

A inclinação à esquerda a que eu me referi talvez possa ser explicada a partir de causas (a história recente, a maneira como professores e alunos se posicionam diante dela, a atitude com que as vozes discordantes são ou não capazes de articular o que pensam) que escapam à minha competência. Mas penso que ela reflete, basicamente, uma posição de simpatia acerca da necessidade de transformações reais na sociedade civil capazes de produzir mais justiça e igualdades de condições (com a qual, aliás, me alinho). Por outro lado, ainda que essa inclinação pode por vezes se converter em uma espécie de senso comum que ocupa o lugar de um aprofundamento no debate, existe, de todo modo, um nível de liberdade intelectual no interior da universidade graças ao qual é perfeitamente possível, ao menos em tese, que esse debate se aprofunde. O problema maior parece-me dizer respeito à formação básica dos alunos que chegam à universidade e, consequentemente, à sua capacidade de usar as ferramentas pertinentes para um debate intelectual relevante.

2- A direita acusa a esquerda de “aparelhar” as universidades. Isso seria possível? Como?

O concurso público para professores tem sido uma instituição acadêmica cada vez mais respeitada ao longo das últimas décadas. Cada vez mais um número expressivo de professores defende e promove a realização de concursos que busquem o melhor candidato disponível para exercer uma função intelectual específica, independentemente de suas filiações partidárias. Ademais, realmente existe liberdade de cátedra na universidade pública. Esse é o nosso universo e, nesse sentido, não me parece possível falar em “aparelhamento”: o que há, em vez disso, se não estou enganado, é a presença cada vez mais clara de um “ethos” intelectual que compreende o respeito a valores fundamentais a serem reconhecidos e respeitados como condições da qualidade da pesquisa acadêmica, no qual se incluem a isenção e a busca da concorrência pública em nome do aprimoramento dessa qualidade, independentemente de posições político-ideológicas.

Mas a vida intelectual na universidade tem outros aspectos. Existem grupos intelectuais que se pretendem representações da “esquerda” no interior da universidade e que buscam essencialmente preservar estruturas de poder, isto é, grupos que ainda atuam segundo a lógica da estrutura de cátedras, agregados em torno de um líder feudal, certamente brilhante, que buscam garantir hegemonia pela imposição de um determinado estilo teórico. Naturalmente, é de se esperar um conflito, em algum nível, entre esse modo de conceber a atividade intelectual e o tipo de atitude a que me referi. De todo modo, a relação com a esquerda num caso como este me pareceria ser casual, posto que tal atitude não decorre propriamente dessa orientação política e se faz presente de outras maneiras e por parte de grupos diversos.

Além disso, os sindicatos usualmente pretendem mobilizar um ideário de esquerda pela defesa de certos “direitos fundamentais” cujo beneficiário nem sempre é necessariamente a Universidade, ao menos compreendida como instituição pública voltada ao aprimoramento de seus critérios de eficiência e qualidade. Mas esse discurso se alimenta principalmente da omissão de pesquisadores que optam, compreensivelmente, por permanecer em seus laboratórios a tentar fazer suas posições terem alguma repercussão nas assembleias. Também aqui há um conflito latente (que geralmente eclode nos momentos finais da greve) entre as posições mais tradicionais do sindicato e aqueles que, em defesa de certos valores acadêmicos, acabam por ser tachados de “direitistas”.

Neste sentido específico, ainda que talvez a universidade tenha sido preservada por essa “esquerda” de reformas que poderiam ter sido nocivas, a sua atuação é hoje essencialmente conservadora e seu efeito, a meu ver, é negativo no que tange às eventuais transformações que se fariam necessárias para conferir maior excelência à nossa universidade pública, ao menos a partir de uma perspectiva de excelência menos provinciana.

3- Questões de vestibular, Enade e Enem, segundo parte da direita, seriam usadas como instrumento de doutrinação e de seleção de alunos que corroboram teses do atual governo. Isso faz sentido?

O vestibular normalmente é elaborado por uma comissão local de cada universidade, e usualmente os próprios departamentos colaboram com a formulação das questões. Ao menos na nossa área, essa suspeita é absurda. Quanto ao Enem e o Enade, tenho menos contato com o processo de elaboração, mas tendo a pensar, como o Adriano Codato, que as questões refletem principalmente o “cânone de pedagogos”. Isso não significa que a prova não possa ser aperfeiçoada, ou mesmo, especialmente, esse próprio cânone. Mas veja-se que neste mesmo caldo de críticas os próprios alunos do curso de Filosofia (como de outros cursos) embarcaram no boicote das provas, muitos deles decerto por acharem que a ideia da avaliação não seria suficientemente à esquerda. Acho que esse tumulto em torno dos exames é lamentável, pois eles são o resultado de um esforço de racionalização extremamente importante no processo de avaliação do ensino, sem o qual pouco se pode esperar em termos de aprimoramento da qualidade.

4- Por que a direita não tem mais representantes nos cursos de humanas? Faltam intelectuais à direita? Por quê?

Eu diria antes que faltam intelectuais, sem mais. Mas para responder à sua pergunta eu diria que é preciso olhar para a história recente do país. Durante o regime militar, a liberdade crítica esteve seriamente limitada, não apenas mas especialmente nas Universidades. Lembremos de episódios como os narrados pelo falecido geógrafo Aziz Ab’Saber, que repreendeu publicamente, durante uma aula, um agente do regime militar que frequentava seu curso e havia sequestrado uma colega de classe para torturá-la. Parece-me moralmente compreensível, num clima desses, que entre os interessados pela defesa de algum espírito crítico e da liberdade intelectual se desenvolvesse ojeriza pela “direita” e pelo que ela representa. Se assim é, boa parte da responsabilidade se deve à nossa direita.

Mas como você sabe esses conceitos são elásticos. Por vezes, partidários da esquerda imbuídos da crença de que todo e qualquer evento tem uma significação intrínseca no sentido de avançar ou de reter a realização do ideal pensam que toda reflexão que não se alinha com um pensamento da esquerda é necessariamente de “direita”. Do ponto de vista dessas pessoas decerto que a universidade está hoje dominada pela direita, na medida mesma em que nem a investigação nem o objeto de estudo estão diretamente atrelados a esse ideal.

5- Há risco de “doutrinação ideológica” dos alunos nas universidades?

Claro que sim, sempre há, mas não apenas na universidade, nem especialmente na universidade. Mas, novamente, é delírio achar que haveria um risco decorrente de um movimento orquestrado pela esquerda para esse fim nas salas de aula da universidade pública. Acho que temos um nível de liberdade acadêmica na vida universitária que favorece, ao menos potencialmente, o desenvolvimento de espírito crítico – compreendido aqui como a capacidade de distanciamento necessária para que se possam considerar adequadamente razões favoráveis e contrárias – e penso que muitos dos meus colegas atuam nesse sentindo. Muitos alunos, é verdade, vão à universidade (como a outros locais) em busca de doutrinação e a acabam encontrando, posto que muitos professores também se sentem bem na posição de pastores da verdade, mas isso novamente não é privilégio da esquerda nem da direita. Em síntese, acho que existe espaço suficiente para convidar os alunos a refletirem sobre essa situação e mesmo perceberem que as seduções doutrinárias de diferentes tipos poderia ser uma ocasião para aguçar o espírito crítico. O que nem sempre há é disposição de aceitar esse convite, novamente em parte, acho eu, por falta de um contato prévio mais adequado com o universo da reflexão intelectual.

FONTE: http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/caixa-zero/e-delirio-pensar-que-existe-uma-orquestracao-esquerdista-para-doutrinar-alunos/

Perseguição Religiosa em Nossos Dias

Lista de países mais opressores segundo a ONG Portas Abertas:

Para saber mais:  http://www.portasabertas.org.br

O Fazer-se da Classe Operária no Brasil

A visão tradicional é que a formação da classe operária é um fenômeno puramente econômico, associado ao surgimento da indústria. Entretanto, considerar classe como efeito mecânico da estrutura implica, necessariamente, em desconsiderar que os trabalhadores em si tivessem interesses coletivos construídos na experiência comum.

A classe operária no Brasil se desenvolveu logo após as profundas transformações mundiais impostas pela Grande Guerra e pela Revolução Russa. Desde o século XIX, porém, já começava a aparecer uma considerável camada proletária, sobretudo no eixo Rio – São Paulo.

No início do século XX, o trabalhador urbano vivia em péssimas condições. Não havia leis trabalhistas, e cada fábrica possuía o seu próprio código de normas. Como forma de defesa, os trabalhadores começaram a se unir em ligas de auxílio mútuo, e a realizarem comícios, passeatas e, sobretudo, greves. Nesse contexto as idéias anarquistas e socialistas começaram a ganhar destaque.

Os anarquistas, baseados nas considerações de Bakhunin, defendiam a idéia de que a liberdade é necessariamente coletiva, e só poderia se realizar em uma sociedade igualitária e solidária. Entendiam que a autoridade estatal nasce de uma minoria, e sempre que o Estado tentasse impor algo, sua ação seria nefasta, pois estaria sobrepujando a liberdade.

No Brasil, os anarquistas defendiam a eliminação do poder da Igreja e da classe dominante, a destruição da burguesia e do Estado, o fim das desigualdades sociais e a supressão do capitalismo. Para isso propunham a luta operária por meio de greve geral. Eram contra qualquer instituição partidária, o que os colocava fora do jogo político. Por todo o país defendiam a organização de sindicatos, pois entendiam que seria mediante esses órgãos que se daria a luta operária, entretanto, no futuro deveriam ser extintos. A partir dos anos 20, porém, os anarquistas estavam enfraquecidos devido a falta de coesão entre os sindicatos, e o ideário foi então, dando lugar à crescente ideologia comunista. Os líderes anarquistas logo perceberam a necessidade de se organizar e, tão logo tiveram contato com as idéias marxistas, e com o intuito de centralizar o movimento operário, se reuniram e fundaram, em 1922, o primeiro partido nacional (só haviam regionais) o Partido Comunista do Brasil.

Concepção de História para Marx

“A história de todas as sociedades que existiram até hoje é a história de lutas de classe” Logo na primeira frase do capítulo I do Manifesto Comunista Marx deixa claro que, em sua visão, sempre houve uma divisão entre opressores e oprimidos. Segundo o pensador, essa contradição pode ser observada desde a antiguidade até seus dias – entre homens livres e escravos, patrícios e plebeus, servos e senhores, burgueses e proletários. Seus trabalhos históricos se desenvolveram com base nessa premissa, se fundamentando no materialismo histórico. Para Marx, o modo de produção econômico (base), determina os aspectos culturais (superestrutura). Em outras palavras, não se pode julgar uma sociedade a partir de sua própria consciência, mas pelo contrário, é preciso explicar essa consciência a partir das contradições da vida material e do conflito entre as classes. Marx escreveu: “o modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual” (Prefácio para a Crítica da Economia Política). Nesse sentido, a metáfora da base e da superestrutura, permeada pela luta de classes, é o fundamento para a concepção de História desenvolvida no Manifesto.