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O que a Coreia fez e o Brasil não

Artigo publicado inicialmente na Gazeta do Povo por José Pio Martins.

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Um dos mais extraordinários exemplos de crescimento econômico e superação da pobreza no pós-guerra é a Coreia do Sul. Há 70 anos, o país era pobre. Em 1945, foi dividido em dois: a Coreia do Norte, que permanece uma ditadura comunista miserável e atrasada até hoje; e a Coreia do Sul, que assombrou o mundo com seu desenvolvimento e continua a dar lições de como crescer e progredir.

Com 50 milhões de habitantes, a Coreia tem renda per capita de US$ 30 mil, contra US$ 11 mil do Brasil. É um dos países mais desenvolvidos do mundo, que se destaca por sua moderna indústria nacional, altas tecnologias e elevado nível de bem-estar social. Com população quatro vezes maior, o Brasil não tem uma única marca de veículos genuinamente nacional, e somos compradores dos produtos das coreanas Hyundai e Kia, além de outras gigantes como Samsung e LG.

Para começar, após o fim da guerra contra a vizinha do norte, a Coreia do Sul abraçou o capitalismo sem pruridos ideológicos, enquanto o Brasil nunca foi verdadeiramente capitalista e sempre viu a economia de mercado com certa desconfiança. O governo coreano definiu que seu escopo seria a fixação da estratégia de crescimento econômico e a criação de condições para a modernização capitalista. As reformas que vieram a seguir tiveram essas duas diretrizes como base e o país teve um surpreendente surto de desenvolvimento a partir dos anos 70.

O êxito coreano se deve, entre outros, a cinco fatores: a reforma agrária implantada no pós-guerra, que diminuiu sensivelmente a pobreza rural; o programa educacional, com maciços investimentos na educação de base sem a cultura bacharelesca latino-americana; a adoção do planejamento familiar; a abertura para o exterior e priorização de indústrias voltadas à exportação; investimentos pesados em infraestrutura de transportes, comunicações e tecnologias de ponta.

A Coreia entendeu que o motor do crescimento econômico é a empresa, não o Estado, e que a figura central da criação de riqueza é o empreendedor, não o burocrata estatal. Curiosamente, a Coreia demorou para estabilizar seu sistema de governo, após titubear sob governantes autoritários e tumultos políticos. No ranking internacional, o país é considerado o mais inovador do mundo, o que somente é possível pelo respeito reverencial ao pesquisador, ao inventor, ao empreendedor e ao educador.

Já o Brasil não se libertou da cultura bacharelesca (que valoriza mais as letras que a tecnologia), do apego subserviente ao Estado (que desconhece a expressão “satisfação do cliente”, mesmo vivendo à custa deste) e da aceitação envergonhada da economia de mercado. Nosso país tem uma relação esquizofrênica com o capitalismo. Adotamos o sistema, mas tratamos mal seu principal ator – o empresário –, não conseguimos entender a lei da oferta e da procura e seguimos acreditando, ingenuamente, que para cada problema individual há sempre uma solução estatal.

Mas a grande revolução coreana foi na educação. Ao dar ênfase à educação das mulheres, uma legião de trabalhadoras qualificadas foi formada e a explosão populacional foi contida. Ao priorizar a educação de base, o analfabetismo foi vencido e a competência técnica foi adquirida. Ao concentrar os recursos (sempre escassos) no ensino tecnológico e no domínio das matemáticas, uma multidão de trabalhadores tecnicamente preparados lançou o país ao sucesso econômico.

Bem, não é preciso ir longe para entender o que a Coreia fez e o Brasil não…

José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo.

 

A justiça da impunidade

Não pude deixar de reproduzir aqui o excelente texto de CARLOS HAAG (Edição 209 da Revista da FAPESP – Julho de 2013). O autor reuniu especialistas na área da violência para tentar entender esse problema crônico que envolve corrupção e inoperância do Estado brasileiro. Originalmente publicado em: http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/07/12/a-justica-da-impunidade/.

Polícia

Uma frase de 1764 que consta do clássico Dos delitos e das penas, de Cesare Beccaria, tem uma atualidade notável: “A perspectiva de um castigo moderado, mas inevitável, causará sempre uma impressão mais forte do que o vago temor de um suplício terrível, em relação ao qual se apresenta alguma esperança de impunidade” [grifo meu]. Sua antevisão também captou tendências em voga. “Há no Brasil a sensação forte de que, independentemente de classe, riqueza ou poder, os crimes cresceram e se tornaram mais violentos, porém há impunidade. Nesses momentos as pessoas acham que a solução são leis mais severas e mais tempo de prisão”, diz o sociólogo Sérgio Adorno, coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, um dos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão financiados pela FAPESP (NEV-Cepid/USP).

“O sentimento de impunidade gera descrença nas instituições democráticas encarregadas de aplicar a lei e a ordem, proteger os direitos civis dos cidadãos, consagrados na Constituição, em especial o direito à segurança”, fala o pesquisador. Mas qual seria a real dimensão dessa impunidade? Com essa preocupação foi feita a pesquisa Inquérito policial e processo judicial em São Paulo: o caso dos homicídios, um desdobramento do projeto Estudo da impunidade penal. A proposta era analisar o fluxo de ocorrências de homicídios desde o registro policial até a sentença judicial. O que se pretendia era, além de medir a impunidade penal, identificar os fatores judiciais e extrajudiciais, bem como os mecanismos institucionais que favorecem a desistência da aplicação de penas para estes crimes.

Os números básicos já revelam a magnitude da impunidade: apenas 60,13% das ocorrências de homicídios foram objeto de investigação. Logo, para cerca de 40% dos registros não foram identificados inquéritos policiais. Enquanto os homicídios cresceram 15,51%, os inquéritos policiais aumentaram apenas 7,48%. “Isso significa que aumentou o hiato entre o potencial de crescimento da violência e a capacidade de as autoridades policiais investigarem crimes, o que pode ter repercutido na desconfiança dos moradores nas instituições encarregadas de assegurar a ordem pública e aplicar lei e ordem”, observa o sociólogo.

O dado mais notável é sobre a natureza da autoria dos crimes. Apenas 19,58% dos registros de homicídios são de autoria conhecida: a grande maioria, 76,65%, é de autoria desconhecida. No entanto, 90,36% das ocorrências convertidas em inquérito são de homicídios com autoria conhecida. “Em síntese, todo registro deveria virar investigação, mas há uma seletividade patente centrada nos 10% de conhecidos, ou seja, aqueles cometidos por vizinhos, parentes, colegas de trabalho, amigos de bar etc. Se há flagrante, esse número cresce para 97,64%. A natureza da autoria é um critério de seletividade arraigado na cultura da polícia”, fala Adorno. Se há, por exemplo, suspeita de que existe qualquer relação com tráfico de drogas, cresce ainda mais o risco de o crime não ser investigado. “Os policiais dizem que é muito complexo mexer com isso ou que há um grupo especial para esses casos”, conta o pesquisador. Logo, há um percentual pequeno de homicídios investigados e, veremos, uma condenação quase irrelevante nesses casos. Apenas com flagrante é que as possibilidades aumentam.

“O detalhe é que o flagrante é feito pela Polícia Militar, mas quem se encarrega de fazer a investigação é a Polícia Civil. Então temos um flagrante que é aleatório e que vai ser investigado depois por outro grupo. O sistema funciona de maneira frágil e irracional”, diz Adorno. O sociólogo lembra ainda que diante da ausência de um padrão investigativo entre as delegacias, a seletividade é ainda mais arbitrária do que se imagina. “A pesquisa identificou sete grupos de desempenho, variando desde aqueles com baixo registro de homicídios e baixa produção de inquéritos abertos para investigação até aqueles com elevado volume desses registros e elevada produção de inquéritos.” A investigação policial não parece ser uma prioridade de política institucional da área de segurança pública.

“Não se deve confundir o modelo de inquérito policial existente no país com a mera investigação policial, porque aqui se reúnem atribuições próprias à polícia e atribuições que em outros países são feitas com o controle do Ministério Público”, avisa o sociólogo Michel Misse, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de Inquérito policial no Brasil: uma pesquisa empírica (2010). Segundo o professor, com isso, o inquérito brasileiro passa a ser um importante dispositivo de poder nas mãos dos delegados de polícia, uma peça que tende a prevalecer durante todo o processo legal de incriminação. “É o núcleo mais reticente e problemático de resistência à modernização do sistema de justiça brasileiro. Por isso virou também uma peça insubstituível, a chave que abre todas as portas do processo e que poupa trabalho dos demais operadores do processo, os promotores e juízes”, avisa. Para Misse, ele se transforma num dispositivo de seletividade na esfera policial: instaurá-lo ou não pode transformá-lo numa “mercadoria política”.

“Se o modelo do inquérito policial adotado no Brasil contribui para a baixa capacidade de resolução judicial dos conflitos e crimes, é certo que também funciona adequadamente para preservar e reproduzir um ‘sistema-arquipélago’ em que saberes concorrentes não se entendem bem”, avalia Misse. O inquérito, segundo o pesquisador, percorre esse arquipélago e dá a ele a aparência de um continente, embora os resultados obtidos sejam nulos e a “degola”, a sujeição criminal extrajudicial, muitas vezes seja a demanda e a solução daqueles que, por não confiarem mais na justiça do Estado, vão em busca da justiça pelas próprias mãos.

Para a socióloga Joana Domingues Vargas, professora do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), autora da pesquisa Controle e cerimônia: o inquérito policial em um sistema criminal frouxamente ajustado, o modelo policial atual só se mantém porque os delegados ainda se aferram a velhos instrumentos de inquérito e têm um lobby forte no Congresso para essa permanência. “Há mais de 10 anos tramitam propostas de simplificação e modernização da investigação criminal e outros tópicos semelhantes, sem resultados [grifo meu]. O aumento da criminalidade violenta nos últimos 30 anos diminuiu ainda mais a efetividade do sistema de justiça criminal”, nota Joana. São novas modalidades de crimes, um volume crescente de inquéritos policiais e a morosidade crescente no processamento desses que só levam à perda de legitimidade do sistema. “Temos apenas que imaginar a dificuldade que representa a transformação ou a eliminação de instrumentos que reproduzem a ordem social do Brasil, que tem como uma de suas marcas centrais a distância entre os dispositivos previstos na lei pelo Estado e as práticas efetivas que recaem sobre a sociedade, tendo como resultado a desconfiança geral sobre essas práticas.”

O antropólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário de Segurança do Rio de Janeiro e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), autor de Violência política no Rio de Janeiro (1996), observa que, com seus 50 mil homicídios dolosos por ano, o Brasil fica em quinto lugar na América Latina. “Desse total, porém, só 8% são esclarecidos, ainda que não sejam julgados na Justiça, ficando impunes 92%. Isso quer dizer que somos o país da impunidade? Sim e não. Porque temos 540 mil presos, a terceira população carcerária do mundo e a taxa mais veloz de encarceramento do planeta”, analisa. Como explicar essa contradição? “Mais de 65% dos presos, nos últimos quatro anos, são jovens pobres, negros, que não usavam armas, não tinham vínculos com organizações criminosas e foram presos em flagrante por negociarem substâncias ilícitas”, explica o antropólogo, que critica o sistema que prende sem dar condições de retorno dos jovens à vida.

Para Adorno, “em resumo, está na fase policial o maior gargalo para que réus, suspeitos de haverem cometido um homicídio, possam ser processados e julgados de acordo com o devido processo legal”. E quando passamos para a segunda fase, o sistema de justiça, atingimos outro funil. “É praticamente impossível pesquisar no Judiciário brasileiro, porque gastamos anos em busca de pastas de processo sem localizá-las, entre outros problemas. Mas, do que encontramos, verificamos que apenas um terço dos infratores foi sentenciado pelo crime de homicídio, tendo os demais destinos o arquivamento do inquérito, impronúncia, absolvição sumária e absolvição”, conta o sociólogo. Ao contrário do que diz a literatura especializada, as fases judiciais são igualmente sujeitas à destacada seletividade, ainda que mais restritas aos controles processuais penais.

Novamente, a não investigação dos casos de autoria desconhecida é o fator central da impunidade: o não esclarecimento foi responsável pelo desfecho de 84,5% dos inquéritos arquivados. A tudo isso se junta uma morosidade penal: esses inquéritos arquivados levaram em média 25,8 meses para serem encerrados. Nos casos em que houve denúncia a fase policial foi concluída em 4,3 meses. Maior o tempo gasto na etapa inicial dos procedimentos policiais, menor a possibilidade de investigação. “O notável é que fatores extralegais ligados às características biográficas de réus/acusados, como cor, não parecem influenciar as taxas de impunidade. O perfil dos indiciados/réus é muito semelhante entre impronunciados, absolvidos sumariamente, arquivados, comparativamente aos denunciados e aos que foram a júri. As razões para isso não são claras. Em tese, essa descoberta significa dizer que preconceitos e julgamentos valorativos dos operadores técnicos do direito não influenciam as decisões judiciais ou a sentença judicial. Mas na análise qualitativa foi frequente flagrar preconceitos e julgamentos valorativos nos argumentos usados pela acusação e pela defesa”, observa Adorno.

“As provas técnicas constantemente estão sujeitas a erros e na maioria dos casos tudo está centrado em evidências e testemunhos orais, embora prevaleça, nos documentos, a lei do silêncio, bem como ao longo de um processo, que chega a durar até cinco anos, muitas testemunhas não são mais encontradas, o que acentua a produção de provas inconsistentes”, fala o pesquisador. Não existe tampouco a previsibilidade esperada em sistemas de justiça que funcionam. “É muito comum se flagrarem retratos morais dos envolvidos, algo de natureza extrajudicial, usados pela defesa e pela acusação, tentando influenciar decisões e sentenças. Também é comum a inversão do ônus da prova: pela lei brasileira, cabe ao Estado provar a culpa dos réus reunindo material sólido comprobatório. Muitas vezes, se atribui ao réu o ônus de provar sua inocência, mas ele não tem os mesmos recursos do Estado.”

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Para o sociólogo ficou difícil saber se a crença nas instituições de segurança foi abalada, já que, diz, as crenças em todas as instituições parecem quebradas. “Por isso, no centro da segurança deve estar como objetivo a redução da impunidade. Isso não passa pelo aumento do rigor de punir os criminosos, como em geral as pessoas querem, mas no aumento da certeza dessa punição. Não há necessidade de penas mais duras ou mesmo da ampliação da tipologia dos crimes hediondos. Devemos aumentar as chances de um indivíduo que tenha cometido um ato criminoso ser identificado, preso, processado e sentenciado. Condenado, ele deve realmente ir para o sistema prisional”, analisa o sociólogo Flavio Sapori, do Centro de Estudos e Pesquisa em Segurança Pública da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (Cepesp-PUC Minas), autor de Segurança pública no Brasil: desafios e perspectivas (2007).

Para o pesquisador, a impunidade é a grande fragilidade do sistema de justiça criminal na sociedade brasileira. “Os alvos aumentaram, bem como a disponibilidade das armas de fogo, mas a capacidade preventiva do sistema não acompanhou essa elevação. Os níveis de impunidade, se não cresceram, permaneceram os mesmos, em patamares elevados. Impunidade entendida como baixo grau de certeza de punição e não propriamente baixa severidade da punição”, observa Sapori. Daí a continuidade nos pedidos de maior rigidez e penas, como o debate sobre o rebaixamento da maioridade penal.

“Cada sociedade tem que decidir o que são seus jovens, se quem está apto a dirigir pode ou não ir para uma prisão, mas há muitos equívocos a serem desfeitos antes de uma decisão”, fala Adorno. Um deles é o suposto crescimento da criminalidade dos menores. “O que há, na verdade, é um decréscimo. Aumentou, sim, a crueldade nos crimes cometidos pelos jovens, um fator que precisa ser investigado.” Outro ponto é: para qual prisão serão levados esses adolescentes? “Hoje o PCC domina as prisões e o comportamento dos presos em detalhes. Até mesmo os presos homossexuais são discriminados lá dentro. Quanto mais prisões o governo constrói, mais o PCC lucra com as pensões, vendinhas e o comércio interno e no entorno dessas cadeias. Não basta jogar na cadeia sem pensar como ele vai sair em alguns anos, um ‘soldado’ treinado pelo PCC”, avisa Adorno.

Para o pesquisador, mudou a natureza do crime, mas se insiste em oferecer as mesmas respostas, sem levar em conta que há uma nova “economia do crime” que opera em coletivos organizados sob a forma de rede, cuja resposta não se dá apenas pelo desejo obsessivo de lei e ordem punitiva com mais prisões. “Nem a Justiça, nem as pessoas estão preparadas para esse tipo de crime. Não se trata mais apenas da questão da arbitrariedade, que deve ser combatida, é claro, mas do que funciona ou não para dar a segurança ao cidadão”, fala o pesquisador.

Em PCC: hegemonia nas prisões e monopólio da violência, lançado no mês passado, a socióloga Camila Nunes Dias, da Universidade Federal do ABC, fruto de seu doutorado, orientado por Adorno, mostra que, no estado de São Paulo, 90% das prisões, num total de 200 mil presos, são controladas pela facção criminosa. Mas o comando está em processo de nacionalização com braços em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Paraná, Sergipe e Pernambuco. O detalhe importante é que o PCC cresce em paralelo com o aumento da violência, das prisões e, acima de tudo, da impunidade. “Há uma queda notável na taxa de homicídios do estado a partir dos anos 2000, um movimento que começa em 2001 e se acentua a partir de 2005, quando o PCC se expande para além das prisões, se estabelecendo em bairros da periferia, uma verdadeira hegemonia fora do sistema prisional”, explica Camila.

Para a pesquisadora, uma queda de 80% na taxa de homicídios não se explicaria apenas por fatores como a expansão do sistema prisional ou aumento da presença de ONGs na periferia, fatores comumente mobilizados para explicar esse fenômeno. “No momento em que o PCC passa a mediar e regular disputas no mundo do crime, em especial no mercado de drogas, o processo de vingança e violência anárquico de antes passa a ser controlado pelo PCC”, nota. O PCC se transforma na instância de mediação que rompe os ciclos de vingança. O mesmo se daria dentro das prisões, onde cada vez menos há rebeliões, o que não significa melhorias das condições de vida, mas da manutenção da ordem para evitar problemas com o Estado, prova da hegemonia do PCC, razão pela qual não se ouve mais falar em rebeliões.

“O mundo do crime teve a capacidade de implementar um dispositivo capaz de oferecer parâmetros de comportamento e de estabelecer operadores de fiscalização e instâncias, experimentadas como legítimas, para julgar e punir os desvios e os desviantes”, analisa Camila. Tudo, é claro, em nome do poder, dos negócios e de uma ideologia de oposição ao Estado. O esforço em bloquear a lógica dos “mata-mata”, que assolaram a periferia durante a década de 1990, a interrupção das cadeias de vingança privadas, motivos da maioria dos homicídios, é um dos significados mais importantes do sentido de justiça implícitos nos debates promovidos para solucionar os conflitos interpessoais no âmbito do poder do PCC, afetando diretamente a queda das taxas de homicídios em São Paulo.

Claro que a ordem social pela imposição da paz pelo PCC tem como reverso as zonas de exclusão, nas quais estão os “párias” que não cabem na unidade constituída pela consolidação do poder, nota Camila. Ao mesmo tempo, não se sabe por quanto tempo e em que condições vai durar essa “paz”, totalmente nas mãos dos criminosos. “A percepção da ineficiência das agências estatais na promoção da democracia, por causa da impunidade penal, tem estimulado a adoção de soluções privadas, extremamente violentas, que contribuem para aumentar os sentimentos de insegurança coletiva e a emergência de um poder capaz de controlar, de forma espúria, autoritária e criminosa, os conflitos”, diz Adorno.

Auschwitz-Birkenau – Visita ao Campo de Extermínio

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Pouco mais de 60 minutos de distância da cidade de Cracóvia, no Sul da Polônia, encontra-se o maior campo de extermínio construído na história do planeta. Levado a cabo pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, hoje Auschwitz-Birkenau é uma espécie de museu no qual o visitante se dá conta de que o Holocausto realmente existiu para além da História e dos livros. De que realmente pelo menos 1.3 milhões de pessoas foram assassinadas lá em pouco mais de dois anos. Trata-se do maior cemitério do mundo, ainda que sem lápides, que consegue nos fazer refletir profundamente sobre a vida, e o ser humano.

O nacionalismo, a burocracia, o progresso e a indústria, condições que separadas são basicamente inofensivas, em circunstância históricas específicas podem trazer o que há de pior no homem. O projeto de nação pura, de grande império, a possibilidade de todo alemão ser um conquistador, um ser superior, que detinha o maldito poder de decidir pela vida ou morte de milhares, entrou em consonância com o mais intimo, cruel, e assustador aspecto do ser humano – o orgulho. De uma geração alemã subjugada saíram aqueles que venceriam o mundo todo. O preço para um grande Reich que duraria mil anos parecia pequeno. Subjugar os judeus, antes enriquecidos e poderosos, agora indignos de sua própria humanidade. Trabalho que também alimentava por demais a vaidade. Que terror me traz esse mal que nos tenta diariamente em escalas tão diferentes.

Nacionalismo não é mais do que é um jogo de vaidades étnicas. Somos algo, na medida em que diferimos do outro. Precisamos do outro para ser quem somos. Não somos todos iguais eles diziam. Quanta bobagem. Tudo é vaidade e correr atrás do vento dizia Salomão. Eclesiastes 2:17. Isso sim é sabedoria. Sempre quando levantamos uma bandeira, seja ela em qualquer escala – do nacionalismo à roupa que vestimos e nos difere do mais humilde – tudo é a mesma coisa. É vaidade. Como temos a aprender com o Cristianismo que nos ensina a perseguir a humildade e não o orgulho. É o caminho oposto a todo esse jogo horrível que expressa o que há de pior em todos nós. O holocausto é a prova final de que o homem é homem – desde sempre, mas numa escala extrema do mal – a escala industrial.

A divisão do trabalho impossibilitava imputar a culpa. Eu somente abria a porta, pode dizer um soldado alemão. Eu só tomava os nomes, outro diria. Eu somente conduzia as pessoas ao trem. Assim ninguém matava ninguém. A burocracia permitiu isso. Enquanto para uns era o trabalho e a honra de construir um império, para outros apenas a morte e a devastação. O judeu foi o combustível dos alemães na guerra. Suas riquezas, seus imóveis, sua força de trabalho, até mesmo seus corpos – os cabelos iam para a indústria têxtil e as cinzas para a indústria de fertilizantes. Nada poderia ser desperdiçado. Tudo para colocar o mundo aos pés dos poderosos, viris, e orgulhosos conquistadores. Tudo vaidade. Orgulho, e vaidade.

O trabalho liberta

Entrada de Auschwitz I: A inscrição no portão diz “O trabalho liberta” embora ninguém tenha sido libertado através de seu trabalho no campo. Cabe observação que a grande maioria – 90% – dos que foram deportados a Auschwitz iam diretamente para as câmaras de gás de Auschwitz II Birkenau. No auge a indústria de extermínio dava conta de 8000 mortes por dia.

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Como eram marcados cada tipo de prisioneiro: Judeus com a estrela de Davi, homossexuais com um triângulo rosa, etc.

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Crianças vítimas dos bizarros experimentos médicos conduzidos pelo Dr. Josef Mengele. Depois da guerra, Mengele fugiu para a América do Sul. Só foi encontrado depois de morto, sob identidade falsa. O cruel médico nunca chegou a ser julgado pelos seus crimes.

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A maior parte do complexo Auschwitz I está muito bem preservada.

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Entrada da única câmara de gás que não foi destruída pelos nazistas. Seis meses antes da liberação de Auschwitz pelos soviéticos os alemães começaram a destruir evidências dos seus crimes.

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Latas do gás Zyklon B, usado para matar pelo menos 1,3 milhões de pessoas em Auschwitz.

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Paredão em que ocorriam fuzilamentos diários de prisioneiros em Auschwitz I.

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Retratos que mostram o resultado da inanição – pois comiam apenas um pedaço de pão por dia – aliada aos trabalhos forçados – muitas vezes em temperaturas que beiravam os 20 graus negativos. Mulheres de 70 kg, em menos de três meses chegavam a 25 kg.

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A média de vida dos prisioneiros era de dois a três meses.

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Os pertences dos judeus mortos eram enviados a população civil da Alemanha. Este mar de sapatos foi o que sobrou quando os soviéticos liberaram o campo.

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Os judeus deportados partiam espremidos em vagões de gado em viagens que podiam demorar até três dias. Alguns já chegavam mortos no destino final.

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Local ao lado de uma das câmaras de gás onde foi enforcado Rudolf Hoess – comandante supremo de Auschwitz – por ordem do tribunal de Nuremberg.

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A última imagem registra o trilho e o portal do temido campo Auschwitz II Birkenau, local onde os deportados iam diretamente para as câmaras de gás.

Fotos: Orlando Brunet Filho. Fevereiro de 2013.

Brave New World

Admirável Mundo Novo é um dos grandes clássicos que a literatura do século XX produziu. Aldous Huxley (1894-1963) escreveu a obra em 1932, antevendo um futuro cientificamente evoluído, porém altamente desumanizado. Na Ficção de Huxley, as pessoas deixaram de nascer para serem “decantadas” em laboratório – função do Estado totalitário que detém o monopólio sobre a reprodução humana. Desde os primeiros momentos de vida, as crianças são “predestinadas” para funções sociais específicas – num sistema semelhante ao de castas – através não somente de seu desenvolvimento biológico, mas também pela doutrinação via repetição incessante da ideologia do poder dominante – inclusive durante o sono dos pequeninos. A estabilidade social fora conquistada através da supressão de Deus, da literatura, do livre pensamento e pelo incentivo massivo ao consumo. Já a felicidade, atingida mediante quantidades racionadas de soma – uma droga utilizada para fugir da realidade, sem indesejados efeitos colaterais, e distribuída pelo Estado.

Não bastasse a enorme importância política da obra, como narrativa o trabalho é magnífico. É encantador acompanhar a trajetória de Bernard Marx, Lenina (os nomes são sim referência aos pensadores do comunismo) e o Selvagem – que não para de citar Shakespeare – em meio à massiva civilização do futuro.

Fica a critério do leitor manusear a interpretação da metáfora à realidade social.

Leitura obrigatória. Recomendação absoluta do blog.

Como os intelectuais chineses vêem a globalização

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(Análise da obra de BERGER, Peter; HUNTINGTON, Samuel (org.). Muitas Globalizações: Diversidade Cultural no Mundo Contemporâneo. Tradução de Alexandre Martins. Rio de Janeiro: Record, 2004.)

Desde o início dos anos 80 os intelectuais chineses discutem a respeito da globalização. Fundamentalmente, foi a partir de um artigo publicado em 1987, que a questão foi levantada de maneira mais acalorada. O artigo afirmava que se a China não se modernizasse, poderia passar pelo mesmo atraso que experimentara quando foi vassalo das potências européias. Com a urgência do tema, a discussão ganhou os meios acadêmicos e os círculos da elite chinesa.

Os autores afirmam então, que a postura geral dos intelectuais chineses tem sido receber a globalização de braços abertos. Alguns sustentam até que a globalização pode trazer paz permanente ao mundo, eliminar as desigualdades, levar ao desenvolvimento e à prosperidade. O grande argumento, porém é certamente o esforço de modernização da China que foi associado ao fenômeno globalizante. Outro ponto importante, encarado até então com preocupação pelos intelectuais chineses, foi o nacionalismo radical. O medo era de que o partido-Estado manipulasse as emoções nacionalistas da nova geração como forma de manter o regime autoritário. A globalização aparece então uma alternativa que pode trazer democracia e liberdade ao povo chinês.

Apenas um pequeno grupo de intelectuais chineses parece ser contrário à globalização, os chamados Neomarxistas, ou a Nova Esquerda. Acreditam que a globalização fará mais mal do que bem à China, que estaria se abrindo para a desigualdade social que caminha junto ao capitalismo e à rápida acumulação de capital.

Globalização Cultural na Turquia

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(Análise da obra de BERGER, Peter; HUNTINGTON, Samuel (org.). Muitas Globalizações: Diversidade Cultural no Mundo Contemporâneo. Tradução de Alexandre Martins. Rio de Janeiro: Record, 2004.)

A vida econômica turca foi talvez a área que mais sofreu impactos com a globalização cultural. Desde os anos 80 a economia da Turquia foi exposta à globalização do capital e do comércio, tendo sido reorganizada com base na primazia do mercado global sobre o doméstico. Em conseqüência disso, cresceu na última década o discurso de livre mercado, a multiplicação e a disseminação dos atores econômicos e a pluralização das organizações econômicas na sociedade turca.

Durante esse período o Islã começou a funcionar como código econômico aberto à ideologia de livre mercado, criando sua própria organização econômica baseada nos princípios de conhecimento racional e técnico e especialização. Dessa forma, o Islã é articulado com a ideologia de livre mercado, expresso na criação da Associação de Industriais e Empresários Independentes (Musiad). Essa organização é classificada como “islâmica” por estar ligada a seitas e comunidades religiosas, por ter o Islã como referência significativa em suas atividades, e por ter fortes ligações com o Islã político.

O sucesso da Musiad está em sua capacidade de congregar muitos negócios, de diferentes escalas, em diversas regiões da Turquia, e criar uma rede econômica baseada na confiança entre os crentes. Pode-se, dessa forma, entendê-la através da coexistência com o modelo ocidental de comportamento organizado. Entende-se, então, que a Musiad criou uma base econômica para o discurso islâmico.

Outros dois grupos são importantes para que se discuta os impactos da globalização cultural na Turquia; o Tusiad, ou Associação de Industriais e Empresários Turcos, que foi o principal ator econômico do desenvolvimento capitalista do país desde os anos 70, e o Siad, ou associação de Industriais e Empresários, que conquistou qualidade institucional com a associação de seus membros com diferentes cidades e províncias da região da Anatólia.

Na área da cultura popular, a globalização é entendida como um processo que leva à coexistência entre o global e o local, antes do que ao choque entre eles. Por exemplo, ainda que a escolha de canais de televisão seja feita primeiramente através do processo de significação e identidade, a mudança nos padrões de consumo possibilitou a aceitação, em grande parte, da universalização da cultura de consumo ocidental.

244377A globalização é também entendida como aquela que cria as bases adequadas para o reforço das tradições culturais do país. Dessa forma, não se associa mais o Islã a uma postura retrógrada e avessa as mudanças. O que ocorre é justamente o oposto, tendo a identidade islâmica expressa na moda, na arte, no turismo e na música, integrando-se com a cultura do shopping center.

Nesse contexto, a globalização também é entendida como um elemento positivo para a revitalização das formas de arte local, os objetos e signos culturais, criando assim uma vida cultural mais plural e democrática. Ao mesmo tempo, é importante sua colaboração para expressar as diferenças por meio do discurso da tradição, da localização e da autenticidade, já que é pela globalização do local que uma vida cultural plural passa a existir, possibilitando a democratização da Turquia.

Dessa forma, conclui-se que é mais pela coexistência do que pelo choque a forma a qual se apresentam as interações entre o local e o global.