Arquivo da categoria: Brasil Império

As Ferrovias do Progresso

Durante o século XIX a ferrovia foi considerada como símbolo do progresso. Isso não só porque encurtava as distâncias e transportava rapidamente mercadorias destinadas ao mercado externo, mas também porque trazia as últimas novidades européias a lugares dantes servidos apenas pelas tropas de muares. As estradas de ferro significavam a inserção plena do Império na expansão do capitalismo, possibilitando a chegada de levas de imigrantes para substituir o trabalhador escravo.

O aprimoramento das ferrovias permitia desafogar o sistema de transporte – efetuado por escravos e tropas de muares – a fim de liberar mão-de-obra para a lavoura cafeeira, possibilitando a expansão da cafeicultura. Era necessário também para diminuir os custos do transporte, minimizando as dificuldades de colocação do produto no mercado.

A influência do capital britânico nas ferrovias foi impressionante. Em 1890 eram 25 companhias. Metade do investimento inglês no país, antes da Primeira Guerra Mundial, era aplicada em estradas de ferro.

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A Era Mauá

A segunda metade do século XIX se caracterizou pela expansão do capitalismo. Os donos do capital desejavam não só exportar seus produtos, mas também controlar os países produtores de matérias-primas, através de séries de investimentos no setor de serviços. A Inglaterra, especificamente, participou da construção de ferrovias, melhorias em portos, estabelecimento de companhias de navegação e transportes urbanos. O comércio externo brasileiro sofreu verdadeiro monopólio inglês até a Primeira Guerra Mundial.

Com o fim do tráfico negreiro – estabelecido devido pressão inglesa – as cidades e as primeiras indústrias começaram a crescer graças à realocação dos investimentos. Apesar do domínio da estrutura escravista, estavam lançadas as bases para uma incipiente industrialização. O Estado incentivou essas mudanças, isentando de impostos a importação de maquinaria e tornando o crédito mais acessível aos investidores.

É dentro desse contexto que deve ser entendida a atuação do visconde de Mauá – provavelmente o maior empresário brasileiro do período do Império. Sua associação com o capitalismo britânico foi o que permitiu a modernização do Sudeste do país, e em especial do Rio de Janeiro. O empresário destacou-se grandemente no setor de serviços públicos, transportes, e comunicações, com especial destaque para suas grandes iniciativas no setor ferroviário. Porém, devido as restrições de financiamento dos banqueiros ingleses aliadas as crises diplomáticas no contexto da guerra do Paraguai e a falta de protecionismo do governo imperial, o visconde acabou decretando falência no ano de 1875.

A expansão manufatureira foi freada mediante o predomínio dos interesses agrários. Além disso, deve ainda ressaltar que o Brasil se apoiava em uma estrutura escravista e nas exportações de matérias-primas. O mercado interno era muito pequeno para absolver a produção manufatureira, sendo que qualquer empreendimento industrial tenderia ao fracasso sem que houvesse modificações estruturais.

O Movimento Constitucionalista e a Revolução do Porto de 1820

Quando a família real deixou Portugal, mediante a invasão de Napoleão, a responsabilidade pela administração do país ficou com os ingleses.  Entretanto, após a derrota do imperador francês, a demora do retorno do rei à metrópole fez com que houvesse uma inversão de papéis, conduzindo Portugal a um lugar periférico, como colônia, e o Brasil como sede do império. Em paralelo a isso, ainda que o Congresso de Viena tentasse restabelecer o Antigo Regime – principalmente devido à exaustão provocada pela extensão das guerras napoleônicas e o medo do terror jacobino revolucionário – as idéias liberais ganhavam terreno rapidamente.

Por outro lado, ainda que o governo imperial luso-brasileiro tentasse adotar medidas de emergência para salvar o Antigo Regime, isso não impediu que o edifício absolutista sofresse o primeiro abalo com a Revolução do Porto. Esses liberais portugueses haviam bebido em concepções revolucionárias mais moderadas, e não temiam transformações nas relações de poder. Fatores como o nacionalismo e as transformações estruturais da Revolução Industrial passaram a ser empecilhos a um simples retorno das velhas forças tradicionais. Aqueles que defendiam o fim do Antigo Regime reivindicavam o ingresso do império na modernidade – ainda que não soubessem o que isso significava. Queriam uma monarquia parlamentar regulamentada por uma constituição, a liberdade pensamento, de imprensa, e de associação, e o retorno do rei a Portugal. Dos dois lados do Atlântico circulavam folhetos, jornais e periódicos que discutiam esses ideais revolucionários. Pela primeira vez houve uma preocupação coletiva com a política. Em novos espaços de sensibilidades – tais como cafés, livrarias e sociedades secretas – todas essas questões eram discutidas.

Os governadores do reino não deram muita importância à Revolução do Porto inicialmente, porém, com a adesão de diversas cidades portuguesas, incluindo Lisboa, a situação tomou proporção. A posição dos descontes logo se configurou no movimento constitucionalista, com muitas manifestações até mesmo no Brasil. Em 7 de março de 1821, dom João VI anunciava sua partida para Portugal e a permanência de dom Pedro no Rio de Janeiro.

Negociação e Conflito: A resistência negra no Brasil escravista

Segundo João José Reis e Eduardo Silva, entre a passividade e a agressividade dos escravos havia uma posição intermediária, um espaço de manobra, de indefinição, de negociação e de conflito. Nesse espaço permeava a engenhosidade e o compromisso com o sistema. Os escravos deixam então de ocupar a posição de heróis ou vítimas, para possuir uma autonomia que os historiadores econômicos insistiam em lhes negar. Assim se faziam valer as pequenas conquistas do dia a dia. Dessa forma, os cativos assumem um papel ativo na sociedade, o que se demonstra tanto no plano social, como no econômico, cultural e judicial.

A resistência dos escravos se fazia nesse espaço social. Construíam nessa brecha o próprio viver. No Brasil eles mais negociaram do que lutaram, efetivamente. Sendo que a ruptura só ocorria quando a negociação falhava. Por muitas vezes os escravos organizavam fugas somente para galgar mai privilégios e poder nas negociações. Os cativos sabiam o que era um castigo “justo”; a maior parte dos conflitos ocorreu devido à falta de compromisso dos senhores com os acordos realizados.

Havia sem dúvida um compromisso com o sistema. A fabricação de açúcar nos engenhos, por exemplo, demandava uma das tecnologias mais complexas da época, e não seria viável sem uma negociação. A sabotagem era um perigo constante – uma fagulha no canavial, um dente nas engrenagens ou um limão no tacho podia causar prejuízos imensos aos fazendeiros. Dessa forma, os senhores tentavam durante todo o tempo ser políticos com seus escravos. Cediam certo espaço para os cativos, permitindo divertimentos – pois “escravo que se diverte não conspira”. Em alguns casos cediam inclusive terras para que os escravos tivessem roças próprias.

Conclui-se assim, que os senhores proporcionavam válvulas de escape para as pressões do sistema, sendo que os escravos, por muitas vezes, buscavam melhorias dentro do sistema e não um sistema novo.

Sobre a Política Indiginista do Brasil no Século XIX

É certo que indianismo, movimento artístico e literário desse período exaltava o índio, mas não na sua configuração atual, criou-se uma figura mitológica do bom-selvagem, que remontava aos tupis-guaranis, mesmo que esses não existissem mais naquele momento. O “mau índio” era denominado de botocudo – bravos e arredios aos portugueses.

A grande questão indígena no Brasil do século XIX era, sem dúvida, a luta pela terra. Exterminar a cultura dos povos nativos era uma prioridade, a fim de desapropriar terras para a cultura do café. O governo atuava em diversas frentes: Civilizava, a fim de que o índio perdesse sua cultura, e conseqüentemente, o direito a terra – movimento amparado pela Lei. Tentava diluir o índio na população branca, através do casamento misto e da proibição da língua indígena nas escolas das aldeias. Controlava e domesticava – lançando mão da catequese – para preparar o indígena para o mundo do trabalho. Aqueles que se rebelavam à evangelização (cenário normalmente construído pelos brancos) tinham que deixar a terra ou passariam a ser escravos.

Muitos desses problemas são correntes até o dia de hoje. Aldeamentos comuns, entre tribos inimigas inclusive, e a desconsideração da religião do índio – normalmente ligada ao território geraram muitos conflitos. A tutela do índio – questão que se coloca quando não reconhecemos efetivamente sua autonomia administrativa, querendo decidir de forma imperativa e etnocêntrica o futuro desses povos – é sem dúvida um dos maiores desafios que a nação tem de enfrentar.

Para maiores informações:
CUNHA, Maria Manuela Ligeti Carneiro da . História dos Indios No Brasil (Segunda Edição). 2. ed. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1998. 608 p.

Sobrados e Mucambos

No primeiro capítulo de “Sobrados e Mucambos”  , Gilberto Freyre afirma que, com a descoberta das minas, e a chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, o patriciado rural começou a perder a majestade dos tempos coloniais. E o Brasil, além de tornar-se a colônia mais gorda de Portugal, passou a ser a mais explorada, vigiada, e governada com mais rigor. A própria presença do soberano em terra tão republicanizada, já começava a alterar a fisionomia da sociedade colonial.

A estrutura da colônia – homogênea em diversos sentidos – começava a se transformar. As cidades, as indústrias, e as atividades urbanas ganhavam maior prestígio. Coisa só experimentada antes na rápida passagem dos holandeses pelo nordeste. Surge o gosto pelo bem-estar material, pelas cidades com vida própria, independentes dos grandes proprietários de terras. “E como outrora em Portugal, os reis portugueses do Brasil passaram a prestigiar os interesses urbanos e burgueses, embora sem hostilizar rasgadamente os rurais e territoriais”  . Declina-se aos poucos o amor del-Rey pelos senhores rurais. Novo prestígio é investido nos capitães-generais, nos ouvidores, intendentes, bispos, etc.

No século XVIII emergia uma nova classe, ansiosa de domínio: “burgueses e negociantes ricos querendo quebrar o exclusivismo das famílias privilegiadas de donos simplesmente de terras, no domínio sobre as Câmaras ou os Senados”  . Essa nova classe seria denominada de mercadores de sobrados.

Pelas condições que foram sociologicamente estabelecidas na colonização do Brasil – fundamentalmente agrária – os senhores rurais tinham se habituado a um regime de responsabilidade frouxa em relação aos financiadores de suas fazendas. Mesmo considerando o risco do empréstimo, desde cedo surgiram agiotas, e entre eles muitos judeus – alguns atribuem a eles a fundação da lavoura de cana e da indústria do açúcar no país, além da importação de escravos para as plantações. “Sem o intermediário judeu, é quase certo que o Brasil não teria alcançado domínio tão rápido e completo sobre o mercado europeu de açúcar […]” Foi com os intermediários que a riqueza das cidades parece ter iniciado.

Não foi somente com os senhores de terras que a atividade de usurário foi exercida. Também entre os Mineiros, quando para as minas de ouro e diamantes começou a se deslocar escravos. O judeu usurário ficou conhecido como “comboeiro”: o vendedor de homens a prestações. A força desse intermediário cresceu mais ainda no decorrer do século XVIII e XIX. Sua figura foi enobrecida no banqueiro, no aristocrata da cidade, no comissário do açúcar ou do café. Morador de sobrado de azulejo, andando em luxo, comendo passa, figo e bebendo vinho do Porto.

Acentuou-se com D. João VI o desprestígio da aristocracia rural. Não mais ternura para com os devedores, sempre em atraso. As Câmaras não mais privilégio dos grandes proprietários de terras. Estes tinham agora de lidar com pesadíssimos juros e impostos. Segundo Freyre, “Os engenhos, lugares santos donte outrora ninguém se aproximava senão na ponta dos pés e para pedir alguma coisa – pedir asilo, pedir voto, pedir moça em casamento, pedir esmola para festa de igreja, pedir comida, pedir um coco de água para beber – deram para ser invadidos por agentes de cobrança, representantes de uma instituição arrogante da cidade – o Banco […]”.

Ainda segundo Freyre, as gerações mais novas de filhos de senhores de engenho – educados na Europa, ou em grandes metrópoles – tornaram-se, em certo sentido, desertores da antiga aristocracia rural. Os novos bacharéis, médicos e doutores, agora afrancesados, se tornariam aliados do Governo contra o próprio poder pater famílias rural que seus pais e avós representavam. “As cidades tomaram das fazendas e dos engenhos esses filhos mais ilustres”  . Entretanto, como enfatizará o autor, o poder dos senhores não foi desintegrado de forma tão simples, do dia para a noite, nem a ascensão da burguesia tão rápida. Houve muitas exceções; muitos encontraram alento em seus filhos, outros foram caloteiros para com os judeus da cidade – desviando remessas de açúcar ou de café – e outros até mesmo aumentaram suas fortunas.

Sem dúvida, foi nesse momento de configuração social do Brasil que ocorreu certa integração dos setores da sociedade em torno de um Governo mais forte, de uma Justiça mais livre da pressão de oligarquias ou indivíduos poderosos, e de uma Igreja mais independente. Foi o tempo em que o patriarcalismo urbanizou-se: “menos absorção do filho pelo pai, da mulher pelo homem, do indivíduo pela família, da família pelo chefe, do escravo pelo proprietário; e mais individualismo – da mulher, do menino, do negro – ao mesmo tempo que mais prostituição, mais miséria, mais doença. Mais velhice desamparada”  . Época de Mauá, das fábricas e dos burgueses.

Referência: FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos. Rio de Janeiro. Editora Record. 9ª edição. 1996.

A trajetória da brava gente italiana

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“Prestes a completar 150 anos de unificação, a Itália quer reunir a família. Foi como os responsáveis descreveram o espírito do futuro Museu Nacional da Emigração Italiana (MEI). Previsto para ser inaugurado em setembro, em Roma, será dedicado aos 29 milhões de italianos que, a partir de 1861, deixaram o país para tentar a vida em outros países. O Brasil recebeu 1,5 milhão deles. O museu terá um acervo inédito de documentos, testemunhos em áudio, fotografias, jornais e revistas da época, além de livros, filmes e músicas”.

(http://www2.uol.com.br/historiaviva/noticias/a_trajetoria_da_brava_gente_italiana.html).

O.B.F.: A iniciativa do governo italiano é sem dúvida louvável. Os 29 milhões de imigrantes italianos correspondiam, à época, a quase metade da população da Itália. Foi devido a esse tremendo esforço imigratório que a cultura italiana traspassou as barreiras nacionais, forjando novas identidades para aqueles que emigravam e para aqueles que recebiam os imigrantes. O custo de uma Itália unificada foi, sem dúvida, pago por essas famílias.

SOBRE A IMIGRAÇÃO ITALIANA

Após a guerra de unificação Vítor Emanuel II é proclamado Rei da Itália em 1861. Ainda na década de 60 do século XIX, a supressão das alfândegas regionais, a oferta de produtos industriais a preços reduzidos e o desenvolvimento das comunicações haviam destruído a produção artesanal, atingindo os pequenos agricultores, que complementavam as suas rendas com o artesanato familiar ou o trabalho em indústrias artesanais existentes no campo.  A unificação alfandegária impôs a toda a Itália o sistema alfandegário da Sardenha, que tinha as taxas mais baixas, e fez com que as economias regionais, que eram mais ou menos fechadas e até então conseguiam manter certo equilíbrio, sofressem um violento baque. A disparidade econômica do Norte, que se industrializou mais cedo, e do sul, predominantemente agrícola, agravou o quadro econômico do país. O governo italiano cada vez mais tomava medidas impopulares. Sua preocupação estava mais em obter recursos para a realização de obras públicas do que o bem estar das populações mais carentes. O imposto sobre a farinha, que atingia duramente a classe mais pobre, foi um exemplo.

O problema mais grave estava na total concentração do processo de crescimento no norte, enquanto o sul permanecia agrário. Esta situação econômica fez com que houvesse uma crise na Itália durante o período final do século XIX. O norte foi a primeira área a ser atingida, pois ali começou a se desenvolver a industrialização, deixando os agricultores que complementavam sua renda com o trabalho artesanal sem emprego e sem ter mercado para seus produtos. Por isto, o norte da Itália forneceria as primeiras grandes levas de emigrantes, e o sul só viveria o processo de emigração mais tarde, principalmente a partir do início do século XX.

Um grande movimento migratório de classes rurais para os países das duas Américas ocorreu entre o fim do século XIX e o início do século XX, quando muitos milhões de italianos emigraram. Em face ao desemprego e a miséria, as colônias agrícolas existentes no Brasil eram um grande atrativo. A própria igreja incentivava seus fiéis a conhecerem a nova terra.

Uma  leva gigante de imigrantes italianos – aproximadamente a metade da população da Itália, ou 29 milhões de pessoas – aportou em diversos países da Europa, América do Norte e América do Sul. Especialmente para o Brasil vieram 1,5 milhões de italianos, cujos destinos principais seriam as fazendas de plantação de café no interior de São Paulo, as colônias no Sul, e a construção de ferrovias e colônias agrícolas em outros estados.

A intensificação da propaganda, a construção de ferrovias, a abolição da escravatura e a proclamação da República intensificaram a entrada de imigrantes no Brasil, atingindo-se quotas anuais de 200 mil por ano.

No século XIX a nação brasileira estava passando por um período de fermentação das idéias abolicionistas. Membros do Partido Liberal e do Conservador defendiam a libertação dos escravos, também defendida por intelectuais e jornalistas da época. A Grã-Bretanha, superpotência da época, também estava pressionando o Brasil a acabar com o tráfico negreiro. A Lei Eusébio de Queirós (1850) marcou o início do processo de abolição, proibindo o tráfico negreiro. Portanto, os imigrantes acabaram substituindo a mão-de-obra escrava.

Os imigrantes italianos que se dirigiam para o Brasil eram geralmente desembarcados no Rio de Janeiro ou em Santos; depois, em paquetes nacionais, eram transportados para Vitória (no Espírito Santo), Paranaguá, Itajaí, Laguna, Rio Grande e Porto Alegre. Viagem que durava de 10 a 12 dias. Aqueles que apresentavam atestado de vacina, logo eram encaminhados para o destino, caso contrário, sofriam quarentena.

O governo brasileiro preferia atrair famílias inteiras para o Brasil. Nas plantações de café, todos trabalhavam: homens, mulheres e até crianças. Os fazendeiros, acostumados a trabalhar com escravos africanos, passaram a lidar com trabalhadores europeus livres e assalariados. Todavia, muitos italianos nas fazendas de café foram submetidos a jornadas de trabalho maçantes como as enfrentadas pelos afro-brasileiros. Em muitos casos foram tratados de maneira semelhante a dos escravos. Essa situação gerou muitos conflitos entre os imigrantes italianos e os fazendeiros brasileiros, causando rebeliões e revoltas. As notícias de trabalho semi-escravo chegaram à Itália, e o governo italiano rapidamente passou a dificultar a imigração para o Brasil.

Nos dois ou três primeiros anos, os imigrantes passavam fome e muitas necessidades, pois tudo lhes faltava. Alimentavam-se com brotos de taquara e frutas do mato. O pinhão foi para eles, o que representava o maná para os Israelitas na travessia do deserto. Como os índios, os colonos viviam de caça e pesca. Após realizarem diversas colheitas, tiveram alimento em abundância. O que por muitos anos esteve longe dos bolsos e das mãos foi o dinheiro para comprar sapatos, chinelos, roupas, ferramentas para o trabalho, sal, açúcar, café, pratos, panelas, talheres, etc.

A maioria dos cafeicultores, que durante tantos anos tinham possuído e lidado com escravos, haviam formado em si uma mentalidade escravagista e passaram a tratar os italianos, não como operários, mas como escravos. Por isso, muitos faziam sobre os colonos uma vigilância tipo escravocrata, com multas, falta de liberdade de ir e vir, fiscalização dos horários de trabalho, etc. o fazendeiro, não raro, achava-se no direito de se imiscuir até nos assuntos domésticos dos imigrantes, considerados trabalhadores de segunda categoria, uns semi-escravos. Muitos italianos recém-chegados foram alojados nas senzalas dos escravos ou em habitações coletivas e em casas muito ruins. Os peninsulares deviam se abastecer de víveres nos armazéns dos fazendeiros, a preços abusivos, com o fim de evidenciar os colonos e assim abrigá-los a permanecer naquela propriedade.  Entretanto os próprios italianos, nas fazendas ou nas cidades, fizeram proliferar as “Società di Mutuo Socorso” para se ajudarem e protegerem. A Sociedade Garibaldi, por exemplo, fundada em 1883 permitia compartilhar interesses e necessidades entre os italianos de Curitiba.

Nas colônias do Sul do Brasil, os imigrantes italianos puderam se agrupar no seu próprio grupo étnico, onde podiam falar seus dialetos de origem e manter sua cultura e tradições. A imigração italiana para o Brasil meridional foi muito importante para o desenvolvimento econômico, assim como para a cultura e formação étnica da população. É interessante notar que a imigração começou a ocorrer pouco após a unificação da Itália (1871), razão pela qual uma identidade nacional desses imigrantes se forjou, em grande medida, no Brasil. Os italianos buscam essa identidade quando passam a formar sociedades esportivas, sociais e culturais. (O Palmeiras, time de futebol, é um exemplo).

Embora a imigração italiana fosse, a princípio, quase que exclusivamente rural, com o passar do tempo, muitos dos imigrantes começaram a sair das zonas rurais. Em 1901, por exemplo, 90% dos operários fabris de São Paulo eram italianos.

No Paraná a política imigratória foi motivada pela preocupação com os vazios demográficos. A vinda dos colonos era necessária para resolver o problema da escassez e carestia dos produtos agrícolas. Em 1875, chegou o primeiro grupo e foi fixado em Alexandra, perto de Paranaguá, mas não evoluiu devido ao terreno desfavorável e o abandono a que foram relegados. Em 1877, foi criada a colônia Nova Itália, compreendendo os municípios de Morretes e Antonina. Aqui também as adversidades fizeram com que a maioria se transferisse para o planalto, nas imediações de Curitiba, Colombo e Santa Felicidade, onde até hoje cultivam uva e fazem vinho.

Em 1900, viviam no estado do Paraná trinta mil italianos, espalhados por catorze colônias etnicamente italianas e outras vinte mistas. No início, a maior parte dos imigrantes trabalhou como colonos autônomos, porém com o desenvolvimento do café, passaram a compor a mão-de-obra da região. As maiores colônias prosperaram na região metropolitana de Curitiba. A influência italiana se faz presente em todas as regiões do estado.

Em Curitiba, os italianos chegaram a partir de 1872, estabelecendo-se, como agricultores, em vários núcleos coloniais da região. Esses núcleos deram origem aos atuais bairros de Pilarzinho, Água Verde, Umbará e Santa Felicidade, entre outros. A influência italiana nos usos e costumes da população paranaense pode ser constatada através de sua comida típica e do artesanato em peças de vime, encontrados em Santa Felicidade. A região era a antiga Colônia Santa Felicidade, formada por núcleos coloniais de imigrantes, principalmente, italianos. A ocupação ocorreu de forma mais intensa a partir de 1878, por imigrantes vindos das regiões do norte da Itália. Os italianos dedicaram-se inicialmente à produção de queijos, vinhos e hortigranjeiros. Parte das terras foi doada por Dona Felicidade Borges aos imigrantes italianos. Dona Felicidade também doou seu nome ao bairro.

Segundo o historiador Ruy Wachowichz, a ação da imigração na sociedade paranaense foi sentida da seguinte forma:

  • Lançou as bases para o surgimento de uma classe média rural e urbana;
  • Recuperou a dignidade social do trabalho braçal tanto na agricultura como no meio urbano. O trabalho agrícola e manual deixou de ser considerado vergonhoso e de baixo “status” social;
  • Difundiu pelo Estado os ofícios manuais de ferreiro, carpinteiro, marceneiro, arreador, alfaiate, barriqueiro, etc.;
  • Proporcionou uma verdadeira revolução agrícola na região, com a introdução e difusão do arado de ferro com pá móvel, grade, ancilho, rastelo, gadanha, foice de cortar trigo, soterrador, etc.;
  • Proporcionou subsistência por 80 anos não só à Capital como às principais cidades do interior;
  • Deu início a inúmeras indústrias na capital e no interior;
  • Criou uma arquitetura característica, adaptada tanto ao quadro urbano, quanto ao meio rural;
  • Tornou o Paraná um Estado com população predominantemente branca, com majoritária influência européia.

Crescimento da população do Paraná no século XIX graças à imigração:

Ano Habitantes
1.836 42.890
1.847 47.950
1.854 62.258
1.872 126.722
1.890 249.491

1.900 327.136

Atualmente os italianos representam cerca de 40% da população do Paraná.