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Sobre a governabilidade – Texto do Jabor

As vezes, não sempre, o Arnaldo Jabor brilha. Na crônica de ontem aconteceu de novo. Falando sobre o PMDB e a governabilidade, a velha política, e o caráter plástico do passado corrupto que está enraigado em nossas casas de leis, Jabor nos saboreou com um belo banquete de realidade.

h_ministros_corruptos_no_pmdb_20111128_1270558698Segue o texto:

O neo-PMDB

‘Não sei quem vai ganhar, mas estou numa boa, porque eu já estou eleito’

“O segundo turno está delineado: Dilma x Aécio. Tudo bem. Eu não sei quem vai ganhar, mas estou numa boa, porque eu já estou eleito. Eu sou do PMDB e todos sabem que sem mim ninguém governa o Brasil. Temos interesses, claro. Queremos muitos cargos nos ministérios importantes porque, sem nós, não tem comuna ou liberal ou seringueira que se dê bem.

Não há casamento sem interesse. É belo o interesse. A honestidade alardeada é hipocrisia de teóricos. Não é assim que essa tigrada do PT fala: ‘os fins justificam os meios’? Pois é, nós somos os meios.

Digamos que a presidenta se reeleja; ela virá com a tropa toda para se vingar das campanhas movidas contra o desastre de seu primeiro governo. Mas, nós seremos os para-choques, os amortecedores do desejo utópico que eles professam de tudo controlar. Não conseguirão realizar seu sonho ideológico, esse Frankenstein de ‘bolivarianismo’ com um ‘janguismo’ tardio, um getulismo do Estado Novo, um neoperonismo e neopeleguismo tropical. Nós dissolveremos tudo. Não que sejamos democratas convictos, mas somos os defensores das anomalias criativas que nos formaram. Não entendem?

Explico. O PMDB é um exército de amigos unidos — qual o mal? Admire a beleza superior deste imenso patrimônio espiritual que nós possuímos, tanto em nosso partido como nas alas aliadas. É uma beleza feita de amizades, famílias amplas, burocratas cooperativos. E tem mais: nós do PMDB temos um projeto, sim, para este pais… Um projeto muito mais pragmático, mais progressista que esse dogmas de 1917 — abstrações ridículas como ‘controle social’, ‘comitês centrais’, ‘palavras de ordem’.

Esses comunas pensam que a gente é babaca. São séculos de aprendizado. O PMDB é uma das mais belas florações de nossa história. E nossos fins são sábios, experientes, são frutos de uma grande tradição brasileira que os maldosos chamam de ‘corrupção’, quando são hábitos incrustados em nossa vida como a cana, o forró, nossos bigodes que chamam de ‘brega’, as ancas das amantes risonhas com joias de ouro tilintando diante da palidez infeliz de nossas esposas. Vocês não entendem que isso é a cara do país? Vocês jornalistas reclamam de nossa ‘voracidade’. E os milhares de petistas que invadiram o batatal do poder para comer tudo, os ex-pelegos hoje de gravata? Quem disse que eles são mais brasileiros do que nós? Eles são clones, covers de leninistas antigos, são russos ou cubanos ou venezuelanos honoris causa.

Nosso projeto é mais Brasil… ‘São coisas nossas, muito nossas…’, como cantou o Noel. Nosso projeto é uma girândola de malandragens, de negociatas que deixam cair pelas brechas das maracutaias migalhas de progresso. É isso aí: tudo o que houve de bom no país foi fruto do adultério entre o privado e o público.

Não, caro jornalista, não há corrupção no PMDB — trata-se apenas da continuação de um processo histórico. O dinheiro que arrecadamos em emendas do orçamento, em gorjetas justas entre empresas e burocratas, não pode ser tratado como ‘corrupção’ de uma maneira simplista. Esse dinheiro sempre foi a mola do crescimento do país. Haveria Brasília sem ela? Onde estaríamos nós — na roça de um país agropastoril? Essa é a eterna verdade desde a Colônia, tão eterna quanto a miséria que sempre haverá. A classe dominante deste país é uma grande família, unida por laços de amizade total, mesmo que definhe sob nossos pés a massa de escravos em seus escuros mundos.

Ai, que angústia! Eu queria estar no futuro. Quem ganhará no segundo turno? A gorda brizolista ou o tucano pós-moderno?

Se o Aécio for presidente, ao menos ele conhece a dinâmica de nossos processos, ele é neto de um grande negociador que nos entendia bem.

Se Dilma ganhar e quiser nosso apoio para governar, ela vai penar. Que contrapartidas ela nos dará? Quanta grana para a nossa cumbuca? Se ela nos olhar com o mesmo desprezo com que julga os parlamentares, se quiser nos dar esporros e enganações, ela vai quebrar a cara, vai ter de botar o galho dentro.

Hoje, o PMDB tem uma missão mais séria do que nunca. Temos a fama, a pecha, a nódoa, a tacha de sermos oportunistas e desonestos. Tudo bem, temos esses traços de caráter em nossa formação, mas agora conquistamos uma nova ideologia. Somos herdeiros do velho MDB, que já teve uma grandeza abstrata, até meio ridícula, com aqueles sonhos ideais do Ulysses Guimaraes, (oh, velho ingênuo). Agora temos uma meta, uma tarefa muito mais profunda: manter o Brasil em banho-maria contra mudanças e novidades. O PT, que nos desprezava, ‘desapropriou’ muito mais do que nós e, justiça feita, repartiu (se bem que contrafeito) parte de seus lucros conosco.

PMDB-chargeVai surgir um novo PMDB, muito além da velha guarda de Sarney, Renan e outros. O neo-PMDB é muito mais aguerrido, com consciência de sua missão: impedir que o Brasil entre em delírio utópico de comunas malucos e impeça o livre funcionamento da boa e velha política parlamentar. Vigilantes, seremos a peneira da nacionalidade.

Nós somos muito mais o Brasil profundo do que esse bando de falsos revolucionários que chegaram ai, com um sarapatel de ideias superadas de um leninismo mal lido, um getulismo tardio e um desenvolvimentismo sem JK. Só o PMDB explica o Brasil de hoje. Eu, por exemplo: tenho 400 anos desde meu bisavô negreiro e tataravô degredado. Eu tenho raízes, tradição. Durante quatro séculos, homens como eu criaram capitanias, igrejas, congressos, labirintos.

Mas, Dilma, não se preocupe. Eu sou otimista — acho, sim, que a aliança PT-PMDB poderá ser doce e linda. Mas, do nosso jeito: vaselina, mãos nas coxas, só a cabecinha, nada de penetrações radicais. Tudo bem que censurem a imprensa e coisas menores, mas em nosso passado de donatários ninguém toca.

Temos no peito o orgulho de proteger a sobrevivência de nossa colonização portuguesa.

O PMDB é a salvação da democracia; suja, mas muito nossa.”

O texto se encontra em http://oglobo.globo.com/cultura/o-neo-pmdb-14163845

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O Fazer-se da Classe Operária no Brasil

A visão tradicional é que a formação da classe operária é um fenômeno puramente econômico, associado ao surgimento da indústria. Entretanto, considerar classe como efeito mecânico da estrutura implica, necessariamente, em desconsiderar que os trabalhadores em si tivessem interesses coletivos construídos na experiência comum.

A classe operária no Brasil se desenvolveu logo após as profundas transformações mundiais impostas pela Grande Guerra e pela Revolução Russa. Desde o século XIX, porém, já começava a aparecer uma considerável camada proletária, sobretudo no eixo Rio – São Paulo.

No início do século XX, o trabalhador urbano vivia em péssimas condições. Não havia leis trabalhistas, e cada fábrica possuía o seu próprio código de normas. Como forma de defesa, os trabalhadores começaram a se unir em ligas de auxílio mútuo, e a realizarem comícios, passeatas e, sobretudo, greves. Nesse contexto as idéias anarquistas e socialistas começaram a ganhar destaque.

Os anarquistas, baseados nas considerações de Bakhunin, defendiam a idéia de que a liberdade é necessariamente coletiva, e só poderia se realizar em uma sociedade igualitária e solidária. Entendiam que a autoridade estatal nasce de uma minoria, e sempre que o Estado tentasse impor algo, sua ação seria nefasta, pois estaria sobrepujando a liberdade.

No Brasil, os anarquistas defendiam a eliminação do poder da Igreja e da classe dominante, a destruição da burguesia e do Estado, o fim das desigualdades sociais e a supressão do capitalismo. Para isso propunham a luta operária por meio de greve geral. Eram contra qualquer instituição partidária, o que os colocava fora do jogo político. Por todo o país defendiam a organização de sindicatos, pois entendiam que seria mediante esses órgãos que se daria a luta operária, entretanto, no futuro deveriam ser extintos. A partir dos anos 20, porém, os anarquistas estavam enfraquecidos devido a falta de coesão entre os sindicatos, e o ideário foi então, dando lugar à crescente ideologia comunista. Os líderes anarquistas logo perceberam a necessidade de se organizar e, tão logo tiveram contato com as idéias marxistas, e com o intuito de centralizar o movimento operário, se reuniram e fundaram, em 1922, o primeiro partido nacional (só haviam regionais) o Partido Comunista do Brasil.

O Nome e a coisa: O populismo na política brasileira

No texto “O Nome e a Coisa: O Populismo na Política Brasileira”, o historiador Jorge Ferreira faz um balanço da historiografia que tematiza o período varguista. Segundo o autor, a história como tem sido contada retoma uma longa tradição intelectual, reforçada por um tipo de marxismo que defendia um modelo específico de classe trabalhadora – e um caminho único a ser seguido.   Se a classe não surgia como se imaginava, a explicação só poderia ser encontrada no poder repressivo do Estado, na manipulação ideológica e, ainda, nas práticas demagógicas das políticas populares. Ferreira afirma:

Liberais e autoritários, de direita ou esquerda, diagnosticaram que s males do país provêm de uma relação desigual, destituída de reciprocidade e interlocução: a uma sociedade civil incapaz de auto-organização, “gelatinosa” em algumas leituras, e a uma classe trabalhadora “débil”, impõe-se um Estado que, armado de eficientes mecanismos repressivos e persuasivos, seria capaz de manipular, cooptar e corromper .

Mediante este contexto historiográfico, Jorge Ferreira busca não apenas compreender o período de 1930 a 1964 – momento de regência do populismo –, como também entender como esse conceito foi se desenvolvendo ao longo do tempo como categoria para explicar a política específica do período.

Para o autor, nos anos de 1950 e 1960 a teoria da modernização repercutiu com grande impacto nos meios acadêmicos do país, em especial para a configuração da noção de populismo. As aplicações do conceito na política brasileira se deram a partir do estudo de alguns sociólogos que acabaram denominados de Grupo de Itatiaia. Esses intelectuais acreditavam que o populismo era um fenômeno ligado à modernização da sociedade e, principalmente, ao processo de proletarização dos trabalhadores. A partir da teoria da modernização, afirmavam ter havido um período de transição entre uma sociedade tradicional para uma moderna – num deslocamento de população do campo para a cidade, do agrário para o industrial. É nesse sentido que Luiz Werneck Vianna afirmava:

Os trabalhadores originários do campo e das pequenas comunidades no interior, quando instalados nas cidades, não se identificariam completamente como operários industriais, tendendo a se comportar de acordo com seus “interesses pessoais”.

Dessa forma, os trabalhadores deixariam transparecer uma concepção individualista que traziam do mundo tradicionalmente agrário. Também não conseguiam explicitar a consciência de uma identidade coletiva, sendo este o princípio que explicava, naquele momento, o surgimento de uma classe desprovida de um ímpeto revolucionário e, por isso, vulnerável a política populista e a propaganda ideológica. Além disso, após o golpe de 1964, o populismo surgiu nas Ciências Humanas no Brasil como “fator explicativo para a fraqueza do movimento operário e sindical diante da investida, verdadeiramente fulminante, da direita civil-militar”.

Entretanto, segundo Ferreira, na virada dos anos 70 para os 80, as definições do populismo, como até ali formuladas, começaram a dar sinais de enfraquecimento. A teoria da modernização não mais satisfazia os historiadores. Era necessário desvendar o porquê do apoio dos trabalhadores ao ditador, mesmo mediante a um contexto tão sufocante como fora o período varguista. Por outro lado, o autor afirma que havia uma premissa, encontrada nos estudos de Weffort, nos anos 60, que ainda persistia entre os historiadores da década de 1980: “o populismo impôs-se pela conjugação da repressão estatal com a manipulação política, embora a chave de seu sucesso tenha sido a satisfação de algumas demandas dos assalariados”. Nesse sentido, ainda que a nova geração de estudiosos tenha rejeitado algumas premissas – as determinações sócio-estruturais nas organização da classe trabalhadora, a influência negativa dos camponeses no meio operário, a teoria da modernização – “a premissa central sugerida por Weffort, repressão, manipulação e satisfação, continuou presente”.  Assim, nesse período, surgiram diversos trabalhos que defendiam um Estado autoritário que recorria a duas práticas distintas: repressão policial ao movimento operário e sindical, e propaganda e doutrinação políticas para inculcar nas mentes das pessoas ideais, crenças e valores baseados na ilusão.

Segundo Ferreira, o que se questiona nesses trabalhos é a abordagem a partir de “paradigmas explicativos, ao mesmo tempo opostos e complementares, centrados na repressão e na manipulação, ambos surgindo como formas de violência estatal sobre os assalariados, física em uma dimensão, ideológica em outra”.  O mito Vargas, segundo o autor, não foi criado simplesmente na esteira da propaganda política, esse conjunto de experiências efetivamente alterou a vida dos trabalhadores.

Entretanto, ainda na década de 1980, houve tentativas de se abandonar a noção de populismo. Vários autores trabalharam com a idéia de “controle social”. Desde a década de 1910, mediante o avanço da mobilização dos trabalhadores, novas formas de dominação política foram implementadas. Surgiram especialistas em diversas áreas – saúde, educação, direito, habitação, etc. – os quais buscavam “conhecer” o operário, a fim de controlá-lo. Desenvolveram um discurso científico, que havia de colocar a ordem social, não mais sob os auspícios da política, mas sob o controle de um saber “neutro” e técnico – desqualificando os operários em seu próprio saber, e destituindo-os da legitimidade de falarem por si mesmos e pela sociedade.  O enfoque do “controle social”, ainda que não se opusesse, necessariamente, ao binômio repressão-propaganda, surgia como alternativa.

No início da década de 1990, historiadores procuraram aproximar a experiência varguista aos regimes totalitários de Hitler e Stálin. Segundo Ferreira, a inovação é apenas aparente, pois, mais uma vez, a repressão e a propaganda, pressupostos centrais da análise, permanecem inalteradas. O autor lembra-nos ainda da preocupação de Marc Ferro, que qualifica esse tipo de aproximação como “banalização do nazismo” , movimento que minimiza e dilui os horrores perpetrados pelo III Reich.

Durante décadas o populismo tem sido enfatizado como uma via de mão única, de cima para baixo. Entretanto, segundo Ferreira, apreender a sociedade como vítima indefesa, é atribuir a culpa da inexistência da cidadania apenas ao Estado, enquanto este só existe enquanto relação dicotômica: não se separa partes de um mesmo todo.

Para o autor, é na perspectiva da história cultural que se pode negar o monopólio das classes dominantes na produção de idéias. Seja no conceito de circularidade cultural em Ginzburg, ou no entendimento das apropriações como um processo de resignificação das idéias dominantes em Chartier, muitos historiadores brasileiros, sem abandonar os próprios métodos de trabalho, passaram a utilizar o conceito de cultura. Ferreira afirma:

Em suas pesquisas, eles avaliaram que estas “pessoas comuns”, embora oprimidas por um poder que, muitas vezes, escapava à sua compreensão, necessariamente não se deixaram iludir ou manipular.

Assim, os historiadores que tomaram como objeto períodos anteriores a 1930 não tiveram grandes dificuldades para interpretar as práticas e representações dos trabalhadores e populares. No entanto, segundo o autor, “ainda são poucos aqueles que incorporaram o enfoque cultural nas reflexões sobre a história política brasileira após 1930”. Mesmo Thompson, que tem sido muito apropriado no Brasil – e cuja análise do fazer-se da classe operária deveria ser de fundamental importância, pois inviabiliza a noção de populismo – somente em poucas ocasiões ultrapassou a data tabu de 1930.    Ainda na esteira de Thompson Ferreira afirma:

No caso brasileiro, como em outros, tratou-se de uma relação, em que as partes, Estado e classe trabalhadora, identificaram interesses comuns. No trabalhismo, estavam presentes idéias, crenças, valores e códigos comportamentais que circulavam entre os próprios trabalhadores muito antes de 1930. Compreendido como um conjunto de experiências políticas, econômicas, sociais, ideológicas e culturais, o trabalhismo expressou uma consciência de classe, legítima porque histórica.

Nesse sentido os trabalhadores deixam de serem simples objetos de manipulação para “viver sua própria história”. Essa foi a abordagem, que a partir de fins dos anos 90, começou a ganhar força. Por outro lado, apesar das críticas, a expressão populismo passou a fazer parte da linguagem corrente da cultura política nacional. Ainda que sua utilização acabe por se remeter à bestialização do povo – idéia já desconstruída pela História Cultural.

Para saber mais:
FERREIRA, Jorge. O Nome e a coisa: O populismo na política brasileira. In: FERREIRA, Jorge (Org.). O Populismo e sua história: debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. p. 59-124.

O nacional-desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek

O nacional-desenvolvimentismo, durante a administração do presidente Juscelino Kubitschek, se consolidou como um estilo de governo e projeto social para o Brasil, tomando parte no imaginário de boa parte da população brasileira. O slogan “50 anos em 5” lembra a onda de crescimento que nos deu, entre outras coisas, a capital federal Brasília. Foi grande o esforço no sentido de integrar o litoral e o interior do país, e de intensificar o desenvolvimento industrial capitalista, no contexto da democracia. No conjunto, essa ampliação da indústria multiplicou os empregos urbanos e trouxe, às camadas médias, novos produtos de consumo, antes pouco acessíveis, pois obtidos pela via da importação.

No contexto da frágil democracia brasileira, foi somente através da propaganda da ideologia do desenvolvimento que foi possível convencer proletários, camponeses e a classe média, a sustentarem um objetivo que, por fim, visava a consolidação de uma burguesia industrial. Ofertava-se, entretanto, o desenvolvimento nacional como algo de “todos para todos” (p. 165), e cujo resultado seria a transição do Brasil para o mundo das nações ricas e modernas. Obviamente que, sob a ótica do Plano de Metas – proposto por JK – as realizações foram uma proeza, e o desenvolvimento realmente foi sentido pelos brasileiros – em especial nos centros urbanos. Porém, em paralelo a isso, em dois pontos cruciais o governo juscelinista deixou margem para a crítica.

Primeiramente, durante sua administração – os chamados “Anos Dourados” – a nação não contava com uma poupança interna capaz de financiar as obras, “diante desse quadro, Juscelino implementou grande parte do Plano de Metas emitindo papel moeda e incentivando a instalação de multinacionais no país, o que resultou na ampliação da presença do capital internacional na economia brasileira”. Diversos setores do movimento nacionalista faziam frente a utilização desses recursos; qualificavam-no como “capital colonizador” – atrelando-o à lógica do imperialismo. Essa dependência internacional poderia liquidar a chance do desenvolvimento brasileiro satisfazer os interesses das camadas populares.

Em segundo lugar, JK prezou pela manutenção do modelo das oligarquias rurais. O governo entendia que as perspectivas de desenvolvimento ficariam comprometidas se a integração territorial e econômica não fosse intensificada. Entendia que o desenvolvimento do interior geraria, invariavelmente, mercado consumidor interno, além de ampliação do fornecimento de matéria-prima para a indústria. Segundo Vânia Moreira, a construção de Brasília foi um dos meios que permitiram a JK fortalecer a indústria, sem entrar em rota de colisão com os interesses dos grandes latifundiários. As oligarquias rurais tinham grande interesse em ampliar as fronteiras agrícolas. Nesse sentido, a autora afirma:

O projeto ruralista opunha-se, desse modo, às principais propostas defendidas por nacionalistas e trabalhistas: a extensão da legislação social e trabalhista à população do campo, a distribuição de pequenas propriedades por meio da reforma agrária, a inibição do latifúndio, sobretudo o improdutivo, pela via fiscal e a democratização das relações políticas no campo, já que a maioria dos virtuais eleitores rurais era analfabeta.

Ainda que o projeto de JK defendesse maior integração entre indústria e agropecuária, além da modernização da agricultura, excluía a grande maioria da população rural – na época 70% da população vivia no campo ou em cidades com menos de dois mil habitantes.

É certo que, não obstante as grandes obras de infra-estrutura – o que efetivamente trouxeram grande brilho ao governo JK – foi uma administração que reproduziu as desigualdades da sociedade. Nesse sentido, não houve um esforço real. Essa crítica não pode desaparecer.

Para saber mais:
MOREIRA, Vânia Maria Losada. Os anos JK: industrialização e modelo oligárquico de desenvolvimento. In: FERREIRA, Jorge (org.). O Brasil Republicano. O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 160.

As Ligas Camponesas do Brasil nas décadas de 50/60

O período que vai desde a criação das Ligas Camponesas, até o golpe militar de 1964 colocou as lutas sociais do meio rural em evidência na imprensa nacional. A primeira grande reportagem foi a de Antonio Callado, do jornal Diário da Manhã, que percorreu o Nordeste, e denunciou a “indústria da seca” – modo como os grandes proprietários de terra transformavam os problemas da seca em grande negócio, e como os açudes construídos com verbas públicas para o benefício de toda uma população rural acabavam servindo a uns poucos latifundiários. Callado relatou também a luta dos moradores de Galiléia para desapropriação do engenho – projeto encaminhado ao Governo do Estado – desses camponeses tornou-se, nos final da década de 1950, um símbolo de resistência para uma parcela da sociedade, enquanto para outros representava o avanço do comunismo e a ruptura da pax agrária.

Quando o juiz responsável pelo processo deu parecer favorável à desocupação das terras pelos moradores em débito, Callado rapidamente tomou partido em favor dos camponeses, afirmando que somente o projeto de desapropriação podia evitar o conflito. Em resposta o proprietário do engenho acionou tanto o jornalista quanto o deputado Francisco Julião, por incitarem o descumprimento do mandado de despejo. A Câmara Federal, por sua vez, emite uma moção de apoio a Callado com mais de cem assinaturas de parlamentares. Em última instância era o debate da reforma agrária que estava em pauta. Sob pressão dos trabalhadores, o governo assina a desapropriação do engenho. No bojo dessas disputas, e após intensa negociação, é criada a SUDENE, num esforço para industrializar o Nordeste.

Nesse meio tempo o jornalista do The New York Times, Tad Szulc, viaja ao Nordeste. A matéria, intitulada “Pobreza no Nordeste do Brasil gera ameaça de revolta”, não deixa dúvidas ao leitor americano que uma revolução comunista iminente está para ocorrer no país, e que os interesses dos Estados Unidos na região – inclusive como ponto de apoio ao lançamento de mísseis intercontinentais – poderiam ser comprometidos. Em paralelo, a Igreja Católica também se encontra preocupada com o avanço do comunismo. Desde a década de 1950, setores da Igreja vinham recomendando ao governo que se desenvolvesse uma política de reforma agrária, como forma de resolver as graves condições de vida e trabalho dos camponeses. Nesse sentido, a instituição buscava não perder os laços com os camponeses, como referência espiritual – a exemplo do que havia acontecido com os operários no século XIX. Pois com a organização dos trabalhadores, a tradição da Igreja vinha sendo radicalmente questionada, vista sempre como aliada dos grandes proprietários e forças políticas oligárquicas. Fosse através da crítica dos comunistas – religião como ópio do povo – ou mediante o contraste entre os ensinamentos de Jesus e o apoio eclesiástico aos grandes proprietários, o temor da perda do campesinato, desta vez, mobilizava as autoridades religiosas em favor dos pequenos.

Em face à ausência de sindicatos rurais, as Ligas tornam-se um caminho alternativo de organização e mobilização das massas de trabalhadores rurais. Após a desapropriação de Galiléia, elas se expandem para o Norte e o Sul do Brasil. Entretanto, após o primeiro de maio de 1962, quando o ministro do trabalho André Franco Montoro anuncia a aprovação de diversas cartas sindicais, abre-se uma disputa entre católicos, comunistas e as Ligas pelo controle dos sindicatos rurais. A partir desse momento, os sindicatos, antes considerados uma ameaça à paz agrária, passam a ser vistos como forma de barrar o avanço das Ligas Camponesas.  A sindicalização em massa irá contribuir para esvaziar as Ligas, que perde a hegemonia no movimento rural. Nas palavras de Antônio Torres Montenegro, “o golpe de 1964 irá interromper toda essa experiência histórica”.

Para saber mais:
MONTENEGRO, Antônio Torres. Ligas Camponesas e sindicatos rurais em tempo de revolução. In: FERREIRA, Jorge. (Org.) O Brasil Republicano. O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. p. 256.

O Modernismo: Raízes e rupturas

No contexto internacional das transformações, e da aceleração do processo urbano industrial, marca  principal do final do século XIX, os intelectuais do Brasil buscavam definir a especificidade de ser brasileiro.

“O que é tempo? É a brisa fresca e preguiçosa de outros anos ou esse tufão impetuoso que parece apostar corrida contra a velocidade?” (Machado de Assis: 1894).

A Guerra do Paraguai – maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul – representou um divisor de águas para a geração de intelectuais de 1870. Por intermédio das obras desses pensadores é possível identificar a mudança de percepção e sensibilidade sociais, traduzidas pelos desejos de mudanças estruturais em nossa política. Um dos marcos da modernização brasileira é o Manifesto Republicano de 1870. Entre esses intelectuais destacavam-se Euclides da Cunha, Tobias Barreto, Silvio Romero, Graça Aranha e Capistrano de Abreu.

A nacionalidade era a matéria-prima que deveria ser trabalhada pelo saber científico. Ser moderno implicava obter o significado de ser brasileiro, se reconhecer como nação, conhecer seu passado, sua brasilidade, longe de uma história européia de domínio português. Marcam desse período vários estudos sobre as diversas etnias, que buscavam encontrar uma identidade nacional. Entretanto, prevalecia ainda uma visão de darwinismo social – estágios de desenvolvimento – sendo que era entendido como missão, para os intelectuais, dirigir o processo de desenvolvimento e nacionalidade. Isso só poderia ocorrer mediante o reconhecimento da pluralidade e do recenseamento da nossa cultura.

É necessário compreender que, entre o pensamento dos intelectuais de 1870, e os da geração de 1920 há uma continuidade filosófica.  Mario de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, entre outros, produzem suas obras dentro de um contexto já em desenvolvimento desde metade do século XIX. Embora a primeira geração seja caracterizada pelo autoritarismo no que concebe a organização social, ela ja demonstrava a presença de uma sensibilidade modernista – desbravando outros Brasis – e que deve ser entendida como vínculo fundamental tanto com os intelectuais paulistas como com os intelectuais caricaturistas do Rio de Janeiro que utilizavam o humor como instrumento de crítica –  este último grupo composto por nomes como os de Emílio de Menezes, Lima Barreto, José do Patrocínio, etc.

Algumas definições importantes:

  • Modernidade: Etapa Histórica.
  • Modernização: Processo sócio-econômico que constituirá a modernidade.
  • Modernismo: Processos culturais que renovam práticas simbólicas com sentido experimental ou crítico

Para saber mais: VELOSO, Monica P. O Modernismo e a questão nacional. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucila de A. N. O Brasil Republicano: o tempo do liberalismo excludente. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. p. 253-385.

O Velho – A história de Luiz Carlos Prestes

O documentário “O Velho – A História de Luiz Carlos Prestes” do diretor Toni Venturi, perpassa toda a vida de um dos personagens mais perseguidos do século passado, o líder do Partido Comunista Brasileiro, Luiz Carlos Prestes.

O filme mostra a épica marcha de 25.000 km da Coluna Prestes nos anos 20, quando o líder era ainda capitão e suas relações políticas com Getúlio Vargas. Trata de sua transferência para a União Soviética – quando aprofundou seus conhecimentos marxistas – e de seu retorno clandestino ao Brasil.

Foi na viagem de volta que Prestes conheceu Olga Benário, que posteriormente seria entregue à Hitler por Vargas. Olga morreria em um campo de concentração na Alemanha.

A partir de 1935 Prestes se alia à ANL – Aliança Nacional Libertadora, sendo conclamado presidente de honra da instituição e exigindo a derrubada de Vargas. Com essa posição o movimento é colocado na ilegalidade e Prestes comanda a Intentona Comunista, uma frustrada tentativa de tomada de poder que desencadeou um violento processo de repressão e prisão contra os comunistas. Em 1936 Prestes é preso e condenado à prisão; nove anos depois é anistiado pelo Estado Novo. Elege-se senador, mas devido à cassação do registro do PCB, Prestes é novamente colocado na clandestinidade.

Com o golpe militar de 1964, foi novamente perseguido e, ao final dos anos 60 exilou-se na União Soviética só regressando ao Brasil em 1979 devido à anistia.

A partir de 1982, devido a divergências no PCB, junto a diversos militantes, uniu-se ao PDT, lutando pelo não pagamento da dívida externa e pela eleição de Leonel Brizola.

Luis Carlos Prestes morreu aos 92 anos de idade no Rio de Janeiro.