Arquivo da categoria: História e Cinema

Um Homem Invictus

Nelson Mandela é um homem que não foi derrotado; é um homem invicto. Após quase 30 anos na prisão sob a linha segregacionista do regime apartheid, Mandela saiu da cela prisional para o salão presidencial. Com o poder nas mãos, ele tinha tudo para encarnar os temores de uma grande parcela dos brancos da sociedade sul-africana: vingança, revanchismo, ajuste de contas. Com o poder nas mãos, ele tinha tudo para incorporar as expectativas de uma grande parcela dos negros sul-africanos: idem, idem, idem. Mandela, porém, superou os preconceitos e medos de todos os lados ao propor a construção de uma nova sociedade baseada na reconciliação. Para tanto, duas decisões foram significativas. Primeiro, a realização do chamado “Comissão da Verdade e da Reconciliação”. Em vez de estimular uma caça aos promotores sanguinolentos do apartheid ou conduzir uma anistia ampla e irrestrita apenas como forma de esquecimento dos horrores da segregação racial, aquele tribunal colocava cara a cara ofensores e ofendidos. Como uma espécie de tribunal moral, ali começava o processo de pacificação sem o qual o país mergulharia na vingança sem fim.

A outra forma de reagregar o país dividido foi a decisão de Mandela de incentivar a conquista da Copa do Mundo de rugby pela seleção sul-africana, no ano em que a sede do evento seria a África do Sul. A divisão racial tinha levado os negros a identificar a seleção nacional como um símbolo da supremacia branca, o que os fazia torcer sempre pelo adversário em campo.

Uma história dessas não poderia deixar de virar filme. E no filme chamado Invictus, de Clint Eastwood, conta-se como Mandela planejou a nova sociedade sul-africana, dentre outras formas, usando o esporte como elemento unificador. Numa cena marcante, os jogadores da seleção sul-africana visitam o lugar onde Mandela esteve preso. Ali, o capitão da equipe se pergunta, Como alguém passa tanto tempo na prisão e ainda sai disposto a perdoar todo mundo?

A reconciliação foi uma escolha racional de Mandela. Na cela apertada, seu espírito voava. E ali, ele decidia ser o senhor do seu destino. Costumamos desresponsabilizar o indivíduo e criminalizar a sociedade. Claro que as estruturas sociais deixam poucas opções ao sujeito discriminado e marginalizado social e economicamente. Mas ainda há chances de escolhas e a consequência delas não pode ser creditada unicamente ao presidente, ao delegado, ao pastor, aos amigos, ao diabo.

Mandela, representado com a dignidade principesca do ator Morgan Freeman, recitava para si, na prisão: “Eu sou o senhor do meu destino, eu sou o capitão da minha alma”. Em diversas oportunidades, nossas escolhas revelam o que queremos ser e o que devemos fazer. E até onde estamos dispostos a ir por nossos propósitos e princípios.

No país que esperava vingança, ele dava o exemplo de justiça. Embora tivesse defendido o enfrentamento armado durante parte de sua vida de luta contra o regime opressor, ele não foi derrotado pelas algemas do apartheid nem pelo revanchismo nos tempos da cólera racial. Por isso, tornou-se um homem invicto.

Respondendo à pergunta, Como alguém passa 27 anos na prisão e sai disposto a perdoar?

É que, em tempos de ódio e intolerância, não há gesto mais revolucionário que o perdão.

(Joêzer Mendonça, Nota na Pauta)

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Silêncio Violado

“A televisão mutilou nossa capacidade de solidão, violou nossa dimensão mais íntima, mais privada, mais secreta. Acorrentados por um ritual invasor, fixamos um quadro luminoso que vomita milhares de coisas que se anulam mutuamente, numa vertiginosa espiral. A paz só vem quando se desliga. Às onze horas, à meia-noite, pesa sobre nossos ombros um grande e obrigatório cansaço. Vamos para o nosso leito carregados de uma vaga má consciência e, no escuro, os olhos fechados, tentamos restabelecer o vínculo, com o fio rompido, do silêncio interior que nos pertencia…” (Frederico Fellini, Le Monde, 15/01/1982).

Cinema: O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland: 2006)

“O Último Rei da Escócia”, filme de 2006 dirigido por Kevin Macdonald, conta a história do instável e carismático ditador Idi Amin, que governou Uganda de 1971 a 1979, vista pelos olhos de um jovem médico escocês. Acontecimentos verídicos, como os massacres de Amin, sua vida e o seqüestro palestino de um avião são misturados no filme com ficção. A própria existência do médico é fictícia. Apesar de todas as crueldades do ditador, a produção se limita a mostrar a complexidade do personagem, cujo lado humano e gentil grita muito mais do que suas crueldades.

Amim nasceu no interior e serviu no exército britânico durante a época em que o país ainda era uma colônia inglêsa. Após 1962, com a independência, tornou-se chefe do exército sob o comando do presidente Milton Obote. Em 1971 liderou um golpe militar que destituiu Obote, tornando-se líder de Uganda. O regime imposto foi brutal, cerca de 300 mil pessoas foram assassinadas.

Durante o período que governou, o ditador expulsou empresários asiáticos, paquistaneses e indianos  – cerca de 90 mil foram expulsos. Além disso, arruinou a economia do próprio país, e criou o símbolo ditatorial africano. Foi finalmente deposto em 1979, falecendo em 2003. Os ugandenses reagiram com uma mistura de sentimentos, do alívio pela morte, a uma nostalgia gerada pela expulsão dos asiáticos que dominavam a economia.

Cinema: Amistad (1997)

“Amistad”, ou amizade, é o nome do navio negreiro que dá título ao filme de Steven Spielberg, lançado em 1997. A película é baseada em uma história real ocorrida em 1839. Nessa data os escravos que eram transportados da África se rebelam e assumem o comando do navio. Entretanto, como desconheciam os mecanismos de navegação, numa frustrada tentativa de voltar ao seu país de origem, acabam sendo capturados por um navio americano na costa dos Estados Unidos.

Talvez o que mais chame a atenção no filme seja a forma brutal em que os negros eram tratados durante o transporte transatlântico. Os escravos eram mantidos sob péssimas condições. Recebiam pouca comida e água, sofriam estupros, e eram mantidos acorrentados em espaços muito pequenos. Além disso, muitos contraiam doenças que, naquelas condições, eram fatais. Poucos conseguiam sobreviver à viagem.

No caso do “La Amistad”, os escravos acabam indo a julgamente, inicialmente pelo assassinato  da tripulação, porém, quando o caso ganha vulto, chegando a suprema corte, um jogo de interesses se coloca acima da liberdade dos indivíduos, sendo que a coroa espanhola, os traficantes de escravos e os comerciantes americanos reclamavam o direito de posse sobre os escravos. A partir desse quadro o ex-presidente John Quincy Adams deixa sua aposentadoria para defender os africanos, assumindo uma posição abolicionista.

O filme acompanha toda a longa batalha judicial que se deu por sobre a questão, e a trajetória do grupo de 53 negros, desde o seu aprisionamento por traficantes de escravos até o retorno ao continente africano. Dá ainda mostras de um antagonismo norte-sul que desembocaria na Guerra Civil Americana poucos anos depois.

Cinema: Jornada pela Liberdade (Amazing Grace: 2006)

O filme “Jornada Pela Liberdade” (Amazing Grace, 2006), do diretor Michael Apted, conta a história da luta pelo fim do tráfico negreiro na Inglaterra do século 18. O filme é uma biografia de William Wilberforce, membro do parlamento inglês que enfrentou a aristocracia, lutando por uma reforma social na Europa. Durante esta jornada, Wilberforce encontra oposição intensa dos que acreditavam que a escravidão estava diretamente ligada à estabilidade do império britânico. Wilberforce encontrou em seu amigo William Pitt – o mais jovem primeiro ministro da Inglaterra – um forte aliado; ambos se opunham à escravidão por razões morais. Wilberforce liderou os militantes abolicionistas protestantes chamados de “Os Santos” (The Saints).

É importante ressaltar que William Wilberforce não foi uma voz isolada, mas um representante de toda uma grande parcela da sociedade que estava desejosa de por fim à escravidão. Mesmo economistas, e entre eles Adam Smith, já viam a escravidão como deficitária, na medida em que empregava uma enorme quantidade de capital humano, mas que produzia muito aquém daquele gerado por homens livres. A emergência da sociedade industrial demandava o fim do sistema escravista.