Arquivo da categoria: História Medieval

Nas profundezas da selva do Camboja…

Análises de pesquisadores australianos revelam complexo de templos e elaborada rede de avenidas, diques e lagos artificiais no Camboja.

13out2014---cidade-medieval-permaneceu-escondida-ate-seculo-19-1413206435748_615x300Fonte: http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/bbc/2014/10/13/laser-descobre-atlantida-perdida-em-selva.htm

O livro conquistou o público não apenas por conta de suas representações de aranhas e outros insetos. O diário de Mouhot também continha vívidas descrições de templos invadidos pela floresta, apresentando ao mundo, em todo o seu esplendor, a cidade medieval perdida de Angkor, no Camboja.

“Um desses templos, um rival do templo de Salomão, erguido por um Michelangelo da Antiguidade, mereceria lugar de honra ao lado das nossas mais belas construções. É mais grandioso do que qualquer obra deixada para nós pelos gregos ou romanos”, ele escreveu.

As descrições de Mouhot ajudaram a firmar, na cultura popular, a poderosa fantasia de exploradores às voltas com templos esquecidos.

Hoje, o Camboja é famoso por essas ruínas. A maior, Angkor Wat, construída por volta de 1150, continua sendo o maior complexo religioso do planeta, cobrindo uma área quatro vezes maior do que a Cidade do Vaticano.

A cidade medieval atrai dois milhões de turistas por ano e ocupa lugar de honra na bandeira do Camboja.

Atlântida da Selva

Em 1860, no entanto, Angkor Wat era conhecida apenas por monges e moradores da região. E eles não tinham a menor ideia de que esse grande templo havia sido cercado, um dia, por uma cidade com quase um milhão de habitantes.

Foi necessário quase um século de exaustivos estudos arqueológicos de campo para completar o mapa. Aos poucos, a cidade perdida de Angkor começou a ressurgir, rua após rua. Ainda assim, restavam várias lacunas em branco.

No ano passado, arqueólogos anunciaram uma série de novas descobertas sobre Angkor. E disseram ter encontrado uma cidade mais antiga ainda, escondida mais além, nas profundezas da floresta.

Uma equipe internacional, liderada pelo arqueólogo Damian Evans, da Universidade de Sydney, Austrália, tinha mapeado 370 km quadrados em torno de Angkor com uma precisão de detalhes absolutamente sem precedentes. Um feito impressionante, tendo em vista a densidade da floresta e a presença de minas remanescentes da guerra civil no Camboja. Mais notável ainda, o mapeamento foi feito em apenas duas semanas.

O segredo da equipe australiana chama-se Lidar, uma tecnologia que está revolucionando a arqueologia, especialmente nos trópicos.

Embutido em um helicóptero que sobrevoou toda a selva do Camboja, o sistema Lidar emitiu um milhão de raios laser a cada quatro segundos, registrando minúsculas variações na topografia do solo.

Os arqueólogos encontraram traços da cidade entalhados no chão da floresta, com templos, ruas e elaborados aquedutos distribuídos pela região.

“Você tem essa espécie de revelação quando coloca os dados na tela pela primeira vez e lá está, essa cidade antiga, com absoluta clareza, bem na sua frente”, disse Evans.

As novas descobertas transformaram profundamente nossa compreensão de Angkor, a maior cidade medieval do mundo.

No seu apogeu, no final do século 12, Angkor era uma metrópole que cobria 1.000 km quadrados. (Para se ter uma ideia, Londres só alcançou esse tamanho 700 anos depois.)

Angkor foi a capital do poderoso império Khmer que, sob o comando de reis guerreiros, dominou aquela região durante séculos. Seu território cobria o que hoje entendemos como Camboja, Vietnã, Laos, Tailândia e Mianmar. Mas suas origens ainda eram mistério.

Inscrições indicavam que o império havia sido fundado no início do século 9 por um grande rei, Jayavarman Segundo, e que a primeira capital, Mahendraparvata, ficava em montanhas a nordeste do ponto onde Angkor seria, mais tarde, construída.

Mas ninguém sabia ao certo – até a chegada da equipe australiana.

Uma análise da área com o auxílio da nova tecnologia revelou tênues vestígios de templos desconhecidos e uma elaborada rede de avenidas, diques e lagos artificiais – uma “Atlântida” na selva.

Mais impressionante ainda foram evidências de obras de engenharia hidráulica de grande escala identificadas pelos sensores – uma marca registrada do império Khmer.

No final do século 9, quando a capital foi transferida para um ponto mais ao sul, onde fica Angkor, engenheiros Khmer já eram capazes de armazenar e distribuir grandes quantidades de preciosa água recolhida durante a estação das monções por meio de uma rede complexa de canais e reservatórios.

A capacidade de armazenar água permitia estabilidade nos suprimentos de alimentos e enriqueceu a elite Khmer.

Durante os três séculos seguintes, essa riqueza financiou a maior concentração de templos da Terra.

Um destes, o Preah Khan, construído em 1191, continha 60 toneladas de ouro. Hoje, essa material valeria US$ 3,3 bilhões.

13out2014---variacoes-climaticas-dramaticas-no-final-da-idade-media-levaram-ao-declinio-de-angkor-1413206322113_615x300

Declínio

Mas apesar de toda essa riqueza, Angkor não foi capaz de derrotar um inimigo inclemente: o clima.

No momento em que o programa de construção de templos atingia seu pico, a rede hidráulica, vital para a sustentação da cidade, começou a sofrer por falta de manutenção.

No final da Idade Média houve variações dramáticas de clima no sudeste asiático.

Amostras de troncos de árvores registram flutuações repentinas entre secas extremas e chuvas torrenciais. E o mapa produzido pelo sistema Lidar revela os danos catastróficos que as inundações provocaram.

Sem esse mecanismo vital de sustentação, Angkor caiu em declínio e jamais se recuperou.

No século 15, os reis Khmer abandonaram a cidade e se mudaram para a costa. Lá, construíram uma nova cidade, Phnom Penh, atual capital do Camboja.

Quando Mouhot chegou, encontrou apenas os grandes templos de pedra, muitos, em ruínas.

Praticamente todo o resto – de casas populares a palácios reais, feitos de madeira – havia apodrecido.

A metrópole que um dia existira em torno dos templos tinha sido devorada pela floresta.

O Processo Institucional da Conquista

Hector Hernan Bruit, em seu texto “O processo institucional da conquista”, afirma que a conquista hispânica da América levantou uma série de problemas que mexeram com dogmas e crenças medievais, antes intocáveis, como o senhorio universal do papa, a legitimidade do poder dos reis de Castela para dominar a América, etc. O interesse que suscitou a conquista de novas terras foi tão grande que agitou a consciência espanhola da época.

O processo de dominação foi marcado pelo conflito ideológico do Estado legalista e burocrático contra o caráter privado da conquista. A princípio, foi a iniciativa individual que apareceu com força, tendo seus limites fixados pelo estado. “A iniciativa da ação corria por conta do descobridor, de acordo com os privilégios conferidos pelos reis e fixados nas Capitulações[1]. O descobridor era nomeado vice-rei e governador, e deveria ser obedecido como se fosse o próprio rei; tinha autoridade para conquistar e fundar cidades; tinha jurisdição ordinária, direito de nomear oficiais de justiça, mas não podia nomear oficiais de governo, o que era um privilégio exclusivo do rei”.

Quando Colombo desembarcou pela primeira vez no Novo Mundo, portava instruções específicas com relação à política colonizadora do Estado, normas gerais sobre o contato e a cristianização dos índios, objetivos econômicos e função dos colonos. Porém este caráter estatal não vingou no princípio da colonização, “pois o ouro não pagava os gastos e os colonos não desejavam nem um pouco permanecer na situação de assalariados do Estado. A revolta de Francisco Roldán contra o almirante foi conseqüência dessa situação”.

Aproximadamente em 1495 a Coroa espanhola decidiu ampliar a empresa colonizadora, incorporando os interesses privados. Os novos colonos agora tinham direito às terras e aos índios, além da exploração do ouro, pagando o quinto para o Estado.

O desejo de organizar uma sociedade de padrão ocidental na América levou os colonos a buscarem formas de se sustentarem. A solução foi encontrada no uso de trabalho escravo indígena, praticada nos primeiros anos de colonização. Baseados no Direito de Gentes, os colonos poderiam escravizar os indígenas que fizessem guerra contra os espanhóis, ou comprar aqueles que já eram escravos. Esta prática foi abolida definitivamente com As Novas Leis de 1530.

Para substituir este trabalho escravo surgem as encomendas, uma forma de trabalho compulsório indígena cujas características diferem no Caribe em relação ao continente. Na Espanhola o trabalho era assalariado e o beneficiário tinha o dever de evangelizar o índio. Os indígenas eram vistos como propriedade do Estado que cedia temporariamente o usufruto dos seus trabalhos aos conquistadores.

As Leis dos Burgos de 1512 surgiram em face ao desastre demográfico da ilha de Espanhola, centro das atividades de descobrimento e conquista. Dos 500 mil índios que ali viviam antes da chegada dos espanhóis, só restavam 29 mil em 1414. As leis mostravam a preocupação do Estado em fazer cumprir a finalidade religiosa da conquista.

A encomenda mexicana foi diferente da antilhana. Sua estrutura foi instituída por Cortés. As obrigações do encomendeiro eram “doutrinar os índios e manter armas para defender o reino”. Os serviços do índio deviam ser feitos nas terras do índio já que o deslocamento era apontado como uma das causas de mortalidade. Caso fosse necessário o deslocamento, deviam ser estipulados prazos e controle rigoroso. Cortés instituiu ainda o caráter hereditário da encomenda.

A segunda Audiência do México (1530) deu forma definitiva à encomenda, rejeitou a idéia antilhana de “contrato de trabalho” e definiu a instituição como serviço pessoal gratuito do índio nas terras do encomendeiro. Com essas características a encomenda funcionou em todo o continente, sem variações essenciais.

As Leis Novas de 1542 vieram para neutralizar o ímpeto demolidor e individualista dos conquistadores e proteger a vida do índio. Porém as reações negativas dos colonos fizeram com que a coroa, em 1546, suspendesse as novas disposições como o confisco das encomendas já existentes e reestabelecimento dos direitos de sucessão, todavia manteve-se a proibição da escravidão indígena e do trabalho pessoal forçado.

Em resumo, o estado foi obrigado a produzir uma enorme legislação para regulamentar o processo de conquista, embora em última instância, os bons ou maus tratos dos índios ficassem nas mãos dos próprios conquistadores.


[1] As capitulações eram contratos em que a Coroa concedia permissão para explorar, conquistar e povoar terras, fixando direitos e deveres recíprocos.

PARA SABER MAIS:

Bruit, H. Hernan – Bartolomé de Las Casas e a Simulação dos Vencidos.

O Islã do Ocidente os Muçulmanos na Espanha

A Espanha foi para os árabes uma terra de exploração onde, freqüentemente, se contentavam em exercer uma dominação política. Ali encontraram o reino dos visigodos, marcado pela herança romana e as contribuições bárbaras.

Em 711 os visigodos foram derrotados na decisiva batalha de La Janda. Porém até 716 os chefes muçulmanos tiveram que lançar duras campanhas para finalmente destruir a resistência visigoda. Desde os primeiros tempos da conquista muçulmana a Espanha vive graves discórdias e guerras civis que opõem os dois clãs do exército conquistador: árabes e berberes. Os árabes se mantiveram pouco numerosos, algo em torno de vinte mil indivíduos. Os berberes, por sua vez, compõem a maioria, duzentos mil homens.

“Assim opõem-se duas Espanhas: a árabe, das planícies da Andaluzia e do Levante onde os orientais recuperam as culturas irrigadas dos hispano-romanos; e a berbere das montanhas e dos elevados planaltos. Oposição que ressalta as diferenças de gênero de vida e mesmo de hábito: uso do turbante nas regiões de montanha, do alto barrete oriental em Córdoba e no Levante”.

Os Abássidas formaram uma dinastia árabe reinante que destronaram os Omíadas em 750 e passaram a governar o Califado desde Bagdá. Abd-er-Rahman, príncipe da família dos Omíadas, escapara dos massacres ordenados pelos Abássidas, e em 755 desembarca com seu exército na região de Granada. “Havia ele tentado em vão obter um reino na região de Maghreb. Na Espanha, porém, apoiado por alguns contingentes árabes, prevalece e garante seu triunfo na batalha de La Alameda”. Entra solenemente em Córdoba onde assume o título de emir dos crentes e proclama a ruptura entre a Espanha muçulmana e os novos califas de Bagdá.

Mesmo em meio a conflitos, o califado de Córdoba se sustentaria com um prestígio ainda maior que o dos califas de Bagdá. A esplendida mesquita de Córdoba exalta o poder do reino, o mais rico sem dúvida e o mais brilhante de todo o mundo ocidental.

Os sucessores de Abd-er-Rahman mantiveram a paz e, quando deveria reinar uma criança de dois anos, o poder passa para um jurista de origem iemenita. Sob o nome de Al Mansur exerceu uma verdadeira ditadura sobre a Espanha. Venceu os cristãos por várias vezes. Sua morte, porém, em 1002 deixa a Espanha desunida e anuncia o fim do califado Omíada de Córdoba.

“No século X, os autores árabes falam da Espanha como uma jóia, a terra privilegiada de todo o Islã”. A Andaluzia foi um dos grandes centros culturais do Islã, havia médicos, filósofos, juristas e astrônomos. Em Córdoba, os califas compravam grandes quantidades de manuscritos gregos e os mandavam traduzir para o árabe. No final do século X, sua biblioteca contava com mais de 40000 obras e seu catálogo, somente ele, com 44 volumes. “Al Mansur, entretanto, inquieto com o brilho das ciências profanas, e para garantir o apoio dos teólogos, manda queimar todas as obras filosóficas reunidas por seus predecessores”.

Desde 719, o governador omíada havia se fixado em Córdoba, que se torna assim a capital política da Espanha muçulmana. A cidade aumenta e enriquece sob Abd-er-Rahman I e três califados mais tarde a grande metrópole de todo o ocidente seria comparada pelos muitos viajantes gregos e latinos à bela Constantinopla.

A arte da Espanha muçulmana parece por muito tempo uma arte de exilados, de príncipes orientais que nessa terra longínqua sonhavam talvez em construir aí uma nova Síria. Esses califas permaneceram ligados as tradições de família e às lembranças da capital síria enquanto que a civilização abássida de Bagdá se desliga da herança síria e recebe  influências persas. Compõe as lembranças sírias refletidas na arte a herança romana e visigótica.

 O esfacelamento político:

A morte de Al Mansur deixou a Espanha entregue à oposição geral das famílias principescas. Em cada cidade um nobre mantém uma administração própria, sendo que nenhum nobre exerce autoridade sobre a totalidade do país. Esses pequenos reinos – ao todo 26 – são chamados de “reinos de taifas” que se chocam incessantemente em suas fronteiras. Dividida militarmente e enfraquecida, a Espanha conservava ainda a mesma civilização brilhante de outrora.

A invasão dos Almorávidas, berberes africanos, acabou por unificar a Espanha muçulmana, antes dividida entre os diversos reinos de taifas. A conquista não foi duradoura. Em 1147 os Almóadas, outro grupo de berberes, intervém militarmente e assumem o poder. Esse segundo império africano sucumbe, porém, sob os golpes dos cristãos em Las Navas de Tolosa em 1212.

Dos últimos reinos de taifas que haviam novamente se afirmado após a desintegração do império Almóada, somente o reino de Granada permanece nas mãos dos mouros, porém como vassalo de Castela. A sobrevivência de Granada explica-se principalmente pelo esgotamento da reconquista e pelos laços econômicos entre os muçulmanos da Espanha e os sultões merínidas do Marrocos. Era através de Granada que a Espanha recebia trigo da África.

Em 1492 Granada é reconquistada pelos Reis Católicos, Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão e põe fim a oito séculos de domínio muçulmano na Península Ibérica.

Inventando a Terra Plana

O livro Inventando a Terra Plana (São Paulo: Editora Unisa, 1999), de Jefrey Burton Russel, historiador e pesquisador da Universidade da Califórnia, mostra convincentemente que a ideia da Terra plana foi uma elaboração mais ou menos recente. Embora hoje se saiba que os europeus renascentistas tenham supervalorizado a ideia de que houve um período de mil anos de trevas intelectuais entre o mundo clássico e o moderno, Russel acredita que o erro da Terra plana não havia sido incorporado à ortodoxia moderna antes do século 19. “[Russel] descobriu o fio da meada nos escritos do americano Washington Irving e do francês Antoine-Jean Letronne [responsáveis pela posterior propagação do mito da Terra plana]. Mas sua disseminação no pensamento convencional ocorreu entre 1870 e 1920, como consequência da ‘guerra entre a ciência e a religião”, quando para muitos intelectuais na Europa e nos Estados Unidos toda religião tornou-se sinônimo de superstição e a ciência tornou-se a única fonte legítima da verdade. Foi durante os últimos anos do século 19 e os primeiros anos do século 20 que a viagem de Colombo tornou-se então um símbolo amplamente divulgado da futilidade da imaginação religiosa e do poder libertador do empirismo científico. … os pensadores medievais, da mesma forma que os clássicos que os antecederam, criam na redondeza da Terra” (p. 10).

Irving (1783-1859) retocou a história para parecer que a oposição à viagem de Colombo se deveu ao pensamento de que a Terra fosse plana . Isso foi provado falso. A oposição se deveu, na verdade, à preocupação com a distância que os navegadores teriam que percorrer. A esfericidade da Terra não foi tema de discussão naquela ocasião.

O fato é que nem Cristóvão Colombo, nem seus contemporâneos pensavam que a Terra fosse plana. Não há uma referência sequer nos diários do navegador (e de outros exploradores) que levante a questão da redondeza da Terra, o que indica que não havia contestação alguma a esse respeito, na época. Assim, segundo Russel, é comum a regra de Edward Grant de que no século 15 não havia pessoas cultas que negassem a redondeza da Terra. No entanto, esse mito permanece até hoje, firmemente estabelecido com a ajuda dos meios de comunicação e dos livros didáticos. Com que interesse?

Para Russel, o mito da Terra plana pode ser rastreado até o século 19, especialmente a partir de 1870, à medida que autores de livros-textos se envolveram na controvérsia em torno do darwinismo. “No início do século [20] a força dominante subjacente ao erro [da Terra plana] foi o anticlericalismo do Iluminismo no seio da classe média na Europa, e o anticatolicismo nos Estados Unidos” (p. 35).

Antes disso, na Divina Comédia, o poeta Dante Alighieri (1265-1321) já apresentava o conceito de uma Terra redonda. Os filósofos escolásticos, incluindo o maior deles, Tomás de Aquino (1225-1275), conhecedores de Aristóteles, igualmente afirmavam a esfericidade da Terra.

No entanto, como os escolásticos e filósofos medievais se baseavam em Aristóteles e este defendia a esfericidade da Terra, os iluministas tiveram que arranjar outros referenciais para dizer que o mito se baseava neles. E os encontraram em Lactâncio (245-325 d.C.) e Cosme Indicopleustes, autor de Topografia Cristã (escrito entre 547 e 549 d.C.). Só que, segundo Russel, Lactâncio tinha ideias muito estranhas sobre Deus e não foi levado em consideração na Idade Média (na verdade, foi considerado herege) – até que os humanistas da Renascença o “ressuscitassem”, apregoando sua suposta influência. Indicopleustes, partindo de escritos de filósofos pagãos e interpretando erroneamente textos bíblicos poéticos, defendeu a ideia da Terra plana. Era ignorado, ao invés de seguido.

Detalhe: a primeira tradução de Cosme para o latim não foi feita senão em 1706. Portanto, como poderia ele ter tido influência sobre o pensamento ocidental medieval?

Russel arremata:

“[Lactâncio e Cosme] foram símbolos convenientes a serem uados como armas contra os antidarwinistas. Em torno de 1870, o relacionamento entre a ciência e a teologia estava começando a ser descrito através de metáforas bélicas. Os filósofos (propagandistas do Iluminismo), particularmente [David] Hume, haviam plantado uma semente ao implicar que estavam em conflito os pontos de vista científicos e cristãos. Augusto Comte (1798-1857) havia argumentado que a humanidade estava laboriosamente lutando para ascender em direção ao reinado da ciência; seus seguidores lançaram o corolário de que era retrógrado tudo o que impedisse o advento do reino da ciência. Seu sistema de valores percebia o movimento em direção à ciência como ‘bom’, de tal forma que o que atrapalhasse esse movimento era ‘mau’. (…) O erro [da Terra plana] foi, desta forma, incluído no contexto de uma controvérsia muito maior – a alegada guerra entre ciência e religião” (p. 67, 77).

O próprio Copérnico, no prefácio de seu clássico trabalho De Revolutionibus, usou Lactâncio para ilustrar como a ignorância dos opositores à ideia da Terra esférica era comparável à dos que insistiam no geocentrismo. Curiosamente, Copérnico não diz que Lactâncio era típico do pensamento medieval. Esse prefácio foi enviado para o papa a fim de obter aprovação eclesiástica. Copérnico não atacaria Lactâncio e sua ideia da Terra plana, se a igreja estivesse de acordo com esse pensamento. O problema, como já vimos, teve que ver com o geocentrismo aristotélico versus heliocentrismo, e não com o formato da Terra.

Clipping: www.criacionismo.com.br
Autor: Michelson Borges

“Porventura não sabeis? Porventura não ouvis, ou desde o princípio não se vos notificou, ou não atentastes para os fundamentos da terra? Ele é o que está assentado sobre o círculo da terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; é ele o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda, para neles habitar; O que reduz a nada os príncipes, e torna em coisa vã os juízes da terra”. (Isaías 40:21-23).

Leia outra resenha aqui.

O Julgamento Mais Bizarro da História

800px-jean_paul_laurens_le_pape_formose_et_etienne_vii_1870

O julgamento mais bizarro da história com certeza foi o do papa Formoso I, morto em 4 de abril de 896. Após nove meses enterrado, teve seu corpo exumado e levado a tribunal pelo então papa Estevão VII sob a acusação de aceitar ser bispo de Roma quando já era bispo de Porto (política à parte). O morto foi vestido com os trajes papais e intimado a se defender.

Após seu silêncio foi condenado a excomunhão, teve três dedos da mão amputados, e seu corpo jogado no rio Tibre. O evento ficou conhecido como “sínodo cadavérico”. Um ano após sua morte e depois de quatro curtos pontificados foi absolvido e seu corpo foi finalmente resgatado e levado para o Vaticano pelo papa Teodoro II.

Enfim, fica a pergunta, qual papa estava com a razão? O que condenou ou o que absolveu? E onde fica a infalibilidade papal nesse caso?

Sobre a prática da Usura

Muito antes do desenvolvimento do capitalismo, em meio à Idade Média, a prática da usura já evidenciava o início das atividades que caracterizariam o burguês moderno. Muito condenado desde o início, o empréstimo a juros trazia uma violenta contradição à sociedade teocêntrica medieval. O dinheiro passara a ser cultuado.

Segundo Jacques Le Goff, a usura é um conjunto de práticas financeiras, as quais se caracterizam pelo acúmulo de lucro, mediante empréstimos, sem que haja produção ou transformação material de bens concretos. O autor entende que a usura era considerada como uma forma de servidão ao dinheiro, sendo que segundo os evangelhos, ninguém pode servir a dois senhores (Mateus 6:24).

Outra forma interessante de se entender a usura era através do estabelecimento de uma relação de juros e tempo. Como não havia produção, o usurário utilizava o tempo como matéria-prima do enriquecimento, sendo que esta é uma prerrogativa divina. Assim o praticante da usura acabava por roubar ao próprio Deus.

Cabia a Igreja, o papel não apenas de punir, mas de também converter e persuadir os pecadores do mal que cometiam. A criação do purgatório parece ser uma medida de meio termo entre a condenação e a absolvição. Uma forma de salvar o usurário do inferno, salvaguardando assim sua bolsa no mundo sem perder a vida eterna. Embora muitos usurários não parecessem interessados nas conseqüências teológicas de suas práticas – entre os quais havia muitos judeus – havia aqueles que tentavam comprar a salvação; afinal não faltaram vendedores.

Em 1331 o Concílio de Viena autorizou os tribunais da Inquisição a perseguir os católicos que praticassem a usura. A determinação abrange inclusive os cristãos novos, dando poder a Igreja para sentenciar à morte um usurário e ainda ficar com seus bens em troca da salvação de sua alma.

Os maiores usurários da Idade Média foram os judeus, apesar de que o Velho Testamento, por eles seguido, condena tal prática  . A impossibilidade de exercerem cargos no comércio ou na administração pública fez com que este grupo procurasse alternativas para sobreviver; cuja saída mais recorrida foi o empréstimo a juros. Outro aspecto que explica um pouco essa prática é a constante perseguição. Muitas das representações medievais mostram judeus com a mão fechada – fruto da insegurança proporcionada pelas sociedades européias – ou carregando fortunas em obras de arte, e utilizando dentes de ouro; tudo para uma rápida mobilização em caso de perseguição. Muito pouco ou quase nada era investido em bens imóveis.

No Brasil, as Ordenações Filipinas também condenaram a usura: “Nenhuma pessoa, de qualquer estado ou condição que seja, dê ou receba dinheiro, prata ou ouro ou qualquer outra quantidade pesada, medida ou contada, a usura, porque possa haver, ou dar alguma vantagem, assim por via de empréstimo, como de qualquer outro contrato, de qualquer qualidade, natureza e condição que seja, e de qualquer nome que possa ser chamado” . Segundo as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia , feita por Dom Sebastião da Vide em 1707, a Usura é entendida como empréstimo a juros, não somente relacionado ao dinheiro, mas também a outros bens materiais. É um crime doloso, de injusto lucro, roubo e comparado a um latrocínio. Traria mal não somente à alma, mas também ao comércio, e por conseqüência ao Estado.

Para extirpar-se a prática da usura, é ordenado na constituição que os padres preguem sobre esse mal e enfatizem sua condenação ao inferno. Também é ordenado à população a delatar os praticantes de tais atos a fim de que sejam condenados não só pelo foro da Constituição primeira do arcebispado da Bahia, mas também pelas Ordenações Filipinas, em vigência naquele período.

As punições para tais crimes eram os seguintes: Primeira vez, pagamento de 50 cruzados e degredo para fora do arcebispado por um ano. Em caso de reincidência a pena seria dobrada inclusive o degredo. E pela terceira vez o condenado deveria pagar mil cruzados e seria obrigado a cumprir 5 anos de degredo para a África. Essa multa era utilizada da seguinte forma: 3/4 eram destinados à manutenção da Sé e 1/4 para quem fizesse a acusação. O culpado deveria devolver o lucro à vítima da usura. Vemos que a Igreja dava uma espécie de comissão aos delatores, o que incentivava ainda mais as denúncias, entretanto podiam motivar falsas acusações.

Caso os acusados fossem clérigos seriam destituídos de seus benefícios eclesiásticos, além das penas a que eram submetidas os leigos. Eram elas: Perda do direito dos sacramentos e à sepultura cristã caso não restituísse em vida aqueles que foram por ele prejudicados. Isso significava mais do que simplesmente ser expulso da Igreja, para os católicos o impedimento aos sacramentos impossibilitava a salvação do indivíduo, condenando-o automaticamente ao inferno.

Voltando à Le Goff, este entende que os usurários medievais são os comerciantes do futuro; burgueses e capitalistas. Entretanto, para que possam seguir seu caminho, devem se libertar das amarras eclesiásticas, e vencer o medo da condenação ao inferno, a fim de que, definitivamente, construam a sociedade laica do capital.