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J. R. Guzzo: O delito de ser livre

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Nessa semana tive a oportunidade de ler o texto de J. R. Guzzo, publicado na edição impressa da Veja, que transparece bem o sentimento de indignação que alguns de nós brasileiros temos – não todos, apenas aqueles que movimentam a máquina do mundo, a despeito da maré, sempre contrária – por ter nossas vidas invadidas e espezinhadas por esse Frankenstein verde e amarelo que, por aqui, chamamos de Estado. Nosso desejo e luta – em consonância com uma moderna visão de mundo e de economia, deve ser por um governo enxuto, um Estado fundamental, e uma burocracia menos opressora. Se quisermos crescer com inteligência, devemos crescer como indivíduos, deixando de lado o patriarcalismo arcaico que corta as asas da nossa sociedade.

Segue o brilhante texto:

Na ofensiva contra a liberdade, fica cada vez mais difícil viver nos termos da Constituição, segundo a qual todo brasileiro, respeitada a lei, tem o direito de se conduzir como prefere.

Não está fácil para ninguém, hoje em dia, cuidar da própria vida com um pouco de paz. É uma expectativa modesta, no fundo, quando se entende que esse sossego significa apenas poder contar com uma ou outra garantia básica. Trata-se de não ter em volta de si, cada vez mais, todo um sistema decidindo o que é melhor para você, e isso para “o seu próprio bem” — e que determina, também, o que é preciso pensar, dizer ou fazer diante de praticamente tudo. Seria um alívio, igualmente, viver em um mundo onde as coisas não estivessem divididas, como vai se tornando regra, apenas entre as obrigatórias e as proibidas. Ou, enfim, onde fosse possível a cada um simplesmente pensar e agir segundo a própria cabeça. Deveria valer, em todos esses casos, a Constituição em vigor, que dá a qualquer brasileiro o direito de se conduzir como prefere, bastando para tal respeitar o que diz a lei. Mas o fato é que o dia a dia do cidadão não está sendo assim. Existe hoje uma guerra não declarada, presente no debate político, nos meios de comunicação e até nos currículos escolares, contra quem quer se comportar de maneira independente — e o que está em jogo, aí, é a liberdade.

“Parece que odiamos viver em liberdade”, escreveu tempos atrás o sociólogo Bolívar Lamounier. Parece mesmo. A história começa com a pressão, cada dia maior, em favor da “intermediação do Estado” no máximo possível de aspectos da existência humana. De acordo com essa visão do universo, qualquer coisa, para ser lícita, tem de ter a permissão, a gerência ou o reconhecimento de algum tipo de autoridade pública, ou mesmo privada. É como se a sociedade tivesse a obrigação de aceitar que o governo tome a maioria das decisões para cada um de nós, da tomada elétrica de três pinos ao que os alunos devem aprender nas aulas de geografia. Funciona como uma espécie de mandamento religioso, sem a aplicação do qual nada pode ser bom, legítimo ou permitido por lei. Na verdade, quando se ouvem as pregações mais rigorosas sobre o assunto, certas coisas nem deveriam existir, já que não são oficialmente “reconhecidas” pelo poder público. O ângulo reto, por exemplo, não tem existência legal no Brasil; não está regulamentado por lei e, portanto, não existe. Para muita gente boa, é mais ou menos por aí o caminho certo.

Vivemos um tempo no qual se pretende negar ao cidadão que não utiliza o transporte público o direito de escolher o tipo de carro que quer pagar, com o próprio dinheiro, para ir de um lugar a outro; tem de ser táxi, que é supervisionado pela prefeitura, e, portanto, é o único meio legal. É tido como grave delito social defender o livre acordo entre patrões e empregados a respeito de salários e outras questões; as partes, até quando querem exatamente a mesma coisa, não podem se entender “à margem da lei”. Um jornalista só poderá ser um jornalista se o Estado disser que ele é jornalista; sem isso, estará exercendo ilegalmente a profissão. É proibido vender um quilo de linguiça caseira sem licença do SIF. A liberdade de empreender, que se imaginava algo positivo, é vista como uma “teologia” que conduz ao “fascismo”.

A liberdade de prosperar, nessa mesma toada, recebe frequentes sentenças de condenação — ela levaria o indivíduo a trabalhar para ganhar mais dinheiro que os outros, e isso vai contra suas obrigações de colaborar para a construção de uma sociedade igualitária. As classes intelectuais em geral e as organizações sindicais em particular combatem abertamente a remuneração pelo talento, pelo mérito e pelo esforço individual, por acharem que essa modalidade de incentivo produz concentração de renda e desigualdade.

Este é um clima em que não é bom identificar-se como indivíduo. Nos tempos atuais, segundo o evangelho pregado mundo afora, é preciso ser “representativo” de alguma coisa: um grupo, uma classe social, um conjunto de posturas, um sistema de pontos de vista, de crenças ou de costumes, e por aí vai. Você não é você — é representante de algum tipo de “coletivo”. Também se trata de uma atmosfera em que é péssimo discordar. Considere-se a palavra “fascista”, por exemplo, usada a cada cinco minutos nos debates de hoje no Brasil: para se adequar à sua utilização corrente, deveria mudar de significado nos dicionários oficialmente aceitos. Atualmente quer dizer: “alguém que não concorda com você”, ou “algo de que você não gosta” — caso, naturalmente, você faça parte dessa nebulosa chamada “esquerda”, ou se considere alguém “moderno”. O mesmo acontece com “preconceito” — passou a ser qualquer posição diferente da sua. Em suma: é proibido acreditar naquilo que a pessoa acredita. É como se a humanidade estivesse de volta ao tempo da encíclica Mirari Vos, menos de 200 anos atrás, na qual se dizia que a liberdade de consciência era um “erro corrupto”, além da “maior e mais poderosa peste do mundo moderno”.

A origem mais aproximada disso tudo, para quem não é atraído por complicações, talvez seja simplesmente o seguinte: falta do que fazer. Num mundo cada vez mais carente de causas que valham realmente esse nome, passam a ser causas a criação de porcos orgânicos, a ampliação das terras indígenas ou a “identidade de gêneros”. (Ao que parece, é “fascista” alguém achar que tem direito a se identificar apenas como homem ou mulher.) Há, por cima de tudo, um vago incômodo contra a “injustiça social”, e desejos moles de acabar com o capitalismo — que, na falta de outra coisa, é identificado como a causa das injustiças e da desigualdade. Em vez dele, propõe-se a “intermediação do Estado” para resolver tudo o que está errado.

O problema é que os promotores dessas sensações (não chegam a ser crenças, nem mesmo opiniões) vivem invariavelmente no ambiente de abundância que o capitalismo criou pelo mundo afora — e só existem por causa dela. Tudo o que o homem produz vai ficando mais barato; cada vez mais gente tem acesso a mais coisas. Cinquenta anos atrás era preciso ser rico para ter um carro, ou entrar num restaurante. Hoje essas coisas estão disponíveis para milhões. Vive-se, em suma, em um mundo de sobras — um facilitador decisivo para quem quer se lamentar. A escassez leva ao trabalho. A sobra leva ao ócio — e uma das consequências diretas do ócio é a soma de despeito e inconformismo contra o sistema de liberdade econômica, que ganhou e ganha cada vez mais. É um contrassenso: na vida real o capitalismo é a única forma de organização social que dá chances aos pobres e cria a maior igualdade que dizem defender. O fato é que não existe nenhum caso de melhora de renda ou de bem-estar dos pobres em sistemas em que não há liberdade econômica. Mais: os pobres jamais avançam quando a economia capitalista passa momentos de dificuldade; só melhoram quando há crescimento, investimento privado e lucro. A ofensiva contra a liberdade nos leva de volta à teoria da Terra plana — a épocas da história que morreram e não podem mais voltar.

Texto acessível em: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/feira-livre/j-r-guzzo-o-delito-de-ser-livre/

O que a Coreia fez e o Brasil não

Artigo publicado inicialmente na Gazeta do Povo por José Pio Martins.

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Um dos mais extraordinários exemplos de crescimento econômico e superação da pobreza no pós-guerra é a Coreia do Sul. Há 70 anos, o país era pobre. Em 1945, foi dividido em dois: a Coreia do Norte, que permanece uma ditadura comunista miserável e atrasada até hoje; e a Coreia do Sul, que assombrou o mundo com seu desenvolvimento e continua a dar lições de como crescer e progredir.

Com 50 milhões de habitantes, a Coreia tem renda per capita de US$ 30 mil, contra US$ 11 mil do Brasil. É um dos países mais desenvolvidos do mundo, que se destaca por sua moderna indústria nacional, altas tecnologias e elevado nível de bem-estar social. Com população quatro vezes maior, o Brasil não tem uma única marca de veículos genuinamente nacional, e somos compradores dos produtos das coreanas Hyundai e Kia, além de outras gigantes como Samsung e LG.

Para começar, após o fim da guerra contra a vizinha do norte, a Coreia do Sul abraçou o capitalismo sem pruridos ideológicos, enquanto o Brasil nunca foi verdadeiramente capitalista e sempre viu a economia de mercado com certa desconfiança. O governo coreano definiu que seu escopo seria a fixação da estratégia de crescimento econômico e a criação de condições para a modernização capitalista. As reformas que vieram a seguir tiveram essas duas diretrizes como base e o país teve um surpreendente surto de desenvolvimento a partir dos anos 70.

O êxito coreano se deve, entre outros, a cinco fatores: a reforma agrária implantada no pós-guerra, que diminuiu sensivelmente a pobreza rural; o programa educacional, com maciços investimentos na educação de base sem a cultura bacharelesca latino-americana; a adoção do planejamento familiar; a abertura para o exterior e priorização de indústrias voltadas à exportação; investimentos pesados em infraestrutura de transportes, comunicações e tecnologias de ponta.

A Coreia entendeu que o motor do crescimento econômico é a empresa, não o Estado, e que a figura central da criação de riqueza é o empreendedor, não o burocrata estatal. Curiosamente, a Coreia demorou para estabilizar seu sistema de governo, após titubear sob governantes autoritários e tumultos políticos. No ranking internacional, o país é considerado o mais inovador do mundo, o que somente é possível pelo respeito reverencial ao pesquisador, ao inventor, ao empreendedor e ao educador.

Já o Brasil não se libertou da cultura bacharelesca (que valoriza mais as letras que a tecnologia), do apego subserviente ao Estado (que desconhece a expressão “satisfação do cliente”, mesmo vivendo à custa deste) e da aceitação envergonhada da economia de mercado. Nosso país tem uma relação esquizofrênica com o capitalismo. Adotamos o sistema, mas tratamos mal seu principal ator – o empresário –, não conseguimos entender a lei da oferta e da procura e seguimos acreditando, ingenuamente, que para cada problema individual há sempre uma solução estatal.

Mas a grande revolução coreana foi na educação. Ao dar ênfase à educação das mulheres, uma legião de trabalhadoras qualificadas foi formada e a explosão populacional foi contida. Ao priorizar a educação de base, o analfabetismo foi vencido e a competência técnica foi adquirida. Ao concentrar os recursos (sempre escassos) no ensino tecnológico e no domínio das matemáticas, uma multidão de trabalhadores tecnicamente preparados lançou o país ao sucesso econômico.

Bem, não é preciso ir longe para entender o que a Coreia fez e o Brasil não…

José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo.

 

Leonardo Padura: “Os cubanos estão cansados”

PUBLICADO NO SITE DA REVISTA ÉPOCA:
http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/04/bleonardo-padurab-os-cubanos-estao-cansados.html

828_leonardoO escritor de maior sucesso no momento em Cuba fala dos efeitos do stalinismo, do sonho que “virou fumaça” e da “amizade crítica” do Brasil por seu país
IVAN MARTINS

Com O homem que amava os cachorros, publicado no Brasil pela editora Boitempo, o cubano Leonardo Padura, de 59 anos, escreveu talvez o melhor romance histórico das últimas décadas. Certamente o mais relevante para quem se interessa pela história do socialismo no século XX – uma utopia lançada pela Revolução Russa de 1917 que se transformou, nas décadas seguintes, num  pesadelo autoritário que tragou milhões de vidas. Essa é a história que Padura conta em seu romance, centrado nas figuras do revolucionário russo Leon Trotsky e de seu assassino, Ramón Mercader.  “O livro não  começa e termina em Cuba por acaso. A experiência cubana é essencial para o que quero contar”, diz Padura. Ele chegará ao Brasil neste sábado para conferências em Brasília e São Paulo. Na entrevista que deu a ÉPOCA por telefone, de Havana, Padura falou de literatura, da vida em Cuba e das relações de seu país com o Brasil.

ÉPOCA – O personagem central de seu livro é Leon Trotsky, um revolucionário russo da primeira metade do século XX com poucos seguidores no mundo atual. Por que escrever sobre ele?
Leonardo Padura –
Na universidade que cursei, nos anos 1970, a figura de Trotsky não existia. Nas aulas de filosofia e de história, ou quando se falava da Revolução Russa, ele não era mencionado. Exatamente como se fazia na União Sovié­tica. Isso me provocou uma enorme curiosidade. Quando pude, tratei de procurar informações sobre ele. Os livros soviéticos diziam que era um traidor da causa do socialismo e, por isso, morrera no exílio. Em 1989, visitando a Cidade do México, pedi a um amigo que me levasse à casa de Trotsky, no bairro de Coyoacan. Quando cheguei ali, senti uma comoção forte ao ver a mesa de Trotsky tal como ficou depois do crime. Como, num lugar tão perdido no mundo, chegou a mão de Josef Stálin para matar esse homem? Anos depois, soube que Ramón Mercader, o homem que matara Trotsky, morrera em Cuba completamente anônimo. Posso ter cruzado com ele na rua sem saber. Tudo isso formou a base sentimental do romance. Depois, passei dois anos lendo e pesquisando sobre o assunto e três anos escrevendo.

ÉPOCA – Seu livro é muito simpático a Trotsky, uma figura controversa. O senhor acredita que, se ele tivesse vencido a disputa com Stálin, a União Soviética teria sido diferente do que foi?
Padura –
Teria sido diferente, por uma questão de caráter, de educação e de experiência política. Trotsky era um homem totalmente diferente de Stálin. Ele não tinha o componente doentio que caracterizou Stálin, um sujeito enfermo de ódio, violência e inveja. A vitória de Trotsky faria com que a história soviética fosse diferente, mas como? É uma especulação difícil de fazer. Quando Lênin morreu, ainda havia um estilo que se poderia chamar de democrático na direção do Partido Bolchevique. Mas já estava lá a semente do autoritarismo. Stálin não chegou ao poder por ser um assassino ou um reacionário. Ele conseguiu porque havia na União Soviética condições que fizeram com que um homem como ele chegasse ao poder, se perpetuasse nele e desse a fisionomia do socialismo real.

ÉPOCA –  O romance é crítico dos partidos comunistas e, quando fala de Cuba, descreve uma situação de escassez desesperadora nos anos 1990. O senhor teve problemas com a censura por causa disso?
Padura –
Afortunadamente, não. Mas não acreditei que o livro sairia em Cuba até que o vi impresso e exposto. Tenho um amigo russo que diz que, se há algum indício de que as coisas mudaram em Cuba, é a publicação de meu livro. Mas é verdade, também, que, embora o livro tenha saído em Cuba, a imprensa oficial não falou dele. Ocorreu um silêncio total, também uma forma de resposta ao que diz o livro.

ÉPOCA –  O personagem cubano de seu livro é um escritor acossado pela fome e pelo medo. Há algo de autobiográfico nele?
Padura –
Esse personagem foi construído a partir da experiência que vivemos em Cuba durante os anos 1990, uma época de crise. O que acontece a esse personagem poderia ter acontecido comigo. Por sorte não foi assim, ainda que, em alguns momentos, eu tenha sentido o peso da censura e do dogmatismo ideológico. Em 1983, trabalhava numa revista cultural e fui demitido porque diziam que eu tinha problemas ideológicos, assim como acontece ao personagem do livro. Nos anos 1990, quando estava no trabalho, comia pão com uma pitadinha de ovo ou tomate. Foi um período muito duro.

ÉPOCA – Hoje a situação material dos cubanos está melhor?
Padura –
A situação é melhor, ou talvez seja diferente. Hoje em dia, o problema não é que seja difícil comprar determinado alimento ou ter acesso a determinado objeto material. Hoje, o problema é conseguir dinheiro para comprar essas coisas. Um cubano ganha em média US$ 25 ou US$ 30 por mês, e 1 litro de óleo de soja custa US$ 2,50. Quer dizer: 1 litro de óleo de cozinha leva 10% de todo o salário. Aí está o grande problema atual.

ÉPOCA – O jornalista americano Jon Lee Anderson escreveu na revista The New Yorker que aquilo que o senhor diz estabelece o limite do que pode ser dito em Cuba.
Padura –
Não sei dizer. Como também faço jornalismo, falo da realidade cubana de uma forma direta. Faço isso porque acredito que é a única forma que tenho de participar como cidadão na sociedade em que vivo e pela qual trabalhei e me sacrifiquei muitos anos. Estive em Angola, trabalhando como colaborador civil. Na juventude, tive de cortar cana e trabalhei no campo. Fiz tudo o que tinha de ser feito, nunca deixei de viver em Cuba e creio que isso me dá direito de dizer o que penso sobre meu país. Sei que, em determinados níveis políticos, talvez não gostem do que digo. Mas, como acredito que é meu direito, sigo falando.

ÉPOCA – O senhor não tem vontade de sair de Cuba e viver com  mais conforto e mais liberdade em outro país?
Padura –
Preciso viver em Cuba para poder escrever. A matéria-prima, a substância essencial da minha literatura, está na vida cubana. Se vivesse fora de Cuba, talvez tivesse mais conforto e mais comodidade, mas não seria o mesmo. Preciso ouvir os cubanos falar, ver como se portam. Preciso me indignar ou rir com eles, porque é a cultura a que pertenço. Há quatro anos tenho passaporte espanhol. Poderia viver na Europa, mas decidi que quero viver em Cuba e escrever sobre Cuba.

ÉPOCA –  Como o senhor, que viaja muito, compara a vida em Cuba à de outros países da América Latina?
Padura –
O mais importante é que em Cuba, ainda que as pessoas sejam muito pobres, a pobreza não chega a ser extrema. Há quem tenha mais possibilidades econômicas, outros que têm menos, mas o país segue sendo uma sociedade mais igualitária. É algo que se construiu em muitos anos e só agora começa a ter algumas rachaduras. Parte da população não tem mais o espírito de minha geração. Acreditávamos no futuro. Acreditávamos que, com nosso trabalho e nosso esforço, teríamos uma vida melhor. Esse sonho virou fumaça. Muitos não acreditam mais nisso. Há um cansaço histórico. São muitos anos de sacrifício, e muita gente não saiu do mesmo lugar. Muitos até retrocederam em suas possibilidades pessoais.

ÉPOCA – O senhor sabe que muita gente no Brasil critica a simpatia do governo brasileiro pelo governo cubano, que muitos brasileiros consideram uma ditadura?
Padura –
Sei que existe esse debate no Brasil. Os governos do PT tiveram uma atitude de aproximação do governo cubano, mas tem sido uma aproximação de amizade crítica, não de amizade sem nenhuma condição. Uma amizade não crítica é a do governo da Venezuela com Cuba. O Brasil não tem tido a mesma atitude.

ÉPOCA – A presença de médicos cubanos no Brasil também tem provocado polêmica, porque eles recebem um salário menor que os médicos brasileiros, e a diferença fica com o governo cubano. Sabe-se dessas coisas em Cuba?
Padura –
Os cubanos discutem isso porque muitos médicos cubanos vão trabalhar no exterior. Mesmo que ganhem salários baixos, esses salários são maiores que em Cuba. Os médicos que trabalham fora de Cuba representam uma entrada de divisas importantes para o país.

ÉPOCA – A blogueira Yoani Sánchez esteve no Brasil e foi atacada pelos simpatizantes do governo cubano. Em mais de uma ocasião não a deixaram falar. O senhor teme que lhe aconteça o mesmo?
Padura –
Espero que não (rindo). Meu livro teve muitos leitores no Brasil e imagino que ele tenha sido percebido como a posição de um cubano que participa da realidade cubana e tem direito de dizer o que pensa sobre o país em que vive. Não conheço pessoalmente Yoani Sánchez, mas ela mostrou valentia numa época em que não era conhecida e começou a fazer seu trabalho de forma consequente com sua maneira de pensar. Eu a admiro por isso.

Sobre a Ideologia de Esquerda nas Universidades Brasileiras

UFPR

“É delírio pensar que existe uma orquestração esquerdista para doutrinar alunos” disse o professor Luiz Eva, da Filosofia da UFPR, ao blog CAIXA ZERO do jornal Gazeta do Povo. Segue abaixo a entrevista completa:

1- Há um predomínio de intelectuais de esquerda nas universidades públicas brasileiras? Por quê?

Só posso me pronunciar aqui acerca de minhas impressões cotidianas do setor de humanas da nossa UFPR e das demais universidades que conheço. Infelizmente o contato entre áreas diferentes da universidade, em nível pessoal ou mesmo científico, é quase inexistente. Concordo basicamente com o que disse o meu colega Adriano Codato, da Ciência Política: entre nós, é visível uma certa predominância de pessoas com uma tendência “à esquerda”, mas ela não corresponde à imagem que pode eventualmente ser transmitida à sociedade pelos movimentos organizados de esquerda que se fazem representar na universidade pública. Não me parece nenhuma novidade que, talvez mesmo em um sentido mais amplo, a figura do intelectual engajado tenha perdido espaço e o engajamento, não sei se dos intelectuais, mas dos pesquisadores em ciências humanas na universidade pública seja, de modo geral, pouco ou nada relevante para a aferição de sua qualidade ou do seu prestígio. Acho que, cada vez mais, a questão central, ao menos na minha área (que é a Filosofia) tende a ser a de saber se o pesquisador domina ou não, ou em que grau, os critérios de qualidade para tratar do objeto de que trata, estude ele um pensador de esquerda ou não.

A inclinação à esquerda a que eu me referi talvez possa ser explicada a partir de causas (a história recente, a maneira como professores e alunos se posicionam diante dela, a atitude com que as vozes discordantes são ou não capazes de articular o que pensam) que escapam à minha competência. Mas penso que ela reflete, basicamente, uma posição de simpatia acerca da necessidade de transformações reais na sociedade civil capazes de produzir mais justiça e igualdades de condições (com a qual, aliás, me alinho). Por outro lado, ainda que essa inclinação pode por vezes se converter em uma espécie de senso comum que ocupa o lugar de um aprofundamento no debate, existe, de todo modo, um nível de liberdade intelectual no interior da universidade graças ao qual é perfeitamente possível, ao menos em tese, que esse debate se aprofunde. O problema maior parece-me dizer respeito à formação básica dos alunos que chegam à universidade e, consequentemente, à sua capacidade de usar as ferramentas pertinentes para um debate intelectual relevante.

2- A direita acusa a esquerda de “aparelhar” as universidades. Isso seria possível? Como?

O concurso público para professores tem sido uma instituição acadêmica cada vez mais respeitada ao longo das últimas décadas. Cada vez mais um número expressivo de professores defende e promove a realização de concursos que busquem o melhor candidato disponível para exercer uma função intelectual específica, independentemente de suas filiações partidárias. Ademais, realmente existe liberdade de cátedra na universidade pública. Esse é o nosso universo e, nesse sentido, não me parece possível falar em “aparelhamento”: o que há, em vez disso, se não estou enganado, é a presença cada vez mais clara de um “ethos” intelectual que compreende o respeito a valores fundamentais a serem reconhecidos e respeitados como condições da qualidade da pesquisa acadêmica, no qual se incluem a isenção e a busca da concorrência pública em nome do aprimoramento dessa qualidade, independentemente de posições político-ideológicas.

Mas a vida intelectual na universidade tem outros aspectos. Existem grupos intelectuais que se pretendem representações da “esquerda” no interior da universidade e que buscam essencialmente preservar estruturas de poder, isto é, grupos que ainda atuam segundo a lógica da estrutura de cátedras, agregados em torno de um líder feudal, certamente brilhante, que buscam garantir hegemonia pela imposição de um determinado estilo teórico. Naturalmente, é de se esperar um conflito, em algum nível, entre esse modo de conceber a atividade intelectual e o tipo de atitude a que me referi. De todo modo, a relação com a esquerda num caso como este me pareceria ser casual, posto que tal atitude não decorre propriamente dessa orientação política e se faz presente de outras maneiras e por parte de grupos diversos.

Além disso, os sindicatos usualmente pretendem mobilizar um ideário de esquerda pela defesa de certos “direitos fundamentais” cujo beneficiário nem sempre é necessariamente a Universidade, ao menos compreendida como instituição pública voltada ao aprimoramento de seus critérios de eficiência e qualidade. Mas esse discurso se alimenta principalmente da omissão de pesquisadores que optam, compreensivelmente, por permanecer em seus laboratórios a tentar fazer suas posições terem alguma repercussão nas assembleias. Também aqui há um conflito latente (que geralmente eclode nos momentos finais da greve) entre as posições mais tradicionais do sindicato e aqueles que, em defesa de certos valores acadêmicos, acabam por ser tachados de “direitistas”.

Neste sentido específico, ainda que talvez a universidade tenha sido preservada por essa “esquerda” de reformas que poderiam ter sido nocivas, a sua atuação é hoje essencialmente conservadora e seu efeito, a meu ver, é negativo no que tange às eventuais transformações que se fariam necessárias para conferir maior excelência à nossa universidade pública, ao menos a partir de uma perspectiva de excelência menos provinciana.

3- Questões de vestibular, Enade e Enem, segundo parte da direita, seriam usadas como instrumento de doutrinação e de seleção de alunos que corroboram teses do atual governo. Isso faz sentido?

O vestibular normalmente é elaborado por uma comissão local de cada universidade, e usualmente os próprios departamentos colaboram com a formulação das questões. Ao menos na nossa área, essa suspeita é absurda. Quanto ao Enem e o Enade, tenho menos contato com o processo de elaboração, mas tendo a pensar, como o Adriano Codato, que as questões refletem principalmente o “cânone de pedagogos”. Isso não significa que a prova não possa ser aperfeiçoada, ou mesmo, especialmente, esse próprio cânone. Mas veja-se que neste mesmo caldo de críticas os próprios alunos do curso de Filosofia (como de outros cursos) embarcaram no boicote das provas, muitos deles decerto por acharem que a ideia da avaliação não seria suficientemente à esquerda. Acho que esse tumulto em torno dos exames é lamentável, pois eles são o resultado de um esforço de racionalização extremamente importante no processo de avaliação do ensino, sem o qual pouco se pode esperar em termos de aprimoramento da qualidade.

4- Por que a direita não tem mais representantes nos cursos de humanas? Faltam intelectuais à direita? Por quê?

Eu diria antes que faltam intelectuais, sem mais. Mas para responder à sua pergunta eu diria que é preciso olhar para a história recente do país. Durante o regime militar, a liberdade crítica esteve seriamente limitada, não apenas mas especialmente nas Universidades. Lembremos de episódios como os narrados pelo falecido geógrafo Aziz Ab’Saber, que repreendeu publicamente, durante uma aula, um agente do regime militar que frequentava seu curso e havia sequestrado uma colega de classe para torturá-la. Parece-me moralmente compreensível, num clima desses, que entre os interessados pela defesa de algum espírito crítico e da liberdade intelectual se desenvolvesse ojeriza pela “direita” e pelo que ela representa. Se assim é, boa parte da responsabilidade se deve à nossa direita.

Mas como você sabe esses conceitos são elásticos. Por vezes, partidários da esquerda imbuídos da crença de que todo e qualquer evento tem uma significação intrínseca no sentido de avançar ou de reter a realização do ideal pensam que toda reflexão que não se alinha com um pensamento da esquerda é necessariamente de “direita”. Do ponto de vista dessas pessoas decerto que a universidade está hoje dominada pela direita, na medida mesma em que nem a investigação nem o objeto de estudo estão diretamente atrelados a esse ideal.

5- Há risco de “doutrinação ideológica” dos alunos nas universidades?

Claro que sim, sempre há, mas não apenas na universidade, nem especialmente na universidade. Mas, novamente, é delírio achar que haveria um risco decorrente de um movimento orquestrado pela esquerda para esse fim nas salas de aula da universidade pública. Acho que temos um nível de liberdade acadêmica na vida universitária que favorece, ao menos potencialmente, o desenvolvimento de espírito crítico – compreendido aqui como a capacidade de distanciamento necessária para que se possam considerar adequadamente razões favoráveis e contrárias – e penso que muitos dos meus colegas atuam nesse sentindo. Muitos alunos, é verdade, vão à universidade (como a outros locais) em busca de doutrinação e a acabam encontrando, posto que muitos professores também se sentem bem na posição de pastores da verdade, mas isso novamente não é privilégio da esquerda nem da direita. Em síntese, acho que existe espaço suficiente para convidar os alunos a refletirem sobre essa situação e mesmo perceberem que as seduções doutrinárias de diferentes tipos poderia ser uma ocasião para aguçar o espírito crítico. O que nem sempre há é disposição de aceitar esse convite, novamente em parte, acho eu, por falta de um contato prévio mais adequado com o universo da reflexão intelectual.

FONTE: http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/caixa-zero/e-delirio-pensar-que-existe-uma-orquestracao-esquerdista-para-doutrinar-alunos/

Fernando Henrique Cardoso: O pensador e os pensadores

13540_ggO ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi eleito na quinta-feira, 27 de junho, em primeira votação, como novo membro da Academia Brasileira de Letras. Recebeu 34 dos 39 votos possíveis, e um acadêmico se absteve.

Sua eleição coincidiu com o lançamento de um interessante livro que se soma à sua vasta e fecunda obra — algo que não se pode dizer de alguns acadêmicos, como, por exemplo, o ex-vice-presidente Marco Maciel, do qual provavelmente nem os colegas acadêmicos são capazes de mencionar um único titulo.

FHC tem duas dezenas de obras publicadas.

Resenha de Julia Carvalho, publicada em edição impressa de VEJA

O PENSADOR E OS PENSADORES

Em uma coletânea de ensaios, Fernando Henrique Cardoso revisa os intelectuais que o formaram

Político habilidoso na formação de alianças que possibilitaram a grande arrancada modernizante do país, Fernando Henrique Cardoso nunca abandonou por completo o pensamento acadêmico.

Foi, à sua maneira, um presidente-sociólogo. “Sempre tive reservas à política com ‘p’ minúsculo, da articulação, do jogo. Participei dela quando precisei, mas, como sou sociólogo, era a grande política que realmente me interessava”, disse a VEJA.

Em seu novo livro, Pensadores que Inventaram o Brasil (Companhia das Letras; 336 páginas; 39,50 reais, ou 27,50 reais na versão eletrônica), o ex-presidente mescla sua excepcional capacidade de análise com um toque de memorialismo para escrever sobre intelectuais que, como ele, pensaram sobre o Brasil.

O livro reúne dezoito ensaios que analisam a obra de dez pensadores brasileiros, de Joaquim Nabuco a Celso Furtado. Entre esses textos, há material inédito e artigos, prefácios e conferências já publicados, mas revisados para a coletânea.

Um dos perfis que vêm à luz pela primeira vez é “Um crítico do estado: Raymundo Faoro”, dedicado ao autor de Os Donos do Poder. Nomes importantes da história intelectual do país, como Rui Barbosa e Oliveira Viana, ficaram de fora.

Explica Fernando Henrique: “Não é um livro que narra a história do pensamento brasileiro. Meu intuito foi apenas falar sobre grandes autores que me influenciaram, na sociologia ou na política. É um livro muito pessoal”.

Fernando Henrique conviveu com a maioria dos autores que agora analisa. Foi aluno de Antonio Candido e de Florestan Fernandes – de quem mais tarde foi vizinho e assistente – na Faculdade de Filosofia da USP. Dividiu casa com Celso Furtado durante o exílio no Chile. Sérgio Buarque de Holanda fez parte da banca que examinou seu doutorado, e Faoro foi seu companheiro na militância contra o regime militar.

Essa familiaridade não só com a teoria mas também com os autores resulta em uma combinação deliciosa. Em uma passagem, Fernando Henrique descreve o temperamento explosivo de Florestan, que certa vez gesticulou “com tal força numa reunião em Nova York, no Council of the Americas, que os americanos presentes me perguntaram: mas o que é isto? Porque o gesto não tinha correspondência na cultura americana”.

Os autores examinados são já tidos como clássicos. Por isso, como observa o historiador José Murilo de Carvalho no posfácio, o ensaísta às vezes repisa concepções consolidadas no meio acadêmico – mas sempre com um toque pessoal que esclarece conceitos, desvenda teorias, ilumina questões complexas.

Através do exame desses grandes pensadores do Brasil, tem-se um vislumbre do presidente-sociólogo.

Extraído de VEJA.

Sobre os Protestos no Brasil

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O erro de cálculo do governo do PT foi permitir a emergência, até certo ponto de forma forçada, de uma classe média ampla, sem a adequada estrutura econômica e de serviços para o seu desenvolvimento. Lógico. Não vai ser estádio que servirá para a manutenção dessa massa. Classe média não se manobra com circo, mas acalma-se com pão, na medida que um terreno fértil para o desenvolvimento econômico é o fundamento. E não estamos mais em 2007. Crescimento de 1% ao ano com inflação ameaçando assusta todo mundo. Fora o nível de endividamento das famílias que está nas alturas devido a desmedida oferta de crédito (já vi isso em algum lugar?) Por outro lado, a falta de prioridades e a corrupção deixam qualquer um fora de si. (Críticos do The Economist já alertavam que o ministro Mantega deveria ter sido mandado embora a mais de um ano). A percepção de inércia política, e de incompetência administrativa está altíssima entre todo mundo. Agora será que o governo vai fazer o dever de casa? Será que vai estabelecer eixos fortes de desenvolvimento (e aqui sugiro planos de saúde e educação nos moldes Sul Coreanos, além de REFORMA POLÍTICA e Tributária) e fiscalizá-los de forma efetiva? Será que vai criar mecanismos contra a corrupção? (A Pec37 é a favor da corrupção, essa não vale). Parece que estão muito mais preocupados em oferecer financiamento barato pra pobre comprar sofá e televisão do que realmente administrar de verdade o país. Lembro que na campanha de reeleição do Lula só se falava em reforma. Era política, Tributária, Previdência. Isso já faz o que? Quase 10 anos não? E aquela força que mostrou a Dilma nos primeiros meses? Porque parou a faxina? Porque estava perdendo base? Porque não governa por plebiscito? Cadê o pulso firme? Olha… na minha provinha a Dilma não tira nem 5. Isso que eu estava entusiasmado com o início de seu governo.

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SEGUE ABAIXO O TEXTO DA FOLHA QUE CORROBORA COM A ANÁLISE INICIAL. ESTAMOS NO CAMINHO DE ENTENDER ISSO TUDO:

23/06/2013 – 11h20

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2013/06/1299985-estrategia-economica-equivocada-detonou-inquietacao-popular.shtml

Estratégia econômica equivocada detonou inquietação popular

POR ÉRICA FRAGA E MARIANA CARNEIRO

Milhões de pessoas foram alçadas à classe média nos últimos anos. Passaram a demandar carros, viagens de avião, eletrodomésticos, educação. Mas não houve investimentos suficientes para melhorar o tráfego urbano, expandir a capacidade dos aeroportos, aumentar a oferta de energia e a qualidade das escolas.

A frustração com essa falta de contrapartida às expectativas geradas pela expansão da renda foi exacerbada recentemente pelo crescimento econômico anêmico e pela inflação mais elevada.

Esse é o pano de fundo econômico da revolta social que eclodiu nas últimas semanas.

“A precariedade do dia a dia nos centros urbanos brasileiros é uma coisa muito séria e está em parte ligada a essa afluência do período recente”, diz o economista e filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca, do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa).

Para Giannetti, “o desperdício de tempo e a frustração cotidiana no trânsito” têm um papel mais relevante nas manifestações recentes do que o aumento das tarifas.

CLASSE MÉDIA
Segundo o Datafolha, a classe média brasileira representava 63,6% da população em 2011, dividida em três subgrupos (baixo, médio e intermediário). Uma década antes, essa camada que separa os ricos dos excluídos equivalia a 57,3% dos brasileiros.

O aumento da classe média se deveu ao controle da inflação, ao crescimento econômico mais forte, à expansão do crédito e às políticas de distribuição de renda. Nos últimos dois anos, no entanto, três desses motores começaram a fraquejar. A economia perdeu fôlego. Depois de crescer a uma média anual de 3,7% entre 2000 e 2010, o PIB (Produto Interno Bruto) se expandiu 2,7% em 2011 e apenas 0,9% no ano passado.

O ritmo de aumento dos empréstimos bancários despencou de mais de 30% ao ano em 2008 para cerca de 10% atualmente. E a inflação bateu recentemente no limite que o próprio governo considera aceitável.

Por trás da alta geral de preços de 6,5% ao ano, estão aumentos ainda maiores de alimentos e serviços, que corroem a renda principalmente da população mais pobre. “Embora o desemprego não tenha aumentado, a erosão do poder de compra atingiu os consumidores, que também têm lidado com dívidas maiores”, diz Robert Wood, analista de América Latina, da Economist Intelligence Unit.

DIAS PIORES
A economia do Brasil já viveu dias piores. A realidade atual está distante do cenário de recessão e inflação descontrolada, na casa do milhar, do início da década de 90. Mas a deterioração recente atingiu a população em um momento em que os anseios por melhores condições de vida ganhavam força.

“Tivemos uma oportunidade perdida”, afirma Edmar Bacha, um dos formuladores do Plano Real. “Não conseguimos encontrar um caminho, a bonança foi embora e agora temos que lidar com uma realidade econômica mais difícil”. Bacha diz que as frustrações recentes foram uma mistura de revoltas contra a “Belíndia” e contra a “Ingana”.

Nos anos 70, o economista criou a fábula da Belíndia, na qual descrevia um país com desigualdade social própria da Índia e riquezas, medidas pelo PIB, próprias da Bélgica. Era uma alusão ao Brasil. Mais recentemente, surgiu o termo Ingana, uma conjugação da arrecadação de impostos de padrão inglês e serviços públicos à la Gana.

A revolta atual, acredita Bacha, é uma maneira de protestar contra o país dos privilégios, onde há uma sensação generalizada de que os governantes gastam mais consigo mesmos, enquanto a qualidade dos serviços públicos é baixa.

O aumento das passagens do transporte público foi, segundo especialistas, o catalisador da transformação dessas expectativas frustradas em ação nas ruas.

Para Giannetti, a decisão do governo de postergar a elevação da tarifa do início do ano para agora foi um erro decisivo para a deflagração das manifestações.

A estratégia das autoridades foi tentar evitar que a correção dos preços do transporte entornasse o caldo inflacionário em janeiro, mês em que já havia fortes pressões de reajustes. O problema, segundo Giannetti, é que o cálculo do governo foi malfeito. O aumento adiado acabou culminando com o momento de pico da inflação, quando certo clima de insatisfação popular, expresso na recente queda de popularidade da presidente Dilma Rousseff, já tomava forma.

Esse erro no cálculo das consequências de decisões econômicas se seguiu a outros que, segundo especialistas, também contribuíram para a situação atual. Medidas como redução de impostos e represamento de aumento dos preços de combustíveis favoreceram a explosão da frota de veículos nos últimos anos.

Mas a falta de investimentos para acomodar essa expansão, assim como o maior número de passageiros nos ônibus, trens e metrô, conduziu a recordes de tempo gasto no trânsito nas grandes cidades.

“O fato de as pessoas perderem duas, três, quatro horas por dia no transporte público tem um efeito cumulativo de frustração e de raiva”, diz Giannetti.

Bacha observa que essa realidade requer respostas mais custosas e complexas do que os desafios enfrentados no passado recente.

Programas sociais como o Bolsa Família contribuíram para a queda da desigualdade, mas faltam ações para atender às demandas por melhores condições de saúde, educação de qualidade e maior segurança. “Em certo sentido, combater a pobreza é mais fácil do que lidar com a oferta de serviços públicos de qualidade”, afirma Bacha.

DESAFIO
O discurso adotado pelo governo e endossado por analistas e investidores, de que o Brasil tinha finalmente chegado lá, contribuiu para criar uma sensação de progresso significativo à vista.

“Isso aumentou as expectativas das pessoas, por isso não é coincidência que os protestos tenham vindo após um período de crescimento fraco”, diz Wood.

A realidade mais difícil dos últimos meses, inflada pela sensação de que o país ainda precisa melhorar muito, entrou em choque com a imagem do gigante que despertou e sediará os dois mais importantes eventos esportivos do mundo nos próximos anos. “Acho que o esforço de maquiagem para mostrar ao mundo um país que não existe contribui para a revolta das pessoas”, afirma Giannetti.

O desafio do governo agora é enfrentar a revolução da expectativa frustrada de um futuro melhor.

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