Arquivo da categoria: Filosofia

A Filosofia da adúltera: Ensaios selvagens – Pondé

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“A Filosofia da adúltera: Ensaios selvagens” de Luiz Felipe Pondé. Eu gosto muito do Pondé, não acho que seja um “intelectual bufão” como Llosa enxerga os modernos filósofos da mídia. Acredito que há um meio termo entre a dureza intelectual das obras acadêmicas e a vida não acadêmica daqueles que permanecem fora da esfera das Ciências Humanas nas suas realidades. Há um espaço – muitas vezes preenchido de forma anárquica por fraquíssimos livros de autoajuda – que deveria ser considerado pela filosofia de forma mais enfática. Boas análises podem ser, ao mesmo tempo, embasadas e bem feitas, sem que sejam excluídos elementos de deleite tais  como humor, referências de literatura e da realidade. Dessa forma, se tira das academias o monopólio do pensamento intelectual, fazendo surgir mais locais de proliferação de filosofia, de sociologia, etc. Por isso gosto do Pondé. Acho que é um dos corajosos que deixa a hipocrisia do lado de fora e combate o ranço acadêmico. “A Filosofia da adúltera” é um trabalho delicioso. Há reflexões pontuais sobre democracia, ciências sociais, política, educação, mídia e cultura, além de uma abordagem fabulosa do feminismo e do sexo – tudo com uma poderosa lente de realidade baseada no pensamento de Nelson Rodrigues. Além disso, traz os desdobramentos do arquétipo da mulher adúltera, na sociedade brasileira contemporânea, como representação da condição humana, da escravidão mental, do tédio da repetição, da tristeza da mentira social. Que mais poderia pedir além disso? Gostei muito, talvez mais do que o “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” – que também é muito bacana, por sinal.

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A Lei Moral e o Imperativo Categórico de Kant

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Na lápide de Kant, em Königsberg, encontramos uma de suas citações mais conhecidas: “Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim. São para mim provas de que há um Deus sobre mim e um Deus dentro de mim“. Kant considerava a distinção entre o certo e o errado uma questão real e palpável. Para ele todas as pessoas sabem distinguir uma coisa da outra não por ter aprendido, mas porque todos possuímos uma razão prática que nos diz em qualquer tempo o que é certo e errado em nossa esfera moral – essa capacidade, que é a lei moral é tão absoluta quanto as leis da física. Ela antecede toda e qualquer experiência e não se vincula a nada que envolva uma escolha, pois é imperativa, absoluta e abrangente. Para Kant a lei moral é a consciência humana, que nos distingue dos animais, não pode ser comprovada pela razão, mas é inevitável. Quando faço algo, tenho que me certificar que qualquer um faria o mesmo naquela situação. Nisso implica seu imperativo categórico, que demanda que devemos tratar o outro com um fim em si mesmo, e não como um meio. Não posso usar outros ou a mim mesmo como meio – por isso a ética de Kant é descrita como a ética do dever. Para o filósofo, somente quando em consonância com a lei moral é que sou verdadeiramente livre, pois quando escravos da causalidade não temos livre arbítrio – vide os animais. Porém, quando nos submetemos a lei moral, somos nós que determinamos a lei que vai nos governar.

Para saber mais sobre Kant:

https://faceaovento.com/2008/07/31/ciencia-e-filosofia-moderna/

A Civilização do Espetáculo – Llosa

42130081“A civilização do espetáculo – Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura” de Mario Vargas Llosa. O Prêmio Nobel de Literatura de 2010 descreve um contexto no qual a cultura se aproxima cada vez mais do entretenimento e se afasta da reflexão. Qualquer empreendimento que exija algum esforço intelectual maior tende a ser rejeitado pelo leitor/consumidor em busca de prazeres fáceis e instantâneos, “que os imunize contra a preocupação e a responsabilidade”. O efeito disso é um estado de permanente confusão e oportunismo, no qual os maiores patifes e embusteiros são celebrados como grandes artistas, e o descaramento e o marketing substituem o talento. Aliás, já não é possível, afirma o autor, discernir com certa objetividade o que é ter ou não ter talento, “o que é belo e o que é feio, qual obra representa algo novo e duradouro e qual não passa de fogo de palha”. A obra sem dúvida é um pouco elitista e conservadora, e até muito pessimista, mas verdadeira em grande parte de seu espectro – a despeito de seus julgamentos.

Mi­nis­té­rio da Edu­ca­ção libera 62 obras sobre os principais pensadores da educação para download

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O Mi­nis­té­rio da Edu­ca­ção, em par­ce­ria com a Unes­co e a Fun­da­ção Jo­a­quim Na­bu­co, dis­po­ni­bi­li­za pa­ra downlo­ad a Co­le­ção Edu­ca­do­res, uma sé­rie com 62 li­vros so­bre per­so­na­li­da­des da edu­ca­ção. A co­le­ção traz en­sai­os bi­o­grá­fi­cos so­bre 30 pen­sa­do­res bra­si­lei­ros, 30 es­tran­gei­ros, e dois ma­ni­fes­tos: “Pi­o­nei­ros da Edu­ca­ção No­va”, de 1932, e “Edu­ca­do­res”, de 1959. A es­co­lha dos no­mes pa­ra com­por a co­le­ção foi fei­ta por re­pre­sen­tan­tes de ins­ti­tu­i­ções edu­ca­cio­nais, uni­ver­si­da­des e Unes­co.

In­te­gram a co­le­ção os se­guin­tes edu­ca­do­res/pen­sa­do­res: Al­ceu Amo­ro­so Li­ma, Al­fred Bi­net, Al­mei­da Jú­ni­or, An­drés Bel­lo, An­ton Maka­renko, An­to­nio Gram­sci, Aní­sio Tei­xei­ra, Apa­re­ci­da Joly Gou­veia, Ar­man­da Ál­va­ro Al­ber­to, Aze­re­do Cou­ti­nho, Ber­tha Lutz, Bog­dan Su­cho­dolski, Carl Ro­gers, Ce­cí­lia Mei­re­les, Cel­so Su­cow da Fon­se­ca, Cé­les­tin Frei­net, Darcy Ri­bei­ro, Do­min­go Sar­mi­en­to, Dur­me­val Tri­guei­ro, Ed­gard Ro­quet­te-Pin­to, Fer­nan­do de Aze­ve­do, Flo­res­tan Fer­nan­des, Fre­de­ric Skin­ner, Fri­e­drich Frö­bel, Fri­e­drich He­gel, Fro­ta Pes­soa, Ge­org Kers­chen­stei­ner, Gil­ber­to Freyre, Gus­ta­vo Ca­pa­ne­ma, Hei­tor Vil­la-Lo­bos, He­le­na An­ti­poff, Hen­ri Wal­lon, Hum­ber­to Mau­ro, Ivan Il­lich, Jan Amos Co­mê­nio, Je­an Pi­a­get, Je­an-Jac­ques Rous­se­au, Je­an-Ovi­de De­croly, Jo­hann Her­bart, Jo­hann Pes­ta­loz­zi, John Dewey, Jo­sé Mar­tí, Jo­sé Má­rio Pi­res Aza­nha, Jo­sé Pe­dro Va­re­la, Jú­lio de Mes­qui­ta Fi­lho, Liev Se­mio­no­vich Vygotsky, Lou­ren­ço Fi­lho, Ma­no­el Bom­fim, Ma­nu­el da Nó­bre­ga, Ma­ria Mon­tes­so­ri, Ní­sia Flo­res­ta, Or­te­ga y Gas­set, Pas­cho­al Lem­me, Pau­lo Frei­re, Ro­ger Cou­si­net, Rui Bar­bo­sa, Sam­paio Dó­ria, Sig­mund Freud,Val­nir Cha­gas, Édou­ard Cla­pa­rè­de e Émi­le Durkheim.

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Quais são as três principais deficiências na evolução darwinista conforme ensinadas hoje nas escolas públicas?

Nós geralmente recebemos e-mails de estudantes buscando informação sobre a evolução. Recentemente um estudante universitário fez a seguinte pergunta: “Quais são a três principais deficiências na teoria evolucionária sendo ensinada hoje nas escolas públicas?” Minha resposta foi a seguinte:

“Infelizmente a maioria das escolas públicas NÃO ensinam sobre as deficiências na teoria evolucionária. Em vez disso, eles censuram esta informação, escondendo dos alunos toda a ciência que desafia a evolução darwinista. Mas em um mundo perfeito, se as evidencias contra a teoria darwinista fossem ensinadas, essas seriam as minhas três escolhas principais:

(1) Dizer aos alunos que o registro fóssil frequentemente não tem formas transicionais e que há “explosões” de novas formas de vida, um padrão de radiações que desafia a teoria evolucionária darwinista.

(2) Dizer aos alunos que muitos cientistas têm desafiado a capacidade da mutação aleatória e da seleção natural de produzir características biológicas complexas.

(3) Dizer aos alunos que muitas linhas de evidência a favor da evolução darwinista e do ancestral comum são fracas:

a. Os embriões vertebrados começam a se desenvolver muito diferentemente, em contraste com os desenhos dos embriões frequentemente encontrados nos livros didáticos que, na maioria, aparecem semelhantes.

b. A evidencia do DNA pinta quadros conflitantes da “árvore da vida”. Não existe nenhuma única “árvore”.”

c. A evidencia de mudanças de pequena escala, tais como as mudanças modestas no tamanho dos bicos de tentilhões ou as leves mudanças nas frequências de cor nas asas das “mariposas almiscaradas”, mostra microevolução, NÃO MOSTRA macroevolução.

É claro, em um mundo perfeito, eu também preferiria que mais do que meramente ‘três deficiências na teoria evolucionária” fossem ensinadas aos estudantes.

Eu também indiquei ao estudante um recurso que nós enviamos regularmente para alunos universitários, The College Student’s Back-to-School Guide to Intelligent Design [O guia sobre Design Inteligente do estudante universitário de volta à escola], que contém um punhado de respostas úteis para as objeções comuns ao Design Inteligente.

(Texto publicado no blog Desafiando a Nomenklatura Científica).

Bertrand Russell e a perspectiva liberal

Talvez a essência da perspectiva liberal pudesse ser resumida em um novo decálogo, não destinado a substituir o antigo decálogo, mas somente a suplementá-lo. Os dez mandamentos que, como professor, eu gostaria de promulgar, deveriam ser definidos assim:

1. Não sinta absolutamente certeza de nada.

2. Não pense que valha a pena proceder escondendo a evidência, pois a evidência certamente virá à luz.

3. Não tente desencorajar pensando que você tem certeza de que terá êxito.

4. Quando enfrentar oposição, mesmo que seja de seu esposo ou filhos, tente vencer pelo argumento e não pela autoridade, pois uma vitória que depende da autoridade é irreal e ilusória.

5. Não tenha respeito pela autoridade dos outros, pois há sempre autoridades contrárias a ser encontradas.

6. Não use o poder para suprimir as opiniões que você julga perniciosas, pois, se o fizer, as opiniões irão lhe suprimir.

7. Não tema ser excêntrico em opinião, pois cada opinião hoje aceita foi uma vez excêntrica.

8. Sinta mais prazer na dissensão inteligente do que na concordância passiva, pois, se você valorizar a inteligência como você deveria, a primeira implica em uma concordância mais profunda do que a última.

9. Seja escrupulosamente confiável, mesmo se a verdade for inconveniente, pois é mais inconveniente quando você tenta escondê-la.

10. Não sinta inveja da felicidade daqueles que vivem em um paraíso de loucos, pois somente um louco pensará que isso é felicidade.

(RUSSELL, Bertrand. The Best Answer to Fanaticism – Liberalism; Its calm search for truth, viewed as dangerous in many places, remains the hope of humanity. New York Times Magazine, 16/12/1951).

Bertrand Russell foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX. Político liberal, ativista e um popularizador da filosofia, Russell recebeu o Nobel de Literatura de 1950, “em reconhecimento dos seus variados e significativos escritos, nos quais ele lutou por ideais humanitários e pela liberdade do pensamento”. Até à sua morte, a sua voz deteve sempre autoridade moral, uma vez que ele foi um crítico influente das armas nucleares e da guerra americana no Vietnã. Era inquieto.

(Texto publicado no blog Desafiando a Nomenklatura Científica).