Arquivo da categoria: Teoria da História

Brasil Paralelo

Se você é de Humanas, ou melhor, se é BRASILEIRO, tem que conhecer o BRASIL PARALELO. A nossa história está sendo recontada sem os vícios historiográficos que pesam sobre nossa formação na academica. Assista nem que seja para criticar.

São duas séries. A primeira chama-se Congresso Brasil Paralelo, e já está toda online. A segunda – intitulada A Última Cruzada –  ainda está em desenvolvimento, mas já temos dois episódios, disponíveis. Segue os vídeos iniciais.

 

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Marcos Candeloro: O dia em que deixei de acreditar no curso de história da USP

Por Marcos Paulo Candeloro, 26 anos, graduado em História pela USP, pesquisador na área de Ciência Política e professor de História, Sociologia e Filosofia no Ensino Médio privado de Ribeirão Preto (SP).

Em frente ao edifício da reitoria da Universidade de São Paulo, as pessoas se concentravam para a Assembleia Geral. No estacionamento, veículos de comunicação aguardavam os desdobramentos da noite, impedidos de avançar por militantes mascarados. Era novembro de 2011 e havia duas semanas que a greve dos professores, as manifestações na Paulista e a invasão da reitoria arrebataram as principais manchetes nacionais. Os estudantes se revoltavam contra o acordo firmado entre reitoria e Polícia Militar, que se tornaria responsável pelo policiamento da perigosa Cidade Universitária.

Aquele foi meu terceiro e mais difícil ano na graduação em História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Naquela altura, já eram evidentes as consequências relacionadas às minhas posturas políticas e acadêmicas. Fui escarnecido e quase reprovado ao fundamentar no conservador Edmund Burke minha dissertação sobre a Revolução Francesa. Minha negação em assinar um protesto contra a presença da PM no campus transformou, de imediato, alguns amigos em inimigos. Por pouco não apanhei de uma horda raivosa de feministas pacifistas quando, quase que por acidente, classifiquei como loucura a acusação, presente num coletivo, de que a disciplina História Industrial era burguesa e machista.

Cheguei muito próximo de meu limite. Estava eu errado em não me ajustar, ser tão diferente? Afinal, em meu currículo não constava um “professor doutor” antes do nome. Vivia a agonia do desajustado, do deslocado.

A Assembleia prosseguia quando, subitamente, fui tomado por um ímpeto que me levou à lista dos inscritos: o primeiro tema rejeitado por votação consistia em um convite de Heródoto Barbeiro para um breve debate televisivo. Não houve qualquer ponderação, apenas rejeição. Indignado, decidi retomar o convite e argumentar em seu favor. Tratava-se de um respeitado comunicador, além da oportunidade sem igual de estabelecer diálogo com o contribuinte que sustentava aquela insanidade.

À minha esquerda, a mesa organizadora anunciou minha participação. Diante de meus pés, uma multidão de dois mil alunos e docentes. Destinei os dois primeiros minutos à urgência em finalmente abandonar a torre de marfim acadêmica. Para mim, “era evidente e grave o descompasso acadêmico, em quase todas as suas expressões, com o resto do mundo. Se, afinal, tratava-se de um movimento legítimo, por que não dar a cara a tapa?”. Foi a última frase que completei antes de ser silenciado por coléricas vaias. Catedráticos, alguns dos quais meus professores, gritavam e urravam em consonância com a multidão. Diante de mim, a elite intelectual uspiana desmanchava-se raivosamente em uma pantomima simiesca.

A mesa organizadora, de má vontade e sem muito sucesso, pediu respeito e silêncio. Retomei a argumentação sem saber bem o porquê, talvez por inércia. Esforcei-me para concluir a proposta, mas fui histericamente interrompido por dois ou três indivíduos zurrando que ir aos estúdios televisivos era coadunar com o grande capital (não, não estou brincando). Em poucos instantes uma nova rodada de vaias foi iniciada. Devolvi educadamente o microfone aos organizadores, dei às costas e segui para o estacionamento apinhado de veículos de imprensa. O sorriso foi inevitável ao finalmente constatar que a USP estava perdida numa esquizofrenia utópica. Fui tomado pelo alívio compreensivo de que, de fato, aquele não era meu lugar. Percebi que o curso de história da USP não formava acadêmicos. Formava militantes.

Concepção de História para Marx

“A história de todas as sociedades que existiram até hoje é a história de lutas de classe” Logo na primeira frase do capítulo I do Manifesto Comunista Marx deixa claro que, em sua visão, sempre houve uma divisão entre opressores e oprimidos. Segundo o pensador, essa contradição pode ser observada desde a antiguidade até seus dias – entre homens livres e escravos, patrícios e plebeus, servos e senhores, burgueses e proletários. Seus trabalhos históricos se desenvolveram com base nessa premissa, se fundamentando no materialismo histórico. Para Marx, o modo de produção econômico (base), determina os aspectos culturais (superestrutura). Em outras palavras, não se pode julgar uma sociedade a partir de sua própria consciência, mas pelo contrário, é preciso explicar essa consciência a partir das contradições da vida material e do conflito entre as classes. Marx escreveu: “o modo de produção da vida material condiciona o processo em geral de vida social, político e espiritual” (Prefácio para a Crítica da Economia Política). Nesse sentido, a metáfora da base e da superestrutura, permeada pela luta de classes, é o fundamento para a concepção de História desenvolvida no Manifesto.

História e Teoria na Era dos Extremos

Estevão Rezende de Martins, em seu texto “História e Teoria na Era dos Extremos” [1], trabalha com os diferentes extremos que a produção historiográfica do século XX conheceu. Segundo o autor, os extremos foram – ou talvez ainda sejam – a irrestrita confiança nas fontes, o relativismo cético, a necessidade de se estabelecer modelos, a tentação totalitária de dogmatização, o risco da inespecificidade do conhecimento histórico, e a ameaça de sua dissolução em outras especialidades.

Como resposta ao desafio da historiografia do século XX, de legitimar seu conhecimento, afirma-se a adoção de sólida sustentação teórica. A diferença em relação ao século XIX, segundo o autor, estava então na afirmação da cientificidade das ciências sociais. Entretanto, o século XX viu oscilar a concepção do conhecimento histórico entre um ceticismo zombeteiro, e uma confiança ilimitada nas informações da fonte. Contudo a consciência histórica soube articular entre esses dois extremos, ou seja, “nem a informação é canônica por simplesmente estar presente em alguma fonte, nem a certeza é uma mera questão de subjetividade particular”. Entendemos então, que a fim de conceber trabalhos efetivamente legítimos e válidos, o equilíbrio entre investigação, método, subjetividade e racionalidade deve ser pretendido não apenas por historiadores, mas por todo cientista. Na História encaramos o passado como um ato real, sendo sua reconstrução feita da melhor forma possível em função da disponibilidade de fontes.

Outro ponto importante do século XX notado por Martins é o crescimento da abordagem sistemática da historiografia como objeto de pesquisa. Temos fundamentalmente três casos. Inicialmente a legitimação da história diante do paradigma das ciências naturais experimentais. Como no caso do positivismo que, mediante suas fontes – entendidas como verdadeiras – afirmava conceber sempre um conhecimento científico, verdadeiro e até mesmo exato. O segundo caso é dominado pelos Annales, desde sua fundação em 1929 até os anos 60, que se afirma mediante o empirismo de seu conhecimento. O terceiro trata da articulação da fundamentação teórica com a realização prática, que ocorre desde há meio século, independente da filiação doutrinária do historiador.

Esses três casos originam-se de duas formas de percepção e experiência da realidade. A primeira é a pesquisa empírica direta expressa no investigar, definir, identificar, delimitar, localizar, constatar ou afirmar como tendo sido o caso, o acontecimento, o fato. Porém esse acontecimento não se esgota em si, através da simples constatação mediada pelas fontes, há a necessidade de contextualização para se poder compreender, explicar e apresentar o fato. A segunda forma de percepção se dá na utilização da própria práxis do historiador, na forma da historiografia, como matéria prima para a teoria da história. Dessa forma Martins conclui então que se têm duas formas de mediação do passado: Primeiro as fontes, e segundo a produção historiográfica sobre o evento ou período de estudo. Essa produção – devemos entender assim – é reflexo do próprio tempo em que foi desenvolvida, fruto das perguntas que naquele momento eram pertinentes ao passado. Essa é a natureza da produção histórica, transformar-se em historiografia a ser consultada pelo futuro. A esse respeito o autor afirma:

“A história dessa historiografia é hoje um manancial importante para retraçar o itinerário metódico que levou à consolidação do caráter científico da história e para reconstruir a arquitetura teórica nas ciências sociais que forneceu à pesquisa histórica seu grau de autonomia”.

A teoria da história é a responsável pela autocrítica da história, para a problematização de seus conceitos. Assim se revê controvérsias antigas, abordagens esquecidas e se reexamina velhos argumentos. Martins afirma que “A teoria da história é, pois, uma vertente da epistemologia das ciências sociais, que se constrói a partir da experiência acumulada de pesquisa empírica na historiografia”.

O autor trata ainda da importante questão dos paradigmas da história, ou de seus modelos de explicação. Segundo ele, a partir da adaptação do conceito, sob o nome de matriz disciplinar, por Jörn Rüsen, houve uma larga aceitação entre os profissionais de história. Entende-se então, que a ciência da história também se desenvolveu ao longo de rupturas e transformações nos modelos de explicação. Dessa forma é possível identificar fases de transição, marcadas por controvérsias acerca dos fundamentos da especialidade, diferente da época em que se pesquisava sem questionamentos, apenas recorrendo-se aos modelos consagrados.

Rusën identifica então cinco aspectos ou paradigmas nos modelos explicativos: A influencia da carência de orientações do presente nas questões do historiador, as idéias ou perspectivas que determinam a forma com que se lida com o passado, as regras da pesquisa empírica, as formas de apresentação e as funções da cultura histórica. A expressão “matriz disciplinar” foi escolhida por Rusën devido à realidade multifacetada da historiografia contemporânea, o que permitiria uma elaboração de historiografias a partir de pressupostos teóricos distintos sem se esgotar em discussões políticas sobre qual teoria seria a verdadeira ou correta. Contudo dois requisitos são fundamentais na utilização de uma matriz disciplinar: a racionalidade e a pretensão de verdade. Martins afirma que não obstante a subjetividade, “a racionalidade e a verdade pré-tendem a ação cognitiva de todo cientista, inclusive a do historiador”.

O autor ainda toca em outro aspecto da história que, conforme colocado no resumo de seu artigo, representa outro extremo vivido pela historiografia do século XX. Trata-se da interdisciplinaridade da história e da aparência de uma dissolução entre outras especialidades. Martins lembra que a história é parte de outro campo maior, o das ciências humanas, que lhe proporciona um relacionamento com as disciplinas aparentadas, o que à sustem. Do ponto de vista metódico e epistêmico, esse relacionamento é fundamental tanto para a perspectiva interpretativa dos fenômenos de massa (macro-história), como para os fenômenos particulares (micro-história).  O autor afirma:

“A teoria da história, assim, não pode deixar de incluir em seu campo de abordagem a circunstancia estratégica da transposição epistemológica interdisciplinar. Teoria literária, teoria sociológica, teoria política, dentre tantas outras tornaram-se instrumentos operacionais sem os quais a evolução mesma da disciplina científica da história se inviabilizaria”.

Martins pergunta então o que faz da história uma ciência. Seria, segundo ele, a elaboração argumentativa e de forma metodologicamente controlável, da explicação das ocorrências que se deram no passado por força da ação humana. Obviamente respeitando determinado corte temporal. Nessa construção de história se entrelaçam o político, o econômico, o social e o cultural. Segundo o autor a presença de todos esses fatores faz da história o campo principal das chamadas ciências da cultura.

Na terceira parte de seu artigo, Estevão de Rezende Martins expôs os riscos de se transpor determinadas crenças e valores, sejam eles de qualquer espécie, para o campo da pesquisa científica. E exemplifica isso ao tratar da consolidação da história como elemento importante da cultura política no século XX. Nas suas palavras, “não poucos historiadores engajaram-se em movimentos político-sociais, em polêmicas na mídia acerca de questões de atualidade interna e internacional, colocaram seu saber profissional a serviço de projetos conjunturais de sociedade” [6]. Isso poderia, na visão de Martins, levar ao extremo da dogmatização.

Por fim, o autor afirma ainda enxergar uma historiografia fortemente nacional. Mesmo os estudos de outras culturas (como sobre a América Latina), por exemplo, ainda são escritos na língua da própria nação do historiador, para o público daquele determinado país e, dificilmente, são traduzidos em outros idiomas. Contudo, isso não impede o intercâmbio de idéias e a troca de experiências contrastantes. Pode-se dizer que ao longo dos últimos 120 anos a metodologia, a autodefinição dos historiadores e a elaboração teoria promoveram uma aproximação entre especialistas de várias partes do mundo. O objetivo da teoria da história seria então encontrar os denominadores comuns que permitem analisar de forma segura as produções historiográficas, além de contribuir para que se evite cair novamente nos extremos epistemológicos os quais a história já conheceu.


[1] MARTINS, E. C. R. História e teoria na era dos extremos. Fênix. Revista de História e Estudos Culturais, Uberlândia, v. 3, n. 2, p. 1-19, 2006.

Entrevista com Pierre Vilar

Em entrevista concedida em Paris, em abril de 1992, o historiador Pierre Vilar, fiel ao ensino de história como problema, e preocupado com o rigor metodológico, aponta para a estreiteza de uma formação monodisciplinar. Seu pensamento pode ser entendido no sentido do trabalho histórico global, de cunho marxista, que lança mão incessantemente das ciências humanas.

Vilar iniciou sua carreira como geógrafo, mas remontando cada vez mais longe no passado acabou se tornando historiador. Isso permitiu que não se esquecesse de levar em conta as condições materiais, geográficas e técnicas em suas análises. Concebendo, inicialmente, a história como uma ciência universal, o autor vê em sua concepção historiográfica a impossibilidade de uma história que não “global”. Para ele a especialização é preocupante para a historiografia, sendo que a “história em migalhas” vai contra aquilo que muitos esperam do historiador: “aquele que deveria sintetizar os conhecimentos sobre o homem e sobre a evolução da humanidade”.

Para Vilar, a formação ideal para o historiador de hoje seria aquela que levasse em conta a visão total das coisas, não se limitando a uma única linha, pois a pretensão de uma ciência a se bastar a si mesma é errada, nenhuma se basta. Sendo que é a perspectiva interdisciplinar que deve ser incentivada.

Outra questão importante comentada por Vilar é a percepção do tempo. Ainda que, como historiador, seja impossível não sentir os acontecimentos – tendo estes de ser usados para suscitar perguntas – é a longa duração que importa para o pesquisador. Para ele “a história não pode se desenvolver sem a estabilidade a muito longo prazo de um certo número de fatores. […] Na escala humana, isto é, para si mesmo, só se pode, obviamente, contar com os acontecimentos. Se, ao contrário, se procura considerar o destino da humanidade, é coisa bem diferente”.

Por último Vilar afirma que, nem mesmo quando seus objetos de estudo se localizavam muito distantes no passado, seus trabalhos permaneceram alheios à apreensão do presente. Isso, certamente, é uma lição que os historiadores deveriam aprender, pois ainda que toda pergunta seja formulada a partir do tempo presente, cabe ao pesquisador levar em consideração as solicitações, as necessidades, e as lacunas da historiografia atual.

Referência: BOUTIER, Jean e JULIA, Dominique (orgs.). Passados recompostos: campos e canteiros da história. Rio de Janeiro: UFRJ e Fundação Getúlio Vargas, 1998, pp. 271-297.

Em que pensam os historiadores?

Em que pensam os historiadores? É a pergunta colocada na obra de Jean Boutier e Dominique Julia.  Segundo esses autores, nos últimos anos – mais precisamente desde a década de 1960 – surgiu urgência de uma retomada da reflexão sobre a profissão do historiador, ainda que não lhes fosse esperado que elaborassem complexas arquiteturas teóricas. A aceleração das mudanças nos últimos anos levou certos historiadores a falar de crises, dúvidas, e incertezas – e isso não somente na França.

Para Boutier e Julia, dentro dessa perspectiva, tais questionamentos foram, provavelmente, resultado de três séries de fenômenos: Primeiramente as rápidas transformações do ensino secundário, tornado ensino de massa. Os historiadores tiveram de lutar para manter a história nos programas diante da invasão das ciências exatas, consideradas mais úteis. Braudel e Le Goff tiveram aqui papel fundamental. Em segundo lugar ocorreu uma separação entre a história acadêmica e a história vulgar, praticada – mediocremente – por amadores. Surge aqui uma crescente demanda por livros destinados ao grande público instruído, e um novo diálogo nasce– entre pesquisa de ponta e o mercado editorial. Tenta-se ocupar o vazio entre o jornalismo histórico e as teses dificilmente acessíveis. “A própria escrita da história sentiu os efeitos dessa abertura”  . A terceira e última série de fenômenos foi, sem dúvida, a mais importante: A história é levada a redefinir métodos, objetivos, e problemáticas em face às ciências sociais e humanas. O que fazemos, perguntam-se os historiadores.

Em 1974 é publicado Faire de l’histoire, um divisor de águas com 3 volumes e o ambicioso objetivo de ilustrar e promover os caminhos da pesquisa histórica. “Um novo tipo de história para esclarecer a história a ser feita”  . “Os subtítulos de cada um dos volumes manifestam esse interesse pelas mutações recentes da profissão: ‘Novos problemas’, que repensem a definição da história sob a ‘provocação’ das outras ciências humanas; ‘Novas abordagens’, que modifiquem os recortes tradicionais em diferentes setores bem balizados; ‘Novos objetos’, que em sua bulimia devorante a história apropria e que se desenrolam […]”. Faire de l’histoire acompanha a passagem de um paradigma onde a análise macro-econômica era o principal para uma história que apreende os sistemas culturais em um sentido mais amplo. Não mais apenas a civilização escrita ou da imagem, mas estudar o sexo, a vida, a morte, etc. Outra questão importante que Faire de l’histoire já anunciava era a fragmentação da disciplina – tão criticada por Pierre Vilar. A aventura da história “total” foi então duramente criticada. E a viabilidade do progresso da disciplina, entendido somente na medida da delimitação de seu projeto  . A partir daí o historiador deixou de visar o paraíso de uma história global.

Vinte anos depois da publicação de Faire de l’histoire, a historiografia expande seu território com a introdução de novas abordagens, domínios e objetos. “A história social e econômica, por muito tempo dominante na França, apagou-se diante do avanço da história cultural, mas também da história política, em história contemporânea”  . A rigidez dos quadros “estruturais” (econômico, social, mental) desgastou-se, a quantificação perdeu terreno – ainda que permaneça como instrumento importante – e a realidade histórica é cada vez menos examinada como objeto dotado de propriedades que preexistem à análise.

A grande questão que permanece então é: Porque certos historiadores insistem em falar de crise em meio a um panorama tão rico e abundante? O que ocorre, segundo Boutier e Julia é uma transformação dos grandes modelos de inteligibilidade que, por muitos anos, foram usados pelos historiadores no exercício de sua profissão. Além disso, trata-se dos desafios impostos por outras disciplinas à história. O próprio estatuto da disciplina é colocado em jogo. A história tornar-se-ia simples gênero literário, perdendo, conseqüentemente, toda a pretensão de discurso verdadeiro. Uma das fontes do problema está justamente no fato da história tornar-se patrimônio comum. Assim como a pintura e a música de amadores, qualquer um pode fazer história, diferente do que acontece com disciplinas como a antropologia, a biologia ou a matemática. Haja vista tal discussão – que é muito antiga na historiografia, remontando a Bloch – é no método, nas operações técnicas e nos procedimentos que os historiadores vão se apegar para legitimar seu ofício.

Os grandes paradigmas dão lugar então a um arsenal diversificado de instrumentos e de abordagens teóricas tomadas de empréstimo das outras ciências sociais. Nenhuma dessas formulações volta a ter ambições totalizantes. Duas tendências merecem destaque nesse momento. Em primeiro lugar a micro-história italiana, representada principalmente por Ginzburg e Levi – que busca um deslocamento de foco, considerando condutas pessoais e os destinos familiares, compreendendo as racionalidades específicas que informam comportamentos de determinadas categorias sociais. Em segundo lugar surge uma corrente historiográfica que restringe o campo de observação a parcelas de discursos e de fragmentos de vida. Diferentemente da micro-história, essa abordagem repousa sobre a importância atribuída ao detalhe, quase insignificante: não mais modelos formais, mas um retorno voluntário à desordem e às descontinuidades – a tudo o que rompe a normalidade majoritária.

Como disciplina, a história não para de reformular seus próprios problemas, pois, afinal, a percepção das realidades humanas que nos cercam também não para de se modificar. O presente não deixa de interrogar o passado, obrigando o historiador a retomar suas pesquisas, reformular questões, e mudar métodos. “Como qualquer outra disciplina científica, a história possui suas dinâmicas internas: ela conhece os entusiasmos e os desânimos dos pesquisadores, as submissões e as rebeldias, ela possui suas enquetes ‘normais’ e suas ‘revoluções científicas’”.

Referência: BOUTIER, Jean e JULIA, Dominique (orgs.). Passados recompostos: campos e canteiros da história. Rio de Janeiro: UFRJ e Fundação Getúlio Vargas, 1998, pp. 21-53.