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Sem Teorias da Conspiração

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O livro The Naked Communist (O Comunista Nu), escrito em 1960 pelo ex-agente do FBI Cleon Skousen, traz 45 passos para a implantação do comunismo no mundo, muitos dos quais permanecem como direção obtetiva para alguns, e subjetiva para outros – os da chamada de esquerda cultural.

 1. Aceitação dos EUA de coexistência como a única alternativa para a guerra atômica.

2. Disposição dos EUA em render-se ao invés de engajar-se em uma guerra atômica.

3. Desenvolver a ilusão de que o desarmamento total pelos Estados Unidos seria uma demonstração de força moral. {alcançado em parte}

4. Permitir o livre comércio entre todas as nações, independentemente da filiação comunista e independentemente de haver ou não itens que poderiam ser usados ​​para a guerra.

5. Extensão de empréstimos de longo prazo para a Rússia e países satélites soviéticos.

6. Fornecer ajuda americana para todas as nações independentemente da dominação comunista.

7. Concessão do reconhecimento da China Comunista. Admissão da China Comunista na ONU.

8. Configurar a Alemanha Oriental e a Ocidental como Estados separados, apesar da promessa de Kruschev, em 1955, para resolver a questão da Alemanha por eleições livres sob supervisão da ONU. {perdeu o sentido a partir da queda do muro de Berlim}

9. Prolongar as conferências para proibirem os testes atômicos porque os EUA tem concordado em suspender os testes, desde que as negociações estejam em andamento. {perdeu o sentido com a queda da URSS quase trinta anos depois}

10. Permitir que todos os países satélites soviéticos tenham uma única representação na ONU. {perdeu o sentido com a queda da URSS quase trinta anos depois}

11. Promover a ONU como a única esperança para a humanidade. Se a sua carta régia for reescrita, exigir que lhe seja instituída como governo mundial com suas próprias forças armadas independentes. (Alguns líderes comunistas acreditam que o mundo pode ser assumido pela ONU tão facilmente quanto por Moscou. Às vezes, estes dois competem uns com os outros como eles estão agora fazendo no Congo).

12. Resistir a qualquer tentativa de proibir/ilegalizar o Partido Comunista

13. Acabar com todos os juramentos de fidelidade. {esse é um item muito subjetivo}

14. Continuar dando acesso à Rússia ao escritório de patentes dos Estados Unidos. {funcionou por alguns anos, perdeu o sentido depois das mudanças geopolíticas}

15. Dominar um ou ambos os partidos políticos nos Estados Unidos.

16. Usar as decisões técnicas dos tribunais para enfraquecer instituições básicas dos EUA alegando que suas atividades violam os direitos civis.

17. Obter o controle das escolas. Usá-las como canais de transmissão para o socialismo e propaganda comunista atual. Suavizar o currículo. Obter o controle de associações de professores. Colocar a ideologia do partido nos livros didáticos.

18. Ganhar o controle de todos os jornais estudantis.

19. Usar as manifestações de estudantes para fomentar protestos públicos contra programas ou organizações que estão sob ataque comunista.

20. Infiltrar-se na imprensa. Obter o controle na tarefa de revisão dos livros, nos editoriais e as posições de tomada de decisões.

21. Ganhar o controle de posições-chave no rádio, TV e cinema.

22. Continuar desacreditando a cultura americana através da degradação de todas as formas de expressão artística. Para uma célula Americana Comunista foi dito para “eliminar todas as boas esculturas de parques e edifícios, substituindo-as por outras disformes, inábeis e com formas sem sentido”.

23. Controlar os críticos de arte e diretores de museus de arte. “Nosso plano é promover a feiúra, a arte repulsiva sem sentido”.

24. Eliminar todas as leis de obscenidade, chamando-as de “governo da censura” e uma violação da liberdade de expressão e liberdade de imprensa.

25. Quebrar os padrões culturais da moralidade através da Promoção da pornografia e obscenidade em livros, revistas, filmes, rádio e TV.

26. Apresentar a homossexualidade, a degeneração e a promiscuidade como algo “normal, natural e saudável”.

27. Infiltrar-se nas igrejas e substituir a religião revelada com a religião “social”. Desacreditar a Bíblia e enfatizar a necessidade de maturidade intelectual que não precisa de uma “muleta religiosa”.

28. Eliminar a oração ou qualquer fase da expressão religiosa nas escolas sobre o fundamento de que viola o princípio da “separação entre Igreja e Estado”.

29. Desacreditar a Constituição norte-americana, chamando-o de inadequada, antiquada, fora de sintonia com as necessidades modernas, um obstáculo para a cooperação entre as nações em uma base mundial.

30. Desacreditar os pais-fundadores americanos. Apresentá-los como aristocratas egoístas que não tinham nenhuma preocupação com o “homem comum”.

31. Menosprezar todas as formas de cultura americana e desencorajar o ensino da história americana com o fundamento de que era apenas uma pequena parte da “grande figura”. Dar mais ênfase à história russa desde que os comunistas tomaram o poder. {reescrever a história é uma das abordagens feitas hoje, tanto nos EUA quanto no Brasil}

32. Apoiar qualquer movimento socialista para dar o controle centralizado sobre qualquer parte da cultura – educação, serviços sociais, programas de bem-estar, clínicas de saúde mental, etc.

33. Eliminar todas as leis e procedimentos que interferem com o funcionamento do aparelho comunista.

34. Eliminar o Comitê de Atividades Anti-Americanas.

35. Eventualmente desacreditar e desmantelar o FBI. {ficou mais fácil aparelhar o FBI, como aparelharam outros inúmeros orgãos o que também ocorre no Brasil}

36. Infiltrar e ganhar o controle de mais sindicatos.

37. Infiltrar e ganhar o controle de um grande negócio. {não só um, hoje dominam vários e de todos os tipos}

38. Transferência de alguns dos poderes de prisão da polícia para entidades sociais. Tratar todos os problemas de comportamento como distúrbios psiquiátricos dos quais ninguém, exceto Psiquiatras, conseguem entender ou tratar.

39. Dominar a profissão psiquiátrica e usar as leis de saúde mental como um meio de ganhar controle coercivo sobre aqueles que se opõem aos objetivos comunistas.

40. Desacreditar a família como uma instituição. Incentivar a promiscuidade e o divórcio fácil.

41. Ressaltar a necessidade de educar os filhos longe da influência negativa dos pais. Atribuir preconceitos, bloqueios mentais e retardo de crianças à supressão da influência dos pais.

42. Criar a impressão de que a violência e a insurreição são aspectos legítimos da tradição norte-americana; que os estudantes e grupos de interesses especiais devem se levantar e usar “força unida” para resolver os problemas econômicos, políticos ou sociais.

43. Derrubar todos os governos coloniais antes das populações nativas que estão prontos para o auto-governo.

44. internacionalizar o Canal do Panamá.

45. Revogação da Reserva Connally para que os EUA não possam impedir o Tribunal Mundial de se apossar da jurisdição sobre problemas domésticos. Dar ao Tribunal Mundial jurisdição sobre as nações e os indivíduos.

Para saber mais:

 

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Marcos Candeloro: O dia em que deixei de acreditar no curso de história da USP

Por Marcos Paulo Candeloro, 26 anos, graduado em História pela USP, pesquisador na área de Ciência Política e professor de História, Sociologia e Filosofia no Ensino Médio privado de Ribeirão Preto (SP).

Em frente ao edifício da reitoria da Universidade de São Paulo, as pessoas se concentravam para a Assembleia Geral. No estacionamento, veículos de comunicação aguardavam os desdobramentos da noite, impedidos de avançar por militantes mascarados. Era novembro de 2011 e havia duas semanas que a greve dos professores, as manifestações na Paulista e a invasão da reitoria arrebataram as principais manchetes nacionais. Os estudantes se revoltavam contra o acordo firmado entre reitoria e Polícia Militar, que se tornaria responsável pelo policiamento da perigosa Cidade Universitária.

Aquele foi meu terceiro e mais difícil ano na graduação em História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Naquela altura, já eram evidentes as consequências relacionadas às minhas posturas políticas e acadêmicas. Fui escarnecido e quase reprovado ao fundamentar no conservador Edmund Burke minha dissertação sobre a Revolução Francesa. Minha negação em assinar um protesto contra a presença da PM no campus transformou, de imediato, alguns amigos em inimigos. Por pouco não apanhei de uma horda raivosa de feministas pacifistas quando, quase que por acidente, classifiquei como loucura a acusação, presente num coletivo, de que a disciplina História Industrial era burguesa e machista.

Cheguei muito próximo de meu limite. Estava eu errado em não me ajustar, ser tão diferente? Afinal, em meu currículo não constava um “professor doutor” antes do nome. Vivia a agonia do desajustado, do deslocado.

A Assembleia prosseguia quando, subitamente, fui tomado por um ímpeto que me levou à lista dos inscritos: o primeiro tema rejeitado por votação consistia em um convite de Heródoto Barbeiro para um breve debate televisivo. Não houve qualquer ponderação, apenas rejeição. Indignado, decidi retomar o convite e argumentar em seu favor. Tratava-se de um respeitado comunicador, além da oportunidade sem igual de estabelecer diálogo com o contribuinte que sustentava aquela insanidade.

À minha esquerda, a mesa organizadora anunciou minha participação. Diante de meus pés, uma multidão de dois mil alunos e docentes. Destinei os dois primeiros minutos à urgência em finalmente abandonar a torre de marfim acadêmica. Para mim, “era evidente e grave o descompasso acadêmico, em quase todas as suas expressões, com o resto do mundo. Se, afinal, tratava-se de um movimento legítimo, por que não dar a cara a tapa?”. Foi a última frase que completei antes de ser silenciado por coléricas vaias. Catedráticos, alguns dos quais meus professores, gritavam e urravam em consonância com a multidão. Diante de mim, a elite intelectual uspiana desmanchava-se raivosamente em uma pantomima simiesca.

A mesa organizadora, de má vontade e sem muito sucesso, pediu respeito e silêncio. Retomei a argumentação sem saber bem o porquê, talvez por inércia. Esforcei-me para concluir a proposta, mas fui histericamente interrompido por dois ou três indivíduos zurrando que ir aos estúdios televisivos era coadunar com o grande capital (não, não estou brincando). Em poucos instantes uma nova rodada de vaias foi iniciada. Devolvi educadamente o microfone aos organizadores, dei às costas e segui para o estacionamento apinhado de veículos de imprensa. O sorriso foi inevitável ao finalmente constatar que a USP estava perdida numa esquizofrenia utópica. Fui tomado pelo alívio compreensivo de que, de fato, aquele não era meu lugar. Percebi que o curso de história da USP não formava acadêmicos. Formava militantes.

Explica Tudo e Explica Trump

Coluna brilhante de Flavio Quintela.

http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/colunistas/flavio-quintela/eu-disse-578m2azkjr2gonb5jmptcth6n

Eu disse

Afinal, por que os americanos elegeram Donald Trump? É simples: porque não querem deixar de ser americanos

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Este que vos escreve declarou, seis semanas atrás, nesta mesma coluna, que Donald Trump seria o próximo presidente dos Estados Unidos. Na ocasião, eu disse que confiava no método preditivo do professor Helmut Norpoth, que indicava a vitória do republicano justamente pelo caráter plebiscitário da eleição americana.

As eleições desta terça-feira mostraram que o povo americano rejeitou o atual governo de todas as formas. Donald Trump levou a presidência, e os republicanos mantiveram as maiorias no Congresso e no Senado. De quebra, Trump indicará um juiz para a Suprema Corte, que deverá voltar a ter maioria conservadora. Foi uma verdadeira goleada, uma que calou quase toda a mídia brasileira e internacional. Os jornais televisivos brasileiros, na manhã seguinte à eleição, mostraram âncoras, repórteres e analistas que não conseguiam acreditar no que estavam falando e estampavam em seus rostos um lamento profundo.

Mas, afinal, por que os americanos elegeram Donald Trump? É simples: porque não querem deixar de ser americanos. Esta grande nação, fundada em fortes princípios democráticos e com um apreço pela liberdade como nenhuma outra, conseguiu resistir aos golpes desferidos continuamente pela administração de Barack Obama contra os fundamentos constitucionais que têm sustentado os Estados Unidos em sua posição de liderança do mundo livre. Obama, Hillary e a grande maioria dos democratas promoveram, nos últimos oito anos, uma agenda antiamericana, tentando minar diversos pilares de sua democracia, como o direito à legítima defesa, a liberdade religiosa, a propriedade privada e a primazia do indivíduo e da família, entre outros. Sob Obama, os americanos empobreceram, ficaram mais preguiçosos, aprenderam que ninguém vence apenas com os próprios esforços e quase foram convencidos a substituir o orgulho e o patriotismo pela vergonha.

Hillary Clinton, durante sua campanha, tentou convencer o eleitorado de que faria melhor que o seu antecessor, mas suas propostas não passaram de mais do mesmo: aumentar o salário mínimo, criar direitos para mulheres e minorias, desarmar a população, aumentar a entrada de refugiados e ser leniente com os imigrantes ilegais. Talvez ela não tenha reparado que mais da metade dos americanos está mais pobre hoje do que dez anos atrás – mesmo com um salário mínimo maior –; que ninguém além dos ativistas dá a mínima para essa conversa de direitos de minorias; que os terroristas do Estado Islâmico têm tocado o terror no mundo graças ao coração mole dos estadistas ocidentais; e que os imigrantes legais são os que votam, e eles não querem nem ver os ilegais por perto. Se tentasse, ela não conseguiria ser mais dissonante com a realidade do que foi.

A beleza da vitória de Trump está justamente na reação desse povo. O americano não é predominantemente cosmopolita, muito pelo contrário. O jeito californiano ou novaiorquino de ser passa longe do americano médio, aquele que quer ter uma vida boa e simples: família, casa, carro, igreja aos domingos, um pouco de diversão e menos governo metendo o nariz onde não é chamado. É o cara que fica indignado ao ver bebês inocentes sendo assassinados com a bênção do Estado, que é altruísta em sua comunidade, que tira do seu tempo para treinar o time local de basquete, que tem orgulho de todos os combatentes e policiais da nação, que não fica com um centavo sequer de troco errado, que sai de calça de moletom, meia e chinelo porque não está nem aí para o que os outros pensam. Foram esses americanos que elegeram Donald Trump. O país é deles, e eles souberam tomar a melhor decisão possível. Deus abençoe a América.

J. R. Guzzo: O delito de ser livre

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Nessa semana tive a oportunidade de ler o texto de J. R. Guzzo, publicado na edição impressa da Veja, que transparece bem o sentimento de indignação que alguns de nós brasileiros temos – não todos, apenas aqueles que movimentam a máquina do mundo, a despeito da maré, sempre contrária – por ter nossas vidas invadidas e espezinhadas por esse Frankenstein verde e amarelo que, por aqui, chamamos de Estado. Nosso desejo e luta – em consonância com uma moderna visão de mundo e de economia, deve ser por um governo enxuto, um Estado fundamental, e uma burocracia menos opressora. Se quisermos crescer com inteligência, devemos crescer como indivíduos, deixando de lado o patriarcalismo arcaico que corta as asas da nossa sociedade.

Segue o brilhante texto:

Na ofensiva contra a liberdade, fica cada vez mais difícil viver nos termos da Constituição, segundo a qual todo brasileiro, respeitada a lei, tem o direito de se conduzir como prefere.

Não está fácil para ninguém, hoje em dia, cuidar da própria vida com um pouco de paz. É uma expectativa modesta, no fundo, quando se entende que esse sossego significa apenas poder contar com uma ou outra garantia básica. Trata-se de não ter em volta de si, cada vez mais, todo um sistema decidindo o que é melhor para você, e isso para “o seu próprio bem” — e que determina, também, o que é preciso pensar, dizer ou fazer diante de praticamente tudo. Seria um alívio, igualmente, viver em um mundo onde as coisas não estivessem divididas, como vai se tornando regra, apenas entre as obrigatórias e as proibidas. Ou, enfim, onde fosse possível a cada um simplesmente pensar e agir segundo a própria cabeça. Deveria valer, em todos esses casos, a Constituição em vigor, que dá a qualquer brasileiro o direito de se conduzir como prefere, bastando para tal respeitar o que diz a lei. Mas o fato é que o dia a dia do cidadão não está sendo assim. Existe hoje uma guerra não declarada, presente no debate político, nos meios de comunicação e até nos currículos escolares, contra quem quer se comportar de maneira independente — e o que está em jogo, aí, é a liberdade.

“Parece que odiamos viver em liberdade”, escreveu tempos atrás o sociólogo Bolívar Lamounier. Parece mesmo. A história começa com a pressão, cada dia maior, em favor da “intermediação do Estado” no máximo possível de aspectos da existência humana. De acordo com essa visão do universo, qualquer coisa, para ser lícita, tem de ter a permissão, a gerência ou o reconhecimento de algum tipo de autoridade pública, ou mesmo privada. É como se a sociedade tivesse a obrigação de aceitar que o governo tome a maioria das decisões para cada um de nós, da tomada elétrica de três pinos ao que os alunos devem aprender nas aulas de geografia. Funciona como uma espécie de mandamento religioso, sem a aplicação do qual nada pode ser bom, legítimo ou permitido por lei. Na verdade, quando se ouvem as pregações mais rigorosas sobre o assunto, certas coisas nem deveriam existir, já que não são oficialmente “reconhecidas” pelo poder público. O ângulo reto, por exemplo, não tem existência legal no Brasil; não está regulamentado por lei e, portanto, não existe. Para muita gente boa, é mais ou menos por aí o caminho certo.

Vivemos um tempo no qual se pretende negar ao cidadão que não utiliza o transporte público o direito de escolher o tipo de carro que quer pagar, com o próprio dinheiro, para ir de um lugar a outro; tem de ser táxi, que é supervisionado pela prefeitura, e, portanto, é o único meio legal. É tido como grave delito social defender o livre acordo entre patrões e empregados a respeito de salários e outras questões; as partes, até quando querem exatamente a mesma coisa, não podem se entender “à margem da lei”. Um jornalista só poderá ser um jornalista se o Estado disser que ele é jornalista; sem isso, estará exercendo ilegalmente a profissão. É proibido vender um quilo de linguiça caseira sem licença do SIF. A liberdade de empreender, que se imaginava algo positivo, é vista como uma “teologia” que conduz ao “fascismo”.

A liberdade de prosperar, nessa mesma toada, recebe frequentes sentenças de condenação — ela levaria o indivíduo a trabalhar para ganhar mais dinheiro que os outros, e isso vai contra suas obrigações de colaborar para a construção de uma sociedade igualitária. As classes intelectuais em geral e as organizações sindicais em particular combatem abertamente a remuneração pelo talento, pelo mérito e pelo esforço individual, por acharem que essa modalidade de incentivo produz concentração de renda e desigualdade.

Este é um clima em que não é bom identificar-se como indivíduo. Nos tempos atuais, segundo o evangelho pregado mundo afora, é preciso ser “representativo” de alguma coisa: um grupo, uma classe social, um conjunto de posturas, um sistema de pontos de vista, de crenças ou de costumes, e por aí vai. Você não é você — é representante de algum tipo de “coletivo”. Também se trata de uma atmosfera em que é péssimo discordar. Considere-se a palavra “fascista”, por exemplo, usada a cada cinco minutos nos debates de hoje no Brasil: para se adequar à sua utilização corrente, deveria mudar de significado nos dicionários oficialmente aceitos. Atualmente quer dizer: “alguém que não concorda com você”, ou “algo de que você não gosta” — caso, naturalmente, você faça parte dessa nebulosa chamada “esquerda”, ou se considere alguém “moderno”. O mesmo acontece com “preconceito” — passou a ser qualquer posição diferente da sua. Em suma: é proibido acreditar naquilo que a pessoa acredita. É como se a humanidade estivesse de volta ao tempo da encíclica Mirari Vos, menos de 200 anos atrás, na qual se dizia que a liberdade de consciência era um “erro corrupto”, além da “maior e mais poderosa peste do mundo moderno”.

A origem mais aproximada disso tudo, para quem não é atraído por complicações, talvez seja simplesmente o seguinte: falta do que fazer. Num mundo cada vez mais carente de causas que valham realmente esse nome, passam a ser causas a criação de porcos orgânicos, a ampliação das terras indígenas ou a “identidade de gêneros”. (Ao que parece, é “fascista” alguém achar que tem direito a se identificar apenas como homem ou mulher.) Há, por cima de tudo, um vago incômodo contra a “injustiça social”, e desejos moles de acabar com o capitalismo — que, na falta de outra coisa, é identificado como a causa das injustiças e da desigualdade. Em vez dele, propõe-se a “intermediação do Estado” para resolver tudo o que está errado.

O problema é que os promotores dessas sensações (não chegam a ser crenças, nem mesmo opiniões) vivem invariavelmente no ambiente de abundância que o capitalismo criou pelo mundo afora — e só existem por causa dela. Tudo o que o homem produz vai ficando mais barato; cada vez mais gente tem acesso a mais coisas. Cinquenta anos atrás era preciso ser rico para ter um carro, ou entrar num restaurante. Hoje essas coisas estão disponíveis para milhões. Vive-se, em suma, em um mundo de sobras — um facilitador decisivo para quem quer se lamentar. A escassez leva ao trabalho. A sobra leva ao ócio — e uma das consequências diretas do ócio é a soma de despeito e inconformismo contra o sistema de liberdade econômica, que ganhou e ganha cada vez mais. É um contrassenso: na vida real o capitalismo é a única forma de organização social que dá chances aos pobres e cria a maior igualdade que dizem defender. O fato é que não existe nenhum caso de melhora de renda ou de bem-estar dos pobres em sistemas em que não há liberdade econômica. Mais: os pobres jamais avançam quando a economia capitalista passa momentos de dificuldade; só melhoram quando há crescimento, investimento privado e lucro. A ofensiva contra a liberdade nos leva de volta à teoria da Terra plana — a épocas da história que morreram e não podem mais voltar.

Texto acessível em: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/feira-livre/j-r-guzzo-o-delito-de-ser-livre/

O que a Coreia fez e o Brasil não

Artigo publicado inicialmente na Gazeta do Povo por José Pio Martins.

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Um dos mais extraordinários exemplos de crescimento econômico e superação da pobreza no pós-guerra é a Coreia do Sul. Há 70 anos, o país era pobre. Em 1945, foi dividido em dois: a Coreia do Norte, que permanece uma ditadura comunista miserável e atrasada até hoje; e a Coreia do Sul, que assombrou o mundo com seu desenvolvimento e continua a dar lições de como crescer e progredir.

Com 50 milhões de habitantes, a Coreia tem renda per capita de US$ 30 mil, contra US$ 11 mil do Brasil. É um dos países mais desenvolvidos do mundo, que se destaca por sua moderna indústria nacional, altas tecnologias e elevado nível de bem-estar social. Com população quatro vezes maior, o Brasil não tem uma única marca de veículos genuinamente nacional, e somos compradores dos produtos das coreanas Hyundai e Kia, além de outras gigantes como Samsung e LG.

Para começar, após o fim da guerra contra a vizinha do norte, a Coreia do Sul abraçou o capitalismo sem pruridos ideológicos, enquanto o Brasil nunca foi verdadeiramente capitalista e sempre viu a economia de mercado com certa desconfiança. O governo coreano definiu que seu escopo seria a fixação da estratégia de crescimento econômico e a criação de condições para a modernização capitalista. As reformas que vieram a seguir tiveram essas duas diretrizes como base e o país teve um surpreendente surto de desenvolvimento a partir dos anos 70.

O êxito coreano se deve, entre outros, a cinco fatores: a reforma agrária implantada no pós-guerra, que diminuiu sensivelmente a pobreza rural; o programa educacional, com maciços investimentos na educação de base sem a cultura bacharelesca latino-americana; a adoção do planejamento familiar; a abertura para o exterior e priorização de indústrias voltadas à exportação; investimentos pesados em infraestrutura de transportes, comunicações e tecnologias de ponta.

A Coreia entendeu que o motor do crescimento econômico é a empresa, não o Estado, e que a figura central da criação de riqueza é o empreendedor, não o burocrata estatal. Curiosamente, a Coreia demorou para estabilizar seu sistema de governo, após titubear sob governantes autoritários e tumultos políticos. No ranking internacional, o país é considerado o mais inovador do mundo, o que somente é possível pelo respeito reverencial ao pesquisador, ao inventor, ao empreendedor e ao educador.

Já o Brasil não se libertou da cultura bacharelesca (que valoriza mais as letras que a tecnologia), do apego subserviente ao Estado (que desconhece a expressão “satisfação do cliente”, mesmo vivendo à custa deste) e da aceitação envergonhada da economia de mercado. Nosso país tem uma relação esquizofrênica com o capitalismo. Adotamos o sistema, mas tratamos mal seu principal ator – o empresário –, não conseguimos entender a lei da oferta e da procura e seguimos acreditando, ingenuamente, que para cada problema individual há sempre uma solução estatal.

Mas a grande revolução coreana foi na educação. Ao dar ênfase à educação das mulheres, uma legião de trabalhadoras qualificadas foi formada e a explosão populacional foi contida. Ao priorizar a educação de base, o analfabetismo foi vencido e a competência técnica foi adquirida. Ao concentrar os recursos (sempre escassos) no ensino tecnológico e no domínio das matemáticas, uma multidão de trabalhadores tecnicamente preparados lançou o país ao sucesso econômico.

Bem, não é preciso ir longe para entender o que a Coreia fez e o Brasil não…

José Pio Martins, economista, é reitor da Universidade Positivo.

 

Sobre a governabilidade – Texto do Jabor

As vezes, não sempre, o Arnaldo Jabor brilha. Na crônica de ontem aconteceu de novo. Falando sobre o PMDB e a governabilidade, a velha política, e o caráter plástico do passado corrupto que está enraigado em nossas casas de leis, Jabor nos saboreou com um belo banquete de realidade.

h_ministros_corruptos_no_pmdb_20111128_1270558698Segue o texto:

O neo-PMDB

‘Não sei quem vai ganhar, mas estou numa boa, porque eu já estou eleito’

“O segundo turno está delineado: Dilma x Aécio. Tudo bem. Eu não sei quem vai ganhar, mas estou numa boa, porque eu já estou eleito. Eu sou do PMDB e todos sabem que sem mim ninguém governa o Brasil. Temos interesses, claro. Queremos muitos cargos nos ministérios importantes porque, sem nós, não tem comuna ou liberal ou seringueira que se dê bem.

Não há casamento sem interesse. É belo o interesse. A honestidade alardeada é hipocrisia de teóricos. Não é assim que essa tigrada do PT fala: ‘os fins justificam os meios’? Pois é, nós somos os meios.

Digamos que a presidenta se reeleja; ela virá com a tropa toda para se vingar das campanhas movidas contra o desastre de seu primeiro governo. Mas, nós seremos os para-choques, os amortecedores do desejo utópico que eles professam de tudo controlar. Não conseguirão realizar seu sonho ideológico, esse Frankenstein de ‘bolivarianismo’ com um ‘janguismo’ tardio, um getulismo do Estado Novo, um neoperonismo e neopeleguismo tropical. Nós dissolveremos tudo. Não que sejamos democratas convictos, mas somos os defensores das anomalias criativas que nos formaram. Não entendem?

Explico. O PMDB é um exército de amigos unidos — qual o mal? Admire a beleza superior deste imenso patrimônio espiritual que nós possuímos, tanto em nosso partido como nas alas aliadas. É uma beleza feita de amizades, famílias amplas, burocratas cooperativos. E tem mais: nós do PMDB temos um projeto, sim, para este pais… Um projeto muito mais pragmático, mais progressista que esse dogmas de 1917 — abstrações ridículas como ‘controle social’, ‘comitês centrais’, ‘palavras de ordem’.

Esses comunas pensam que a gente é babaca. São séculos de aprendizado. O PMDB é uma das mais belas florações de nossa história. E nossos fins são sábios, experientes, são frutos de uma grande tradição brasileira que os maldosos chamam de ‘corrupção’, quando são hábitos incrustados em nossa vida como a cana, o forró, nossos bigodes que chamam de ‘brega’, as ancas das amantes risonhas com joias de ouro tilintando diante da palidez infeliz de nossas esposas. Vocês não entendem que isso é a cara do país? Vocês jornalistas reclamam de nossa ‘voracidade’. E os milhares de petistas que invadiram o batatal do poder para comer tudo, os ex-pelegos hoje de gravata? Quem disse que eles são mais brasileiros do que nós? Eles são clones, covers de leninistas antigos, são russos ou cubanos ou venezuelanos honoris causa.

Nosso projeto é mais Brasil… ‘São coisas nossas, muito nossas…’, como cantou o Noel. Nosso projeto é uma girândola de malandragens, de negociatas que deixam cair pelas brechas das maracutaias migalhas de progresso. É isso aí: tudo o que houve de bom no país foi fruto do adultério entre o privado e o público.

Não, caro jornalista, não há corrupção no PMDB — trata-se apenas da continuação de um processo histórico. O dinheiro que arrecadamos em emendas do orçamento, em gorjetas justas entre empresas e burocratas, não pode ser tratado como ‘corrupção’ de uma maneira simplista. Esse dinheiro sempre foi a mola do crescimento do país. Haveria Brasília sem ela? Onde estaríamos nós — na roça de um país agropastoril? Essa é a eterna verdade desde a Colônia, tão eterna quanto a miséria que sempre haverá. A classe dominante deste país é uma grande família, unida por laços de amizade total, mesmo que definhe sob nossos pés a massa de escravos em seus escuros mundos.

Ai, que angústia! Eu queria estar no futuro. Quem ganhará no segundo turno? A gorda brizolista ou o tucano pós-moderno?

Se o Aécio for presidente, ao menos ele conhece a dinâmica de nossos processos, ele é neto de um grande negociador que nos entendia bem.

Se Dilma ganhar e quiser nosso apoio para governar, ela vai penar. Que contrapartidas ela nos dará? Quanta grana para a nossa cumbuca? Se ela nos olhar com o mesmo desprezo com que julga os parlamentares, se quiser nos dar esporros e enganações, ela vai quebrar a cara, vai ter de botar o galho dentro.

Hoje, o PMDB tem uma missão mais séria do que nunca. Temos a fama, a pecha, a nódoa, a tacha de sermos oportunistas e desonestos. Tudo bem, temos esses traços de caráter em nossa formação, mas agora conquistamos uma nova ideologia. Somos herdeiros do velho MDB, que já teve uma grandeza abstrata, até meio ridícula, com aqueles sonhos ideais do Ulysses Guimaraes, (oh, velho ingênuo). Agora temos uma meta, uma tarefa muito mais profunda: manter o Brasil em banho-maria contra mudanças e novidades. O PT, que nos desprezava, ‘desapropriou’ muito mais do que nós e, justiça feita, repartiu (se bem que contrafeito) parte de seus lucros conosco.

PMDB-chargeVai surgir um novo PMDB, muito além da velha guarda de Sarney, Renan e outros. O neo-PMDB é muito mais aguerrido, com consciência de sua missão: impedir que o Brasil entre em delírio utópico de comunas malucos e impeça o livre funcionamento da boa e velha política parlamentar. Vigilantes, seremos a peneira da nacionalidade.

Nós somos muito mais o Brasil profundo do que esse bando de falsos revolucionários que chegaram ai, com um sarapatel de ideias superadas de um leninismo mal lido, um getulismo tardio e um desenvolvimentismo sem JK. Só o PMDB explica o Brasil de hoje. Eu, por exemplo: tenho 400 anos desde meu bisavô negreiro e tataravô degredado. Eu tenho raízes, tradição. Durante quatro séculos, homens como eu criaram capitanias, igrejas, congressos, labirintos.

Mas, Dilma, não se preocupe. Eu sou otimista — acho, sim, que a aliança PT-PMDB poderá ser doce e linda. Mas, do nosso jeito: vaselina, mãos nas coxas, só a cabecinha, nada de penetrações radicais. Tudo bem que censurem a imprensa e coisas menores, mas em nosso passado de donatários ninguém toca.

Temos no peito o orgulho de proteger a sobrevivência de nossa colonização portuguesa.

O PMDB é a salvação da democracia; suja, mas muito nossa.”

O texto se encontra em http://oglobo.globo.com/cultura/o-neo-pmdb-14163845